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Realmente…

No últimos dois anos assistimos a amplas considerações de especialistas em pandemias, guerra na Ucrânia, e a última moda são os especialistas em famílias reais.

Para quem desconhece informo que sou o criador de dois relativos êxitos musicais, o “rei dos matraquilhos” e o “rei dos frangos”, logo arvoro-me no direito de me chamarem especialista em assuntos de realeza, no entanto pouco me importam os aspectos formais da morte da rainha Isabel II; já os aspectos que me levaram a repisar a temática em duas composições são deveras interessantes.

Partamos da experiência nacional. Quando no início da Baixa Idade Média D. Afonso Henriques se tornou rei de Portugal, os povos que habitavam o território que ele passou a governar nunca haviam manifestado interesse em se tornarem independentes. Independentes de quê? Isso são jogos de poderosos. O povo do califado obedece ao califa, o do condado ao conde, o do ducado ao duque, o do reinado ao rei, o que muda são os senhores, obedecer é eterna condição. Quando muito preferia-se obedecer àqueles que professavam a nossa religião, falavam a nossa língua, não nos massacravam tanto com impostos ou nos protegiam melhor das invasões que destruíam o nosso trabalho e modos de vida. O primeiro rei e os seus descendentes criaram uma identidade própria para a sua família e fizeram por a ir distinguindo dos demais reinos. Ao longo dos séculos esta identidade agrupou-se em torno de uma língua e religião, de derrotas e vitórias que nos uniram sob a mesma bandeira contra outros reinos. Até à guerra da independência dos Estados Unidos e Revolução Francesa foram uns 500 anos de lógica de obediência ao rei e à Igreja católica. Durante as invasões francesas o nosso monarca levou a sede do reino para outro continente e foi para lá viver, deixando-nos desamparados; a partir deste episódio de “ausência parental” a família real envolveu-se em guerras internas expondo o país a sucessivas crises. Napoleão pode assim ter sido a mola impulsionadora para a queda da monarquia em Portugal, e quando 80 anos depois o Reino Unido humilhou as nossas ambições coloniais em África lavrando a sentença de morte da monarquia, e após mais duas décadas esta caiu de facto, ficámos formalmente órfãos, mas já o éramos há 100 anos, o período que serviu para evidenciar o desgaste de um regime.

A família Bragança pretendeu dominar dois impérios e acabou sem nenhum. Do lado de lá do Atlântico parece ter causado ainda mais danos do que cá: malgrado o imperador ser português, o Brasil sentiu necessidade de cortar de forma drástica com a antiga potência administradora (“matando” o pai tirano) e por consequência nasceu o sentimento de orfandade que perdura até hoje. Legitimamente quis seguir sozinho a sua vida mas era muito jovem, complexo e sem referências. Na actualidade possui demasiados súbditos pobres e ignorantes, ao mesmo tempo é demasiado rico de recursos, o que o torna um terreno propício à aventura dos espertos. Foi acalentando pequenos reis como Pelé, Roberto Carlos, Ayrton Senna, os do carnaval, do samba, do sertanejo, que preenchiam a necessidade de seguir um modelo nacional, e agora está fracturado entre Lula e Bolsonaro, como em muitos sítios do mundo parece que não há outra escolha além de duas radicalmente diferentes. Ambos os políticos são considerados indignos do cargo pela facção oposta, ademais qualquer líder o é há muito tempo, e as sucessivas desilusões motivadas pela péssima gestão de expectativas da população foram moldando o espaço ideal para a ascensão do único rei digno, unânime, aquele que por viver fora da realidade material foge às imperfeições de que todos os humanos padecem, Deus ou o seu filho Jesus Cristo. Esta é a minha tosca explicação para a meteórica expansão das religiões evangélicas no Brasil, um pouco à imagem dos Estados Unidos, fenómeno depois exportado para outras regiões pobres do globo. O Brasil foi deixado ao Deus-dará e vai-se safando quem consegue administrar em proveito próprio o vazio deixado pela tal falta de um referencial.   

Na Europa, quer sejam repúblicas ou monarquias tem-se a mesma sensação de estarmos entregues à bicharada porém, ao contrário das Américas que os europeus veem como um far-west, as instituições existem há muito tempo, são eras e eras de História, de braço dado entre o poder religioso e o secular. Inclusivamente no século XVI Henrique VIII que andou a matar as esposas, criou uma igreja à sua medida tornando-se o líder espiritual do anglicanismo, e hoje o monarca britânico é o governador supremo da Igreja de Inglaterra; querem maior promiscuidade de poder? Portanto após a morte de Isabel II, o seu filho, aquele que pôs os cornos à mulher mãe dos seus filhos (tudo bem, não a matou) passou a ser o líder supremo da Igreja anglicana. Note-se que não pretendo fazer juízos de valor, juro, estou-me perfeitamente borrifando para a vida conjugal alheia, o meu interesse dirige-se em exclusivo para a curiosa necessidade de, em pleno século XXI, uma das mais desenvolvidas democracias do mundo ser governada por um panteão do Olimpo em miniatura; não há dúvida que a humanidade ainda se encontra num nível infantil, e a avaliar pelo sucesso de sagas como a Guerra dos Tronos ou Star Wars não é tão cedo que consideraremos novas formas de pensar a organização social. Na prática o sistema tem resultado no Reino Unido, consegue reunir as abelhas obreiras em torno da rainha, gerando admiração ou inveja dos povos das outras nações.

