Um número relevante de residentes começa a acreditar que Macau não oferece as condições necessárias para ter uma vida de qualidade. Entre razões políticas, sociais e de emprego, desde 2019 que o êxodo se tem consolidado e só agravou com a pandemia e a política de zero casos. Sair de Macau pesa, mas no fim consideram que a decisão foi acertada
ESCASSEZ DE ESPAÇO
Jack Ng, antigo professor do ensino secundário, deixou Macau em 2019 e emigrou para o Reino Unido depois de ter montado uma empresa no local.
O professor conta que a primeira vez que pensou em emigrar foi em 2011, quando viajou para a Europa e presenciou uma vida diferente, com novas possibilidades e outro ritmo. O ambiente cultural impressionou-o, pois era muito distinto.
Leia também: “A indústria de Macau não é suficientemente diversificada para absorver talentos relevantes”
“A principal diferença é o espaço. Macau é uma cidade compacta, existe menos espaço para viver, apesar de ser mais conveniente”. Outra diferença socialmente relevante que destaca é o planeamento urbanístico:
“Em Macau raramente se encontra grandes áreas propositadamente verdes, como se não fosse preciso criá-las. Mas há sempre um novo edifício prestes a ser erguido”. Como membro do corpo docente durante mais de 10 anos, apesar de ter concretizado o seu sonho de infância de ser professor, essa viagem mostrou-lhe a verdadeira dimensão do mundo. “Queria mudança, viver uma vida diferente”.

Mudou-se definitivamente em 2019, para ter uma experiência de vida nova. A mudança não teve razões políticas, apesar dos movimentos sociais e clima político em Hong Kong terem de certa forma obrigado Jack Ng a avaliar a possibilidade de um futuro com espaço reduzido para a liberdade e democracia. “Não esteve de forma alguma relacionado com os eventos políticos de 2019, visto que na altura tinha acabado de chegar ao Reino Unido. Teve mais a ver com o que aconteceu em 2014.” Para Jack Ng, habituado a viajar durante as férias, Macau não proporciona espaço para muitas atividades e a oferta é muito reduzida: “Pensava sempre em viajar mal tinha tempo livre”, confessa.
Leia também: Inquérito sobre talentos no exterior revela que maioria quer voltar a Macau
Depois de se mudar para um país estrangeiro, tornou-se uma bússola para outros com a mesma vontade. O professor conta que cada vez mais amigos perguntam sobre a sua vida de emigrante e são cada vez mais específicos, perguntando sobre como abrir conta no banco ou a mudança da carta de condução.
À PROCURA DE FUTURO PARA AS NOVAS GERAÇÕES
Qi (pseudónimo), que estudou no estrangeiro, pensou em abandonar Macau há vários anos por sentir que a vida na cidade era demasiado aborrecida, mas ainda não tinha planos concretos. A pandemia de Covid-19 e os confinamentos constantes, fruto da política de zero casos, acabaram por acelerar esse processo. “O ponto de mudança veio com o surto de 18 de junho e a política de ‘infeção zero’.
Houve perda de direitos humanos básicos e foram até feitas piadas sobre a possibilidade de sermos multados a passear o cão com a máscara errada”. Como futura mãe, não quer que os seus filhos experienciem uma vida de cara tapada. Acredita também que não é possível estar constantemente a suspender as aulas, nem manter a sociedade isolada do resto do mundo.

