O entendimento sobre o Estreito de Ormuz foi anunciado pela Casa Branca após a reunião entre Xi Jinping e Donald Trump, realizada no Grande Palácio do Povo, na capital chinesa. “As duas partes concordaram que o Estreito de Ormuz deve permanecer aberto para apoiar o livre fluxo de energia”, indicou Washington.
Apesar do consenso sobre a rota marítima estratégica, a questão de Taiwan voltou a dominar uma parte significativa das conversações entre as duas potências.
Xi Jinping alertou Donald Trump de que erros na gestão do dossiê de Taiwan poderão empurrar a China e os Estados Unidos para um “conflito”, classificando o tema como “a questão mais importante” das relações bilaterais. “Se for mal gerida, as duas nações podem colidir ou até entrar em conflito, empurrando toda a relação China-EUA para uma situação altamente perigosa”, afirmou Xi, segundo a imprensa estatal chinesa.
O líder chinês defendeu ainda que os dois países “devem ser parceiros e não rivais”, evocando a chamada “Armadilha de Tucídides”, teoria política que descreve o risco de guerra entre uma potência emergente e outra dominante. “A cooperação beneficia ambos os lados, enquanto o confronto prejudica ambos”, acrescentou.
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Donald Trump chegou a Pequim com um discurso conciliador, descrevendo Xi como um “grande líder” e “amigo”, e afirmando acreditar que a relação entre os dois países “vai ser melhor do que nunca”. A deslocação marca a primeira visita de um Presidente norte-americano à China em quase uma década e decorre num contexto de profundas divergências comerciais e geopolíticas.
Na segunda-feira, Trump já tinha afirmado que pretendia discutir com Xi Jinping a venda de armamento norte-americano a Taiwan, uma posição que representa um afastamento da prática histórica de Washington de não consultar Pequim sobre esse tipo de decisões.
Após as declarações de Xi, as autoridades de Taipé acusaram Pequim de representar “o único risco para a paz e estabilidade regionais”, apontando as atividades militares chinesas na região como fator de tensão.
Analistas consideram que o tom utilizado por Xi Jinping foi particularmente direto. Adam Ni, editor da newsletter China Neican, afirmou à AFP que, embora este tipo de linguagem não seja incomum na diplomacia chinesa, é raro ouvir o próprio Xi utilizá-la de forma tão explícita. “Xi quer deixar muito claro que considera a questão de Taiwan um potencial barril de pólvora entre as duas superpotências”, afirmou.
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Também Chong Ja Ian, da Universidade Nacional de Singapura, considerou que Pequim poderá estar a tentar obter concessões de Washington antes de futuras negociações.
Além de Taiwan, o conflito entre Irão e Israel esteve igualmente no centro das discussões. Trump afirmou esperar uma “longa conversa” com Xi sobre o Irão, país que exporta grande parte do petróleo sancionado pelos EUA para a China. Apesar disso, o Presidente norte-americano insistiu que Washington não necessita da ajuda de Pequim. Já o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, disse esperar convencer a China a desempenhar “um papel mais ativo”.
As negociações comerciais entre as duas potências também ganharam destaque. Na véspera da cimeira, o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, reuniu-se na Coreia do Sul com o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng para procurar avanços na resolução da prolongada guerra comercial entre os dois países.
Xi Jinping afirmou que essas conversações produziram resultados “geralmente equilibrados e positivos” e apelou à preservação do atual “momento positivo”. Trump e Xi deverão discutir a extensão da trégua tarifária de um ano alcançada durante o encontro realizado na Coreia do Sul, em outubro passado.
Entre os temas em cima da mesa estão ainda os controlos chineses sobre exportações de terras raras, a rivalidade tecnológica na área da inteligência artificial e novos acordos comerciais nos setores agrícola e aeronáutico.
A acompanhar Trump estiveram vários empresários de topo norte-americanos, incluindo Jensen Huang, da Nvidia, e Elon Musk, da Tesla, presentes na cerimónia oficial de recepção no Grande Palácio do Povo.
Após a reunião da manhã, Trump e Xi visitaram o Templo do Céu, local histórico onde os antigos imperadores chineses rezavam por boas colheitas. Os dois líderes deverão reencontrar-se esta noite num banquete de Estado em Pequim.