
É sabido que todos os anos pelo Verão as florestas são tragédias à espera de acontecer.
Perante a incapacidade de sucessivos governos ordenarem o território, contrariarem interesses especulativos, fazerem prevenção e sensibilizarem as populações, nas últimas décadas juntaram-se as chamadas alterações climáticas, a explosão dos meios de comunicação e redes sociais. Segundo dados anunciados pelo Ministério da Administração Interna no passado dia 15 de Julho, 67% dos incêndios em Portugal tiveram uma origem negligente, e no que respeita a incendiarismo 14% foram atribuídos a indivíduos imputáveis. É sobre estes 14% que falarei. A semana passada assisti no Jornal da Tarde da TVI a uma reportagem que transcrevo alterando os nomes:
“(…) Foi um homem de 59 anos nascido e criado neste local que terá deixado uma vela a arder no chão (peço ao nosso operador de câmara para mostrar), para dar início ao incêndio no meio de um pinhal inserido numa zona de extensa mancha florestal e que devastou mais de um hectare de floresta. Segundo a investigação da Polícia Judiciária não foi possível ainda determinar uma motivação racional ou uma explicação plausível para além de um quadro grave de alcoolismo. Falamos então de fulano de tal com 59 anos, sem antecedentes criminais. É uma “figura da freguesia”, assim descrito pelos populares bem como pelo presidente da Junta. É o mais novo de 3 irmãos, o pai faleceu há mais de uma década e a mãe há cerca de dois anos. Foi então que este quadro grave de alcoolismo se agravou. Mas todos o descrevem como prestável, ele que também prestava alguns serviços para a Junta de Freguesia aqui de Sta Vagina da Serra como coveiro, ninguém diz mal deste homem, muito pelo contrário; é precisamente isso que vamos poder ouvir em declarações de vizinhos e populares. (Fala um idoso) nós precisamos de um favor, ele estava sempre pronto, oh pá humilde, muito amigo das crianças, brincava muito com os meus netos… não tenho palavras. (Fala uma mãe acompanhada de crianças) Ele era muito amigo dos meus filhos, estava sempre a brincar com os meus filhos, e eu ainda não acredito, ainda estou em choque porque ele até foi dos primeiros a ir ajudar a apagar o incêndio (…)”
Nisto se passaram 3 minutos de uma peça de reportagem dedicada a uma “peça” de gente. Não sei se pais e avós acham saudável um indivíduo com “um quadro grave de alcoolismo” ser “muito amigo” das crianças e “estar sempre a brincar com elas”, eu não acho mas é só a minha opinião. Aliás, não encontro nada saudável nesta peça. Nutro uma especial embirraçãozinha com a “humildade” mas isso é um tema que deixarei para outra ocasião, vejamos agora uma página do jornal Correio da Manhã, igualmente da passada semana:
“Amola tesouras de 59 anos foi caçado pelas autoridades. Colocou vários fogos à entrada da cidade apenas pelo gosto de ver arder. Ficou em prisão preventiva. Homem era procurado e já foi condenado por abuso sexual de crianças. Usou um isqueiro para atear vários fogos. As chamas destruíram mais de 500 hectares de terrenos, viaturas, casas e barracões. Houve pessoas em risco de vida. Não explicou os crimes e foi levado ao juiz que lhe decretou prisão preventiva. O homem estava contumaz, não tinha morada certa, andava sem eira nem beira.”.
Enquanto o primeiro incendiário de 59 anos é um sedentário que conquista a simpatia dos conterrâneos fazendo-se de cachorrinho submisso à espera que os humanos lhe façam festinhas, sobretudo as crianças, o segundo incendiário de 59 anos (será esta idade uma coincidência ou um padrão a ter em conta?) é um nómada e parece a carta do louco no baralho de Tarot ou então uma perversa versão do flautista de Hamelin: vagueia sem eira nem beira, a incendiar e a tocar flauta de pã ao mesmo tempo que vai abusando de crianças (o original prendeu-as numa gruta). As vítimas recebem pena, os heróis adulação, vítimas e heróis recebem atenção tal como os vilões. O segundo incendiário não configura alguém propriamente à procura de protagonismo, isso será uma consequência de dar largas à sua bestialidade. Esperando que esta avaliação não seja um juízo a quente (salvo seja) penso que o segundo indivíduo apresenta traços de acentuado egoísmo e falta de empatia, a sua humanidade vagabundeia algures num local diferente daquele onde o corpo está, e por isso quando instado a explicar os crimes a razão não encontra razão, já que foi abafada por impulsos animalescos. Sabe lá porque fez? Porque sim, porque teve vontade, e porque o Estado não tem meios de o evitar, não possui ferramentas que o impeçam de repetir tudo uma vez que se encontre em liberdade.