Além da sua insatisfação com as medidas de combate epidémico, as recentes alterações no ambiente social de Macau fizeram com que considerasse o futuro das próximas gerações.
Leia também: Défice da balança comercial de Macau foi de 3,8 mil milhões de patacas em julho
“Com o surto de 18 de junho, os media só espalharam ‘energia positiva’, sem espaço para críticas. Membros do Governo procuram desculpas para cobrir os seus erros e o futuro é ainda mais incerto. Nem sabemos que ações ou palavras podem ser consideradas um crime. Com a economia em recessão parece que não existem perspectivas de emprego, precisamos de ter em consideração o futuro dos mais pequenos, mas em Macau esse futuro já não existe”, lamenta.
À espera do nascimento do seu bebé, Qi ainda está a preparar a mudança, mas admite que Macau já não é a cidade que em tempos amou. Não desconhecendo por completo o ambiente no estrangeiro, não tem medo de começar uma vida nova. “Nem tudo é perfeito lá fora, claro que também irei encontrar dificuldades, mas pelo menos existe mais espaço para desenvolvimento e mais escolhas do que em Macau”.
DO ESPAÇO URBANO À LIBERDADE DE EXPRESSÃO
Entre os vários residentes que abandonaram Macau nos últimos anos estão também jornalistas portugueses. Em março de 2021 foi revelado pelo jornal “Ponto Final” que o departamento de língua portuguesa da TDM tinha sido obrigado a seguir uma linha editorial mais patriótica, com uma repreensão e ameaça de despedimento para funcionários que não aceitassem a medida, algo que criou grande polémica na altura.
Como resultado, uma série de jornalistas deste departamento abandonaram a cidade, incluindo Hugo Pinto e Inês Gonçalves. “Deram-nos novas diretrizes que proíbem a divulgação de informação e expressão de opiniões divergentes às políticas do Governo chinês e de Macau. Essencialmente, foi-nos dito que a TDM não é mais uma empresa jornalística ou meio de comunicação, mas um megafone do Governo”.
Leia também: Governo de Macau promete regular postos de trabalho com redução do jogo
Para Hugo e outros jornalistas que participaram na reunião, tornou-se clara a impossibilidade de continuar a trabalhar para a TDM. Inês, também presente nessa reunião, afirma ter lutado contra situações semelhantes no passado, mas a ordem foi tão clara que não viu interesse em continuar a trabalhar para a TDM. O que os fez querer abandonar Macau não foi apenas os limites à exerção da profissão de jornalista, o espaço físico e ambiente social também fizeram parte da escolha.

“Eu e o meu marido ficámos cada vez menos satisfeitos com o ambiente no geral. A cidade deixou de ser atraente. Todos sentimos que está a piorar – um espaço menos livre e uma sociedade menos aberta. Sei que para muitos estrangeiros não significa muito, mas como jornalista, o nosso conhecimento sobre a cidade é mais extenso e o seu retrocesso é doloroso”.
Considerando toda a situação, decidiram regressar a Portugal.
ABANDONAR MACAU TAMBÉM TEM CUSTOS
Para os que abandonam, sair de Macau e começar uma vida nova tem os seus custos. No caso de Jack Ng, além de abdicar de um emprego estável e salário alto, o desenvolvimento da sua carreira profissional também foi afetado. “Esta é uma decisão difícil também devido ao seu custo. Como professor de nível hierárquico alto, o meu emprego era ótimo. Tinha um salário estável, com o ensino privado a alocar 70 por cento da sua receita em salários e subsídios para o pessoal docente.” Sempre sonhou ser professor, mas admite que poderá não conseguir regressar à profissão depois de abandonar Macau, devido às diferenças nas qualificações e cultura no Reino Unido.
Leia também: Covid-19: Bom trabalho de prevenção de Macau merece ajuda turística da China
Fora as outras limitações como imigrante, perdeu todas as oportunidades de desenvolvimento de carreira. Também não foi fácil para Hugo e Inês, que há muito que residiam em Macau. Inês diz que abandonar a cidade foi um processo difícil, mas a decisão não. Sentia que não existia outra alternativa, mas o facto de ter sido uma decisão óbvia não significa que não tenha sido dolorosa. Considera Macau como uma casa e fica triste que tenha sido este o fim.
Hugo admite que nunca é fácil abandonar um lugar que se adora e onde se vive 16 anos. Dito isto, é também claro que a cidade que em tempos conhecia já não existe: “Fui afortunado por ter conhecido Macau como uma cidade livre e acolhedora. Na altura sentia-me confiante e otimista quanto ao seu futuro. Mas quando abandonei a cidade em julho de 2021, Macau já tinha perdido estas qualidades”.