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“A indústria de Macau não é suficientemente diversificada para absorver talentos relevantes”

Viviana ChanViviana Chan

Pela primeira vez, Ma Io Fong senta-se na Assembleia Legislativa, após ter concorrido como segundo candidato pela lista Aliança de Bom Lar. Meio ano após a sua estreia, o tribuno falou com o PLATAFORMA e expressa a sua desilusão perante a escassez de talentos bilingues em Macau, defendendo que a aprendizagem do Português não se deve limitar ao ensino superior

-Sobre o processo de formação de talentos bilingues, salienta que apesar do Governo ter vindo a implementar várias medidas para o seu desenvolvimento, a cidade sofre ainda com problemas de escassez de profissionais e pouca diversidade de especialização. Como interpreta este contexto? Quais são as principais causas?

Ma Io Fong – Para ser preciso, existe uma falta de talentos bilingues Chinês-Português em várias áreas profissionais. Apesar do Governo dar muita importância ao seu desenvolvimento, até ao momento foram registados 1.297 profissionais, sendo que 52,46 por cento são tradutores. Nos setores das finanças, de exposições e de locação financeira estes profissionais não chegam a meta de, segundo as informações da Base de Dados de Profissionais Qualificados em Chinês e Português.

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O fenómeno acontece por algumas razões. Por um lado, poderá haver profissionais que não se registaram na base de dados, o que dá origem a uma insuficiência de informação so bre os mesmos. Por outro, a indústria de Macau não é suficientemente diversificada para absorver talentos relevantes, dificultando assim a descoberta de oportunidades de emprego a nível local.

Em terceiro lugar, a recessão económica causada pela pandemia dificultou a procura de emprego para estes talentos, sendo que alguns optaram por ir para a China Continental. A mesma base de dados revela que 89,28 por cento dos profissionais bilingues vivem atualmente no Continente, sendo que os que residem em Macau representam apenas 6,94 por cento. Os dados provam que a natureza monolítica e não localizada da nossa força profissional bilingue, a longo prazo, não será propícia ao desenvolvimento de uma plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa (PLP).

-Apesar de todos os esforços por parte do Governo ao longo de vários anos para promover o estudo académico em Portugal, acredita que ainda existe escassez de profissionais proficientes na língua portuguesa?

M.I.F. – Para promover o desenvolvimento de talentos bilingues em Macau não devemos ignorar a questão da educação universal, principalmente no que diz respeito à popularização do ensino desta língua a nível do ensino não superior. O que falta em Macau é talentos bilingues numa variedade de áreas profissionais. E o bom domínio do português é apenas um requisito básico para aprofundar o conhecimento da língua. Devemos desenvolver e cultivar esta base de língua portuguesa para podermos disponibilizar profissionais adequados numa série de plataformas de cooperação entre a China e os PLP.

É por isso que acredito que a promoção da língua portuguesa deve começar pelo ensino não superior, expandindo gradualmente o número de falantes em Macau e criando as bases necessárias para o subsequente desenvolvimento de profissionais proficientes em Português e Chinês.

Na verdade, a Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) lançou um manual de português com seis volumes. Apesar das autoridades terem investido na promoção deste livro no passado, existe ainda espaço para melhorar. Estes materiais de estudo, contudo, são para o ensino básico, estando o ensino secundário ainda carecido. Por isso é que é importante continuar o seu desenvolvimento.

Com a atual crise na procura de emprego para recém–formados, acredita que é necessário ajustar a forma como o Executivo desenvolve estes profissionais?

M.I.F. – Tem sido evidente o trabalho do Governo na preparação de profissionais bilingues no ensino superior. Além da criação da Aliança para Formação de Quadros Bilingues Qualificados nas Línguas Chinesa e Portuguesa, entre cinco instituições de ensino superior com currículos de língua portuguesa, o Executivo continua a financiar o desenvolvimento e formação destes talentos. Eu sugiro que se analise a procura no mercado e as vagas disponíveis para estes profissionais, de maneira a desenvolver um programa de formação multidisciplinar de recursos humanos bilingues proficientes em Chinês e Português. O financiamento deve também ser direcionado a profissionais de várias indústrias, protegendo o emprego local e criando oportunidades para os recém-formados.

