Competência e atitude - Plataforma Media

Competência e atitude

Outro dia recebi um sms da minha filha que dizia “podemos fazer uma aposta?”

Sem saber a que se referia trocámos mais mensagens; era uma proposta de joint-venture entre o seu investimento de um euro no Placard e o meu conhecimento “tu que percebes de futebol”, de forma a lucrarmos qualquer coisa. Não quis alimentar ilusões e deixei bem claro que não percebo de futebol, tenho é a mania que percebo; se aceitar a minha imperfeição, ‘bora aí. Devo tê-la massacrado tanto com explicações sobre as equipas, considerações sobre o jogo “o pior nas apostas é o factor emocional, deixarmo-nos levar pelas convicções, sobretudo se algumas se confirmam”, que ela respondeu “ok, vou pôr ao calhas”. Ahahahah. A minha ideia era pedagogicamente bela, fornecer-lhe a cana para pescar, e aí percebi que ela queria era o peixe na mesa. Sendo assim não há consensos, cá vai a ordem. Estávamos na segunda jornada da fase de grupos e respondi “é difícil ter certezas, tirando o Brasil que é tão certo que não dá dinheiro algum, imagino, faz isto: põe Portugal e Brasil a ganhar, a Coreia do Sul tem bons jogadores mas o treinador é o Paulo Bento, põe a Coreia empatada com o Gana, a Sérvia são malucos, tanto podem ganhar 3-0 como perder 3-0”… Após meditar um pouco enviei nova mensagem “Olha, junta empate de Camarões e Sérvia”. Portugal e Brasil ganharam, a Sérvia não só empatou como o resultado foi 3-3 (tanto dão 3 como levam 3) e o Sr. Paulo Bento fez-me destruir o sonho de uma jovem ao perder com o Gana. Não segui o meu próprio conselho, fui incompetente deixando-me levar pelas emoções, quis que o Sr. Bento, por ser português, tivesse mais um ponto na classificação e lixei-me, merecia um estalo, eu, claro.

