Num aumento significativo das tensões no Estreito, a China conduziu extensos exercícios militares em resposta ao discurso inaugural do líder taiwanês William Lai Ching-te. O discurso de Lai, que afirmou firmemente que “nem a República da China, nem a República Popular da China são subordinadas uma à outra”, foi percebido por Pequim como uma provocação separatista, o que levou o Exército de Libertação Popular (ELP) a conduzir exercícios militares em redor da ilha.
Durante os exercícios, caças carregados com munições reais e bombardeiros organizaram formações em conjunto com navios de guerra para simular “ataques contra alvos importantes”, segundo a emissora estatal chinesa CCTV.
Tong Zhen, da Academia de Ciências Militares da China, disse à agência de notícias estatal Xinhua que os exercícios “visaram principalmente os líderes e o centro político da ‘independência de Taiwan’ e envolveram ataques simulados de precisão contra alvos políticos e militares importantes”.
Meng Xiangqing, professor da Universidade de Defesa Nacional, com sede em Pequim, disse que os navios do ELP “nunca estiveram tão perto da ilha”, marcando presença inclusive na costa leste de Taiwan, considerada pelo ELP como a costa mais provável de surgir uma intervenção externa de apoio às forças militares da Formosa.
Os exercícios começaram apenas três dias depois de Lai Ching-te ter tomado posse como o novo líder de Taiwan, sucedendo a Tsai Ing-wen e mantendo e mantendo o Partido Democrático Progressista (DPP, na sua sigla em inglês) no poder por um inédito terceiro mandato consecutivo.
Parada e resposta
“As narrativas de Lai enquadram-se no pensamento comum em Taiwan, mas as nuances no seu discurso não enganaram a China Continental, especialmente porque rejeitou a ideia de um conceito mais amplo de ‘nação chinesa’, expresso durante a segunda Cimeira Ma-Xi em abril”, explica James Yifan Chen, professor assistente do Departamento de Diplomacia e Relações Internacionais da Universidade de Tamkang.
O Presidente Xi Jinping encontrou-se com o ex-líder de Taiwan, Ma Ying-Jeou, em Pequim a 10 de abril -depois das eleições – num momento em que as tensões com Taipei continuavam elevadas.

“As narrativas de Lai enquadram-se no pensamento comum em Taiwan, mas as nuances no seu discurso não enganaram a China Continental”
James Chen, professor assistente do Departamento de Diplomacia e Relações Internacionais da Universidade de Tamkang
Após o encontro, Xi indicou que inferências externas não poderiam impedir a “reunião familiar” entre os dois lados do Estreito e que não haveriam questões que não pudessem ser discutidas.
Desde que o Governo derrotado da República da China fugiu para Taiwan em 1949, após perder a guerra civil para os comunistas de Mao Zedong, nenhum líder taiwanês em exercício visitou o interior da China.
Com a visita, Ma tornou-se o primeiro ex-líder taiwanês a visitar o Continente chinês.
“Se houver uma guerra entre os dois lados, será insuportável para o povo chinês”, disse Ma na altura, usando um termo que se refere a pessoas que são etnicamente chinesas e não à sua nacionalidade. “Os chineses de ambos os lados do estreito têm sabedoria suficiente para lidar pacificamente com todas as disputas e evitar entrar em conflito.”

Segundo uma análise de Naiyu Kuo, analista para o Departamento da China do Instituto da Paz dos Estados Unidos, a visita para Ma teve como objetivo aumentar a sua própria relevância política, defender a visão de que Taiwan está histórica e culturalmente ligada à China, e estreitar as relações com o Continente.
James Chen enfatizou ao nosso jornal que a rejeição da ideia de ‘nação chinesa’ por Lai Ching-te foi um fator-chave por detrás dos exercícios do EPL, descrevendo a postura de do líder de Taiwan como inerentemente separatista aos olhos de Pequim.
Segundo Chen, os exercícios recentes foram menos intensosdo que os realizados aquando da visita da Presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, a Taiwan em agosto de 2022, que incluíram a declaração de uma zona de exclusão aérea. No entanto, para o analista, ainda representam uma demonstração significativa de força.
Começo atribulado
Para o analista político, Lai começou o seu mandato com grandes desafio internos e externos, tendo de lidar com reformas parlamentares avançadas pelos partidos da oposição, destinadas a limitar o poder executivo, e com a retórica agressiva do principal diplomata da China Continental, Wang Yi.

“Não foi um discurso de um político separatista extremo. Ele foi de facto firme, mas nada do que ele disse foi propositadamente ofensivo ou provocativo”
Mor Sobol, investigador associado ao Centro da União Europeia em Taiwan
Chen também destaca as implicações geopolíticas mais amplas, particularmente a confiança abalada entre Pequim e Washington. “O exercício militar também mostrou que Pequim não confia em Washington para deixar passar o discurso inaugural de Lai”, diz. “Washington deveria ter obtido alguns pontos de discussão do discurso de Lai. No entanto, os Estados Unidos ou carecem de sensibilidade, ou pretendem usar o discurso de Lai para irritar a China.” Segundo Chen, esta relação triangular complexa também torna difícil para Lai navegar suavemente no seu novo papel como líder de Taiwan.
Entretanto, Mor Sobol, investigador associado ao Centro da União Europeia em Taiwan, ofereceu ao PLATAFORMA uma perspetiva contrastante, sugerindo que o discurso de Lai não foi excessivamente provocativo. “Eu diria que o discurso de Lai, em grande medida, foi uma continuação direta da abordagem da sua predecessora às relações no Estreito”, afirmou o investigador. “Não foi um discurso de um político separatista extremo. Ele foi de facto firme, mas nada do que ele disse foi propositadamente ofensivo ou provocativo.”
O investigador salienta ainda o compromisso de Lai com a manutenção da paz e estabilidade. “Pelo menos por agora, a voz que vem de Lai é de que queremos manter o ‘status quo’, e que a paz e estabilidade no Estreito de Taiwan beneficiam ambos os lados.”
Segundo o académico, os recentes exercícios militares e as reações que provocaram sublinham o delicado equilíbrio que Taiwan deve manter nas suas relações com Pequim.
Falando numa reunião do DPP na cidade de Tainan, poucos dias depois dos exercícios militares, Lai apelou à China para “dividir a pesada responsabilidade da estabilidade regional com Taiwan”, de acordo com comentários fornecidos pelo seu partido.
Água na fervura
Após a simulação militar chinesa, Lai temperou o discurso, dizendo estar pronto para trabalhar com a China.
“Também espero reforçar a compreensão mútua e a reconciliação através de intercâmbios e da cooperação com a China… e avançar para uma posição de paz e prosperidade comum”, afirmou no mesmo evento, em Taipé, no dia 26 de maio.
Wen-ti Sung, membro não residente do Atlantic Council’s Global China Hub, disse à AFP que Lai “manterá firme a sua determinação” durante esta primeira interação com Pequim. “No entanto, não há dúvida de que procurará influenciar outros parceiros e amigos internacionais para facilitar a comunicação com Pequim”, acrescentou.