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Acredita que os nacionais de Países de Língua Portuguesa, ou profissionais proficientes na língua, poderão ajudar no desenvolvimento futuro de Macau em áreas como as finanças ou MICE?

M.I.F. – Primeiro, devemos reconhecer o potencial e benefícios das indústrias relacionadas com os países lusófonos em Macau. Estes pontos fortes são demonstrados pelos laços históricos da cidade com os PLP, assim como as atuais políticas nacionais de desenvolvimento industrial local. A cidade serve como um ponto de contacto sino-usófono. É por isso que é também uma plataforma para a cooperação, com uma série de papéis e objetivos relevantes.

Serve, por exemplo, como plataforma de serviços para a cooperação comercial entre a China e os PLP, como base de intercâmbio e cooperação entre estes países através da cultura chinesa. Serve também como espaço de coexistência intercultural, isto é, fornece oportunidades de cooperação entre os países lusófonos e Macau em várias áreas.

Caso Macau não possua talentos em língua portuguesa para oferecer os serviços necessários ao desenvolvimento industrial, num contexto de uma economia moderadamente diversificada, poderemos continuar a explorar mercados lusófonos e reduzir a dependência do mercado chinês?

M.I.F. – Estes talentos são parte essencial da força por detrás do desenvolvimento industrial, e, por isso, esta é uma questão que não pode ser ignorada durante o processo de diversificação moderada das indústrias de Macau.

Acredito que a promoção da língua portuguesa deve começar pelo ensino não superior, expandindo gradualmente o número de falantes em Macau e criando as bases necessárias para o subsequente desenvolvimento de profissionais proficientes em Português e Chinês

Não se trata da questão do “ovo ou da galinha”, são forças complementares. A indústria cria oportunidades para os talentos e estes impulsionam-na. É por isso recomendado que, além da criação de talentos em língua chinesa e portuguesa, o Governo coordene as suas políticas nacionais e defina um posicionamento propício a este desenvolvimento. Assim o crescimento das indústrias emergentes será promovido.

Esta estratégia servirá ainda para atrair talentos internacionais e criar um ciclo virtuoso de desenvolvimento.

A taxa de natalidade tem descido ao longo dos últimos anos, notando-se também um aumento da população. Enquanto vice-presidente da Aliança de Bom Lar, qual a principal preocupação dos residentes em relação às próximas gerações?

M.I.F. – De acordo com uma sondagem conduzida este ano pela Associação Geral das Mulheres sobre as intenções femininas em idade fértil, a vontade de ter filhos entre estas residentes subiu para um nível mediano.

As mulheres casadas, e que já são mães, demonstram uma maior vontade em ter filhos. Já a geração nascida nos anos 90 demonstra a menor intenção. Cerca de 80 por cento das mulheres inquiridas dizem que não querem ser mães devido ao horário de trabalho, dificuldade na educação, custos de cuidados infantis e falta de espaço.

A existência de familiares ou ajudantes domésticos também é um fator que afeta a sua decisão. Perto de 90 por cento das inquiridas acredita que os benefícios familiares são das formas mais eficazes de aumentar a taxa de natalidade.

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O que sugere nesse sentido?

M.I.F. – O Governo deve continuar com a implementação da Lei das relações de trabalho, criar vários benefícios familiares e incentivar as empresas da Região a criarem sistemas amigos da família, que ajudem a aliviar o fardo da maternidade e educação infantil.

No que diz respeito à habitação, devem ser ainda implementadas medidas de auxílio à população jovem, estudando o impacto das mesmas e o efeito de benefícios a curto prazo para famílias que procuram adquirir habitação.

Deve-se pressionar o Executivo a acelerar a construção da habitação económica e temporária, assim como a possível implementação de prioridade ou mecanismos de benefícios para famílias jovens que se candidatem a habitação pública ou ao plano de auxilio à classe sanduíche.

Também se deve criar um mecanismo para estes jovens que substitua as habitações económicas por habitações da classe sanduiche e promova medidas a curto, médio e longo prazo para auxiliar esta parte da população a garantir um nível satisfatório de qualidade de vida. Por último, sugiro que se explore a implementação de mais benefícios de incentivo à natalidade e sejam criados mais subsídios fiscais para estas famílias, reduzindo o custo da educação infantil e da pressão financeira sobre os residentes.

