Início Angola Angola deve negociar dívida com a China para deixar de estar “refém”

Angola deve negociar dívida com a China para deixar de estar “refém”

O economista e empresário Lima Campos defendeu a negociação da dívida angolana com a China, considerando que esta deixa Angola “refém” da potência asiática e está a criar uma situação económica e social extremamente complexa ao país.

“O que verdadeiramente considero importante por parte do executivo é a negociação da dívida com a China, e, no meu entender, não vejo outra alternativa, há que fazer o finca pé como fizeram outros países de África, nomeadamente a Zâmbia”, disse Lima Campos.

Em declarações à Lusa, o empresário sinalizou a importância de Angola negociar a dívida com a China, para onde tem sido canalizada grande parte do seu principal produto de exportação (o petróleo) para pagamento, “sacrificando a vida das empresas e dos cidadãos”.

“Tem que se colocar as cartas na mesa para a negociação da dívida [com a China]. Eu não posso estar a sacrificar o meu povo quando as divisas do país passaram a estar totalmente comprometidas com o pagamento da dívida à China”, insistiu.

O também economista questionou igualmente o impacto do investimento chinês em Angola, referindo, por exemplo, que a rede de estradas e outras infraestruturas edificadas, no âmbito da parceria entre Angola e a China, tiveram, em grande parte, que ser refeitas por estarem atualmente num estado calamitoso, em parte devido à falta de fiscalização adequada no momento da construção.

“Reparou-se uma boa parte da rede de estradas com empréstimos da China, mas, neste momento, temos que voltar a reabilitar essa mesma rede de estradas, porque não houve fiscalização desse trabalho e estão aí os impactos”, apontou.

Para o empresário, grande parte do investimento chinês em Angola está posto em causa. “Por má programação nossa, mau trabalho do chinês e, então, não há, neste momento, o retorno deste investimento que nos permita pagar a dívida”, argumentou.

Lima Campos defendeu que Angola não pode estar refém de uma potência que fez empréstimos ao país e cuja liquidação está “a sacrificar a economia e a fomentar uma situação social de graves consequências, que se pode tornar calamitosa”.

Em relação à escassez de divisas no mercado angolano, o empresário do ramo industrial disse estar com dificuldades, por estar a aguardar, há mais de três meses, uma resposta a uma solicitação de 40.000 euros para importação de matéria-prima, num dos bancos locais.

“Estes dizem sempre que não têm divisas, o que vou fazer? Estou neste momento com graves problemas de matéria-prima e, como eu, estão outras pequenas e médias empresas nessa condição”, referiu.

Lima Campos defendeu que Angola deve evoluir para um outro modelo de câmbio, optando preferencialmente por um sistema de “ancoragem negociada” do kwanza (moeda angolana) numa moeda forte, como o euro.

A ancoragem, prosseguiu, “deve ser negociada da mesma forma como está o franco CFA (moeda corrente usada em doze países africanos, anteriormente colónias francesas) ou como tem Cabo Verde, que tem uma ancoragem negociada com o Banco Europeu”.

Reconheceu, no entanto, que esse formato também acarreta custos: “Ficamos sem autonomia monetária e cambial e ficamos mais condicionados na nossa política fiscal”.

Mas, isso, argumentou, “tem vantagem”, porque estabiliza a moeda, o câmbio passa a ser praticamente fixo, sem variação, e a inflação passa a ser “extremamente controlada”.

“Precisamos efetivamente de ter a nossa moeda ancorada a uma moeda forte, como o euro, se for o caso, mas uma ancoragem negociada, como têm os países francófonos, outrora com o Banco de França e hoje com o Banco Central Europeu”, notou.

“Tem de se negociar a dívida com a China e projetarmos uma nova política cambial. Resolvendo essas premissas, teremos meio caminho andado para a estabilização e o progresso económico e social”, concluiu o empresário.

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