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O triunfo da vulgaridade

João MeloJoão Melo*

Era uma vez um jardim-escola onde duas crianças disputavam um computador; uma dizia “dá cá isso” a outra respondia “não dou”, acabando por se envolverem fisicamente num puxa-empurra de palmadas e socos à mistura. Enquanto a professora presente na sala os tentava separar ligou assustada para o director da escola que deveria ter competência para resolver o caso mas como não tem por sua vez ligou ao director do grupo de escolas. Quando este viu no ecrã do telemóvel o fácies do director da escola pensou “ui, lá vem este fazer-me queixinhas”, e sem paciência para o aturar não atendeu a chamada. O caso transbordou para a comunicação social, logo o director da escola sentiu necessidade de explicar publicamente os contornos da sua incompetência: desculpou o director do grupo de escolas por não ter atendido, justificando que estaria a conduzir, confirmou ter ligado a pedir conselhos a um mero adjunto que estava junto a outro adjunto, ambos descartaram a responsabilidade de uma acção e sugeriram ligar à directora de um escola do grupo; finalmente ela aconselhou a chamar-se o SIS. Portanto não o venham culpar por ter contactado os Serviços Secretos, para o bem ou para o mal, sabe lá, e para que conste a decisão não foi propriamente sua, apenas foi seguindo indicações… O pormenorizado relambório configura um espírito infantilizado, precipitando-se a chorar antes que venha o ralhete ou apanhe com o chinelo. O director da escola, que acedeu ao cargo por ter mais conhecimento e responsabilidade que o comum cidadão, equipara-se em capacidade a qualquer criança da escola que dirige, na verdade todos os directores, alunos, e vamos ser francos, hoje quase todos os humanos do planeta Terra estão infantilizados.

O pior do adulto infantilizado é não ser realmente uma criança, tem idade, por exemplo, para conhecer a grosseria. A CMTV acompanhou o presidente Marcelo a uma feira. A voz off da reportagem diz que “percorreu a Ovibeja a um ritmo alucinante; da cerveja ao vinho tinto foram poucos os que lhe faltaram provar. Já chamado a pronunciar-se sobre o caso do ministro João Galamba repetiu por cinco vezes a mesma resposta: -quando tiver a informação completa, a primeira pessoa com quem vou falar é com o primeiro-ministro.” Certamente que a visita à feira não foi programada ontem, ao contrário do caso surgido no governo, mas a reportagem entende que o presidente de uma República Constitucional, ao arrepio da comunicação entre órgãos de poder, deve fornecer alguma informação bombástica que preencha as suas necessidades editoriais, vulgo, “questionar o governo ao minuto, aquilo que os seus jornalistas fazem e os partidos não”. Frustrados, julgo eu, por não obterem a tal resposta enveredaram pelo grosseiro “da cerveja ao vinho tinto foram poucos os que lhe faltaram provar”. Sub texto: enquanto isto sucede no governo o presidente anda a encharcar-se na Ovibeja e no final, já bêbedo, repete cinco vezes a mesma coisa. Eis a estação televisiva que espicaça a boçalidade reprimida de cada português. Responsabilidade? Zero, afinal um jornalista somente relata “factos”, as pessoas que pensem o que quiserem baseadas nos que lhes são fornecidos (fina esperteza), e neste caso até provam ilustrando a narrativa com uma imagem de Marcelo a tomar um golo de uma bebida… É legítimo questionar o presidente? Sim, mas montar uma reportagem sem escrúpulos também é questionável.

Hoje olha-se com surpresa para o resultado das últimas eleições legislativas, a memória é curta, contudo por alguma razão António Costa teve maioria absoluta, lembram-se? Talvez fosse o menos vulgar dos dirigentes partidários, entretanto vulgarizou-se. Reza o ditado “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”: perante a evidente falta de quadros qualificados para constituir um governo (apostaria que o problema se estende a qualquer partido) o primeiro-ministro terá alguma confiança ma non troppo no seu buddy Medina e pouco mais; sobram ambiciosos boys and girls para encher ministérios. Em 2023 Costa lidera um grupo de incompetentes revelando-se incompetente para travar a incompetência, é demasiada areia para a sua camioneta. Estar numa posição de poder só traz à tona a vulgaridade desta gente; são originários da vulgaridade, permeiam de vulgaridade os governos que integram, tornam vulgar a mentira, a corrupção, a incompetência, como fruta podre que contamina as peças próximas vulgarizam quem não é vulgar. Será um exclusivo de Portugal? Não creio, basta olhar para os últimos anos de governos no Reino Unido, Estados Unidos, Brasil, etc etc… As greves vulgarizaram-se por toda a Europa, são meses de inferno para os próprios, e para a população, vulgarizaram-se o transtorno, a miséria, a criminalidade e o desleixo, a falta de soluções dos governos vulgarizou-se, e se tudo é uma vergonha, a vergonha vulgarizou-se.

Há anos que se discute a localização do novo aeroporto de Lisboa, a obra estrutural mais importante do país, porém bastante cara e politicamente delicada. Os sucessivos governos procrastinaram o problema até chegarmos ao ponto de qualquer solução não servir o presente nem o futuro próximo, a Portela baba dificuldades desde que há uma década rebentou pelas costuras; uma solução simplesmente já devia ter sido implementada. Quando um novo aeroporto estiver operacional num futuro longínquo espero que se mantenha o actual paradigma da aviação comercial, que ninguém se lembre, por exemplo, de inventar naves de descolagem e pouso vertical, senão vamo-nos sentir um pouco estúpidos. Estúpido já me sinto hoje quando soube que uma comissão técnica independente que vai decidir o novo aeroporto aceitou sugestões de entidades e cidadãos; entre as possíveis localizações houve quem indicasse Castelo Branco, Évora, Coimbra… Entrando na onda da vulgaridade, porque não na Picha? Alguma vez o público em geral tem competência para dar sugestões desta natureza? A que se deveu a existência da possibilidade, trata-se de um referendo? Logicamente ou é uma falácia para transmitir a ilusão de as pessoas terem uma palavra a dizer, envolvendo-as na responsabilidade que ninguém quer carregar, e no fim escolherão a opção que sempre entenderam mais conveniente, ou então não têm tomates para tomar a decisão certa se implicar ir contra a opinião pública. Se me perguntassem, que poderia eu acrescentar de tecnicamente relevante, o meu gosto, a minha conveniência? Francamente, o mundo está cada vez mais assustador, competentes e incompetentes vergam-se à ditadura do “like”, e como somos vulgares imaginem a qualidade do que promovemos.

O poema “Nevoeiro” foi escrito por Fernando Pessoa em 1928 mas podia ter sido escrito hoje. Deixo aqui um excerto.

“Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro…”

*Embaixador do Plataforma

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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