Espero ainda que tenham em conta os vários obstáculos à natalidade enfrentados por estas famílias jovens, para que sejam incluídos nos planos de governação formas de aumentar o interesse na parentalidade, a médio e longo prazo.

Qual será a melhor forma de resolver a falta de auxiliares domésticos?

M.I.F. – Usando como referência dados oficiais, havia 30.426 trabalhadores estrangeiros em janeiro de 2020, tendo este número diminuído em mais de 6.100 para 24.250 trabalhadores em março deste ano.

Estes números vêm comprovar a atual procura por ajudantes domésticos estrangeiros entre as famílias e justifica o atual caos no setor. Por isso é que temos lutado pela abertura das fronteiras para estes trabalhadores. Um programa piloto será apenas o primeiro passo na restauração do mercado dos domésticos estrangeiros. Espero ainda a implementação de uma série de medidas subsequentes, incluindo a análise minuciosa dos registos de trabalhos passados destes ajudantes, maiores requisitos para a aprovação das suas licenças, de maneira a reduzir a possibilidade de troca de emprego maliciosa e garantindo a estabilidade do mercado.

Contudo, o atual programa piloto está aberto apenas a um número reduzido de pessoas e conta com exigências altas. É importante que as autoridades definam um prazo para o mesmo e que se analise a sua eficácia e otimização, baixando os requisitos no futuro. Poderão também ser gradualmente relaxadas as medidas de restrição de entrada de empregados domésticos estrangeiros oriundos do Sudeste Asiático, resolvendo a escassez atual na cidade.

Surgiram algumas notícias sobre menores que se suicidaram durante a pandemia. Estarão a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, as escolas e as famílias a oferecer apoio suficiente a estes jovens?

M.I.F. – Acredito que as autoridades educativas devem auxiliar as escolas e os encarregados de educação no processo de formação cívica, fortalecendo as normas existentes e a cooperação entre a vida escolar e doméstica.

O Governo poderá ainda auxiliar a comunidade, as escolas, os trabalhadores de ação social, os encarregados de educação e os promotores de saúde a criar um mecanismo multifacetado que previna incidentes desastrosos ao lidar com os mesmos de forma sistemática e eficiente, de acordo com as diferentes situações e contextos dentro e fora da escola.

É importante dar valor ao apoio psicológico destes alunos nas escolas. Um estudo sobre o serviço de aconselhamento aos alunos de Macau recomenda que as escolas sigam uma proporção de um funcionário de ação social para cada 250 alunos. Contudo, esta proporção no ensino não superior durante o ano letivo de 2020/2021 chegou apenas a um por 312, com o caso de uma escola a possuir apenas um assistente social.

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Devemos investir mais recursos neste apoio psicológico aos alunos, aumentar o número de funcionários ou definir quotas maiores para as contratações nesta área, garantindo que todas as escolas contam com um acompanhamento psicológico sólido.

A sondagem “Exploração do conhecimento, atitude, valores e comportamentos sexuais de alunos universitários em Macau” mostra que o conhecimento destes é escasso e pouco aprofundado. A maioria não está consciente daquilo que uma sexualidade saudável implica. Como avalia a educação sexual atual nas escolas do ensino não superior? O que fazer para resolver estes problemas?

M.I.F. – Existe ainda muito por melhorar no que diz respeito à educação sexual nas escolas do ensino não superior, especialmente visto que o conteúdo, formato e horário desta disciplina é determinado por cada escola.

Algumas poderão receber professores convidados para falar sobre o assunto, outras até equipas especializadas para uma série de lições na área. Contudo, eu sou da opinião de que a autoridade educativa deve assistir as escolas na formulação de um currículo abrangente de educação sexual para conseguir garantir que quaisquer alunos, em várias fases da sua educação, recebem acesso a informação sexual apropriada.

Este método também ajudaria a garantir que as escolas tirassem melhor partido dos seus recursos e que os professores falassem deste tema com profissionalismo, sendo avaliados regularmente.

Acima de tudo, o mais importante é que exista cooperação entre a comunidade, escolas e agregados familiares, para conseguir ajudar os pais a implementar uma educação sexual eficaz.

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