Mudar o chip

*Paulo Rego

A tensão entre as duas maiores potências económicas do planeta sobe de tom, incluindo discursos inéditos em Pequim. Isto apesar de práticas aparentemente contraditórias, como a facilidade de emissão de vistos a cidadãos norte-americanos.

É raro ver Xi Jinping atacar direta mente a Administração Biden, pelo menos nos termos utilizados no encerramento das “Duas Sessões” – Congresso do PC e Assembleia Nacional Popular, em Pequim.

“Os países ocidentais, liderados pelos EUA, estão a implementar medidas de contenção, cerco e repressão total contra nós”, disse Xi Jinping. E, ainda mais contundente, o novo ministro dos Negócios Estrangeiros: “Se os Estados Unidos não puserem travão, e continua rem no caminho errado, não há rede de proteção que impeça o comboio de descarrilhar. Assim, certamente haverá confito e confronto”, avisou Qin Gang.

A prioridade da política externa chinesa é clara: recuperar a circulação global de pessoas, bens e serviços, que durante décadas esteve no centro do seu modelo de crescimento. Em 2022, a China registrou 115 milhões de viagens transfronteiriças; muito abaixo do nível pré-pandémico de 2019, com 670 milhões. Nesse mesmo ano, a
entrada de estrangeiros no Continente representou, 97,7 milhões de viagens – número reduzido no ano passado para 4,47 milhões.

Mesmo aliados próximos dos Estados Unidos vão respondendo à reabertura de Pequim. Camberra, por exemplo, aboliu os testes PCR que exigia aos turistas chineses.

Contudo, Washington aperta de facto o cerco; e reage ao levantamento das restrições de vistos para a China instando os seus cidadãos a reconsiderarem qualquer viagem à China, incluindo Hong Kong e Macau, devido à “aplicação arbitrária das leis locais” e do “risco de detenção indevida”.

Depois do encontro de Biden com Xi Jinping, em Bali, não voltou a haver sinais de distensão. E não seria durante as “Duas Sessões” em Pequim; palcos mais próprios à narrativa nacionalista. Mas está na hora de mudar o chip. De um lado… e do outro. Nem sempre o futuro pode esperar.

*Diretor-Geral do PLATAFORMA

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