Voltando ao primeiro incendiário é claro que procura atenção e a história remete para reflexões sobre o grau de educação e maturidade de cada um de nós. As informações apresentadas na peça da TVI têm a relevância de bisbilhotices mas as consequências são potencialmente perigosas. Em primeiro lugar nem sequer alguma vez cogitei como se poderia incendiar uma floresta, porém ao explicarem e mostrarem em pormenor o processo da vela, oh pá, confesso que me deu ideias… Depois se eu fosse o bêbedo incendiário estaria neste momento com os níveis de satisfação bem preenchidos, como um heroinómano acabado de se injectar: uma tipa boazona vai em reportagem ao local, falam do meu pai, da minha mãe, dos meus irmãos, explicam o meu caso, debatem, põem as pessoas a falar de mim, uau quanta atenção! Ou seja, prevaricava e era premiado; de facto o crime compensa. Bem podem jornalistas e doutores andarem à procura de determinar “uma motivação racional ou uma explicação plausível”, porque com o seu mindset nunca as encontrarão, o incendiário está feliz e não tem mais nada a acrescentar. Existe igualmente a possibilidade de se tratar de uma vingança, isto é: farto de ser solícito sem receber o respeito de que se acha merecedor, desinibe-se através do álcool partindo para uma situação em que os outros serão obrigados a respeitá-lo/temê-lo: “ora tomem, por esta não esperavam, hein? E agora, debaixo das vossas capas paternalistas ainda fingem que me respeitam?” A categoria de manipulação deste indivíduo é elevada, manipula as pessoas lá da terra, manipula a comunicação social, põe-me a falar dele, conseguiu o que quis de todos, imaginem se não andasse a suicidar aos poucos o cérebro com álcool, era um génio. Não quero pôr as mãos no fogo (salvo seja) pela tese mas este indivíduo é um dissimulado, parece troçar dos adultos e respeitar as crianças, aliás nem elas se disporiam ao convívio se ele não estivesse genuinamente sintonizado no mesmo comprimento de onda, com elas não se finge. Aposto que é meigo com animais… Ora em vez de ser punido com ominoso desprezo é apaparicado com atenção. Quer dizer, os conterrâneos saberiam mas o país não, e assim escusavam de propagar o vírus, dar sugestões a outros. Para que preciso eu de lhe conhecer o nome mais a sua família e história de vida? Anonimato seria o pior castigo. A comunicação social sabe que a linguagem é um vírus do espaço que amplifica a nível global uma infecção local. De vez em quando lá temos de levar com uns assassinos em série e só por haver instruções para não dar cobertura a suicídios é que não parece haver surtos, pois está provado que se os mencionassem surgiriam inúmeros imitadores; no entanto os média acham bem esmiuçar a vida dos incendiários. Já não bastava eles terem o fascínio senil pelas sirenes, o infantil pelos carros de bombeiros, e a adrenalina das chamas, a gama completa de emoções primárias condensada no mesmo pacote, como ainda são presenteados com fama.
A comunicação social poderia optar por uma postura mais didática porque não são só os potenciais criminosos que se estimulam negativamente mas também o resto da população. Longe de achar que o sistema judicial está bem, o facto de a informação, tal como o entretenimento, se basear numa alta intensidade emotiva, leva as pessoas a julgamentos de cabeça quente, quando a justiça deveria ser praticada de cabeça fria, executada de maneira cega por “técnicos” de leis, não por turbas inflamadas. Quem no calor do momento sofre a morte de familiares e amigos, vê os seus bens pessoais ou colectivos destruídos, que tipo de justiça exigirá para os incendiários? Fritam-se os gajos, cortam-se as mãos, aplicam-se 50 prisões perpétuas? Sim, é para isto que caminhamos a passos largos, infectados pelo vírus da linguagem propagado pelos média, repassado nas redes sociais, amparados pela incompetência do Estado e pelo oportunismo político dos que o atacam e só subsistem a atirar achas para a fogueira, a espalhar o ódio, a espelhar o ódio que vamos fermentando dentro de nós. A linguagem exerce um controlo insidioso sobre a mente, ao fim de algum tempo a ouvir e reproduzir determinadas ideias tornamo-nos nessas ideias. Se elas estiverem tingidas de ódio só precisamos de um alvo que não tem necessariamente de ser aquele para o qual as ideias em princípio foram criadas. Essa é a beleza da mutação viral.
Para não sermos os próprios agentes da regressão civilizacional que se vai anunciando ao som de trombetas estridentes seria necessário que cada um de nós se educasse, crescesse, compreendesse o perigo que as emoções e palavras exacerbadas representam na criação de estados alterados de consciência, e que depois nunca se abdicasse de exigir responsabilidade e vigilância à comunicação social e ao Estado. Seria necessário que a comunicação social contribuísse com uma praxis mais agregadora da sociedade e não explorando-a como mera matéria-prima para alimentar um negócio. A linguagem pode ser divisiva, hoje infelizmente só se explora essa característica, todavia também pode ser usada para unir. Pensem nisso, ‘tá? Finalmente o Estado. O que fazer a tipos destes, reais ameaças à sociedade? Não sou apologista de castigos medievais mas algo tem de ser feito, o Estado não pode negligenciar a aplicação de uma justiça que apazigue os cidadãos, sob pena de aprofundar a clivagem já existente; é que a falta de confiança nas instituições e a traição aos anseios das populações podem gerar a médio prazo uma tragédia maior que a destruição provocada pelos incêndios.
O título do texto é uma frase de William S. Burroughs que no dia anterior à morte deu entrada no seu diário este último escrito: “amor? O que é isso? A cura da dor mais natural que existe”.
*Músico e embaixador do PLATAFORMA