Para a FIFA a arbitragem portuguesa não mereceu ter um representante neste Mundial. Nem afloro o tema, isso é uma briga eterna e eu que só tenho a mania deixo para os que percebem de futebol, em horas de acaloradas discussões na TV ou no youtube. Mas calma, bem esmiuçado encontramos lá um árbitro português, melhor, uma, melhor ainda, “lusodescendente”. O jogo entre Costa Rica e Alemanha foi apitado por uma mulher coadjuvada por outras duas. A árbitra principal chama-se Stéphanie Frappart e fez história ao ser a primeira mulher a apitar um jogo masculino num Mundial. Os média nacionais descobriram o caso e por tabela eu soube. Não que tivesse esmiuçado, entre os vários títulos no Google segui a filosofia da minha filha (sábia por sinal), “cliquei” ao calhas no jornal “Minho”, e aí tive o gozo de ver esmiuçada e provada a cepa portuguesa da árbitra: “Nascida em França, a árbitra é lusodescendente com raízes em Barcelos, onde, até à adolescência, passava as férias de verão. A lusodescendente, de 38 anos, pertence à família ‘Barracas’, de Tamel S. Veríssimo, pese embora a sua mãe, Angelina (que a família trata por ‘Gina’), tenha nascido na freguesia de Perelhal, também no concelho de Barcelos”. Repararam no cuidado em não melindrar sensibilidades locais? Pese o facto de a família da mãe da árbitra ser originária de um determinado conjunto de torrões de terra, quem pode genuinamente reivindicar a maternidade desta venturosa cepa é um conjunto diferente de torrões de terra. Não fora a Stéphanie apitar um jogo do Mundial e a filha da ‘Gina Barracas’ de Perelhal nunca seria conhecida como “lusodescendente”. O fenómeno dos “lusodescendentes” é muito curioso, grosso modo são gente embaraçosa para os verdadeiros “lusos”; caso sejam criminosos a “lusodescendência” cai no buraco negro do esquecimento – uma vergonha, não é dos nossos – se tiverem sucesso descobrem-se-lhes virtudes raras e pormenores que os ligam indelevelmente ao pedaço de terra que viu nascer um parente até à enésima geração – orgulho pá, é cá dos nossos! Ah e tal, quando ela era bebé a mãe dava-lhe de mamar ali debaixo daquela árvore ao pé da escola enquanto observava os miúdos no recreio a jogarem à bola. Mama na boca-apito na boca, futebol, hummm, quem sabe se não foi ali que germinou a vocação? Qualquer que seja o estrangeiro a lusodescendência é sempre a trave mestra das virtudes que um indivíduo de sucesso possui. Na extensa reportagem faltou somente referir o apelido que a liga a Portugal porque “Barracas” suponho ser uma alcunha, suponho não, espero. Lançar uma árbitra e duas assistentes num jogo do Mundial foi um gesto bonito e pronto, está feito. De futuro se a FIFA quiser dignificar o ser humano, particularmente a mulher, se realmente quiser competência e não gestos ou propaganda politicamente correcta, deveria abdicar do paternalismo de juntar as “meninas” num casulinho, para misturar toda a gente, homens e mulheres. Ademais demarcava-se genuinamente das acusações de pactuar com o desrespeito pelos direitos humanos no país sede do Mundial. É que me deu gozo ver mulheres ao vivo* no Qatar (*espero que tenham visto o jogo no Irão), em calções, cara e cabelo destapados, mas não sei até que ponto não terá sido uma medida concertada para passar uma imagem correcta da organização. Enfiaram as três no mesmo jogo, portanto os polícias dos bons costumes estavam avisados, deu tempo para encontrarem formas de se evitar ver a partida. O interessante seria distribui-las por vários jogos, assim de repente, pim! tinham de levar com mulheres árbitras, mas a cereja no topo do bolo era pôr uma ou várias na final, hein, que tal? Fica o repto para quem gosta de passar mensagens de inclusão, ou para a final já não serão tão competentes? É que se o critério não for a competência esta causa justa fica minada, como aliás sucede com outras causas justas.

Justa causa foi a passagem da Coreia aos oitavos, deram a vida por isso. Tendo em conta que Portugal jogaria com uma espécie de equipa B, tive dúvidas se ganharíamos à Coreia, porém nunca pensei perder com uma equipa treinada pelo Paulo Bento. Confusos? No único confronto que disputámos antes, eliminaram-nos num Mundial de má memória realizado na Coreia com… o Paulo Bento em campo a jogar. A explicação que Fernando Santos deu para o desaire (a mesma que eu daria) não foi ele que a pensou: um jornalista perguntou-lhe se o que falhou foi atitude, excesso de confiança, trocas de jogadores, ou o adversário? O seleccionador confirmou a derrota por tudo isso. Eis o resumo do jogo para quem não o viu: imaginam o resultado expectável de um confronto entre Santos e Bento? Exacto, sonolência. Mas houve nuances. Em primeiro lugar o P.Bento tem à sua disposição outra cepa de gente e foi esperto, fez-se expulsar no último jogo, o que o impediu de estar presente no banco contra Portugal. PB é o símbolo do chumbo e talvez não por acaso é assim que sinto a sua personalidade, pesada, sombria. Não estar no banco teve o efeito de libertar os jogadores coreanos que vi finalmente assumirem a sua essência, leves, lutadores até ao fim, quais japoneses. Do lado de Portugal o frete de quem cumpre calendário, o empate que não se desfaz (porque não se fez por desfazer), a saída de Ronaldo que “é bom demais para sair aos 65 minutos”, a entrada de Bernardo e Leão que “são bons demais para entrar aos 80 minutos”, querendo mas não podendo, podendo mas não querendo, poucos mostraram atitude. Salva-se o fantástico Dalot que dá gosto ver em campo, um dos mais empolgantes jogadores do Manchester United, e é defesa lateral… Aos 90+1 canto para Portugal, a bola é rechaçada para Son que corre como se fosse o primeiro minuto (onde estava a cobertura da defesa portuguesa?), atravessa o campo inteiro movido a bafo de dragão para fazer o passe a um colega que o acompanhou e remata para o 2-1, sem hipótese para Diogo Costa. Parabéns aos jogadores coreanos por acreditarem e lutarem, fiquei feliz pela Coreia e pelo Paulo Bento, serei bipolar? Com requintes de malvadez vingámo-nos da eliminação do Uruguai no último Mundial: na sua perspectiva fizeram o trabalho deles (o Coates até subiu no campo para tentar marcar), nós não fizemos o nosso; pela conjugação de resultados aos 90 minutos estavam nos quartos de final, aos 90+1 depois de sofrermos o golo da Coreia foram eliminados. Sorte para o Brasil, porque talvez sofressem um dissabor com o Uruguai…