Convenhamos que a admiração não é tanto pela monarquia em si mas pela monarca agora falecida. Isabel II era uma mulher simples, íntegra e absolutamente dedicada à sua função. Encarnou o ideal da chefia, quer seja real ou da res publica: servidão à sua nação e ao seu povo. O único espaço que parece ter reclamado para si fora do papel de monarca foi proteger a sua família. Entre os deveres do Estado e a natural preocupação deste com a sua imagem não escondeu ser uma mulher determinada mas frágil, o que lhe conferiu um enorme carisma. Aceitou encarnar todas as regras do protocolo real sem deixar de ser uma pessoa simples, nunca se queixando de ter dedicado a vida a representar o papel que dela esperavam, simplesmente serviu. Já li e acredito que detestava usar jóias, bem como a imagino a lavar a própria louça do pequeno-almoço, porque sim. No fundo o seu legado resume-se a uma mulher que casou com o Estado, defendeu o seu reino e a sua família. Parece fácil mas não é, nunca foi e cada vez será mais difícil alguém atingir a excelência de Isabel II, poucos estão na disposição de suportar com nobreza o fardo que ela suportou.  

Desde que a monarquia se finou em Portugal surgiu uma miríade de plebeus auto-proclamados reis desde o dos panos, plásticos, palha, calçado, farturas, o que se quiser, até àqueles que foram aclamados por via popular. Um dia em viagem pelo norte vi um furgão comercial que ostentava a designação da empresa, neste caso o nome próprio de alguém, e por baixo tinha escrito “considerado o rei das limas repicadas”. Não é ele que tem a presunção de ser rei, são os outros que o afirmam, repararam na diferença? E que raio é uma lima repicada, será essa área tão diminuta e específica merecedora de um monarca? Não chegaria ser barão ou visconde das limas repicadas? Entretanto tivemos vários dirigentes candidatos ao cargo real, desde logo Salazar. De carácter austero, à primeira vista não parece ter o perfil de um rei mas tinha o de um servidor, como Isabel II Salazar casou com o Estado. Nos anos 50 chegou a ser proposta a restauração da monarquia mas Salazar opôs-se firmemente a ela, pudera, ele encarnava tudo o que se poderia esperar de um rei, para quê gastar dinheiro em folclores e vaidades de famílias que depois talvez não controlasse? A admiração de que ainda hoje é alvo advém do facto de o homem se ter dedicado de corpo e alma à função, praticamente não tinha vida pessoal, morrendo sem obter qualquer ganho material significativo, o contrário da ideia que temos dos políticos, não se “abotoou” à conta do cargo. Só que liderava um regime autoritário e corporativista, ser Presidente do Conselho não é propriamente um desígnio divino como nascer em berço real, não lhe confere legitimidade para governar até à morte. Fica assim um bocadinho confuso justificar a sua orgânica, e quer se goste ou não o Estado Novo foi só mais uma ditadura. É curioso que no fundo todas buscam fundamentar-se num desígnio divino e muitas almejam a legitimidade real, a concretização do tal desígnio; por exemplo em Espanha após Franco tinha de vir um rei, e outra ditadura na Coreia do Norte até realizou a utopia tornando-se num absurdo regime monárquico-comunista.

Já em democracia tivemos a versão pomposa da rainha de Inglaterra, o Dr. Mário Soares, e agora temos um príncipe, o Professor Marcelo. Vamos ser francos: quem olha para Marcelo e vê nele um presidente da república? Eu vejo um príncipe embora ele insista em ser um tio coscuvilheiro. Não é que no funeral da rainha quis mostrar quão íntima era a sua relação com Carlos III, confidenciando perante os repórteres uma conversa que tiveram acerca da aliança anglo-portuguesa? Aqui vai palavra por palavra: “…teve uma reacção muito, muito expressiva porque se virou pra mim e disse ‘mas presidente estamos a celebrar agora a data’, e eu disse ‘não, é só para o ano’, e ele disse ‘mas eu patrocinei’, e eu disse ‘eu sei, um presidente de Portugal também patrocinou’, e sua majestade falava de um patrocínio dado quando ainda era príncipe de Gales mas que veio à sua memória imediatamente”, tudo isto contado com vanglória de quem teve acesso ao Olimpo, falou tu cá tu lá com Zeus, e está a fazer um relatório do encontro para o seu povo, demonstrando não apenas a faceta humana do deus mas também o genuíno interesse que ele nutre por Portugal. Acho que devido a Isabel II ter defendido os interesses do seu reino e família, possuirmos a famosa aliança, e acabando neste pitoresco episódio confidenciado pelo representante da nação no concílio dos deuses mais que justificam o luto nacional de 3 dias no nosso país, não acham?

Agora fora de brincadeiras: Bolsonaro também viajou para o funeral da rainha, foi à janela da embaixada do Brasil e perante alguns apoiantes fez um discurso de campanha para as eleições presidenciais do seu país. Claro que ninguém lhe disse que não o podia fazer, é uma questão de decoro diante do luto do país anfitrião, sei lá, modos, educação, e por ninguém lhe ter dado recomendações para não o fazer, ele fez. Mesmo não gozando de extraterritorialidade as embaixadas são territórios com privilégios especiais, então de que jeito o coronéu que não responde perante ninguém não haveria de aproveitar os privilégios em seu benefício pessoal? Se já no jantar de visita do presidente Marcelo ao Brasil se pôs a contar piadas de português burro, que subtileza diplomática seria de esperar num momento quente da sua agenda pessoal? Realmente…

*Músico e embaixador do PLATAFORMA

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