Por falar em eliminação, a da Bélgica é merecida, vai de encontro ao que dela penso, extremamente sobrevalorizada. A Alemanha despediu-se sem glória, a Espanha apanhou um valente susto, durante uns minutos chegou inclusivamente a estar eliminada, Marrocos apurou-se em primeiro lugar desse grupo, parabéns! Não é por isto que deixo de considerar a Espanha favorita a ganhar o Mundial, num lote onde desde o início incluo França, Brasil e Argentina. Eu disse favoritos, e acho que são só isso, contra os adversários e as circunstâncias certas qualquer um destes pode ser vencido, e a seguir coloco Portugal. Nem de propósito, para confirmar a impressão o impensável sucedeu logo a seguir ao nosso jogo, o Brasil também perdeu como os outros favoritos já haviam perdido. Mantenho estarmos logo a seguir aos quatro favoritos, depois a um nível mais abaixo a Inglaterra e a Holanda que curiosamente ainda não perderam. Ambos já chegaram praticamente aos quartos de final, a Holanda não deslumbra mas é capaz de ir ainda mais longe; ao contrário dos comentadores que parecem parvos a cobrir de favoritismo a Inglaterra, esta selecção não me parece nada de especial, e se apanhar qualquer um dos quatro favoritos ou Portugal, não tem hipótese. Desconfio sempre dos espanhóis, por mim poderiam perfeitamente ter feito de propósito para ficar em segundo lugar no grupo e jogarem contra Marrocos que será menos difícil para eles do que seria a Croácia, caso tivessem ganho o grupo. Estou a brincar. Estarei? Os principais favoritos parecem estar encaminhados para os quartos, Holanda, Inglaterra e julgo que nós também, pelo menos deveríamos, e espero que o Japão saia vencedor do duelo com a Croácia. Tal como o jogo que vi hoje da Coreia têm uma atitude lutadora e positiva. Mais que uma equipa simpática, jogam bom futebol, organizado, objectivo, leve e sem receios, têm grandes valores individuais como por exemplo Morita (eheh), e o conjunto resulta num futebol com personalidade própria. Vê-se que tem dedo de autor, o treinador deve ser muito bom. A sério acho que o Paulo Bento prende a equipa da Coreia, com outras unhas voavam como o Japão, e já agora tanto as equipas europeias que restam como as favoritas que se foram me parecem “presas”, talvez precisemos de treinadores de outras geografias. Claro que excluo desta equação o Brasil; ontem jogaram com suplentes, o guarda-redes por exemplo é o titular do Manchester City, e com tanta qualidade disponível a dificuldade é encontrar um seleccionador que as vedetas respeitem já que não precisa de ser um mestre de táctica, a equipa funciona por si própria. Além da lufada de ar fresco que vem do futebol asiático, e que talvez não seja por acaso, nomeadamente devido à atitude, julgo ser a primeira vez que todos os continentes estão representados na fase a eliminar, o que é uma excelente propaganda para a modalidade.

*Embaixador do PLATAFORMA

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