A tradição e a modernidade da música de São Tomé e Príncipe - Plataforma Media

A tradição e a modernidade da música de São Tomé e Príncipe

Assinalou-se na passada terça-feira, 12 de Julho, o Dia Nacional de São Tomé e, Príncipe. Em jeito de homenagem, apresentamos aos leitores dois músicos daquele país: João Seria e Tonecas Prazeres

Hoje, os grandes rostos da música de São Tomé e Príncipe são os irmãos que constituem o duo Calema, que, a bem dizer, a nível internacional conquistaram o espaço antes ocupado por Juka. Anteriormente, Kalú Mendes e o seu tio Felício Mendes, com o sucesso “Ti Amo”, bem como Gilberto Gil Emblina e o também “nosso” Camilo Domingos, eram alguns dos nomes que levantavam a bandeira sonora são-tomense nas rádios e nas pistas em Angola, sem deixar de lado o Conjunto África Negra (Os Kiezos de lá). E não é por acaso que Os Kiezos trouxeram “Aninha” e o colocaram no seu reportório, com Juventino na interpretação.

Mas para a nossa homenagem, nada melhor que nos retermos em João Seria, por muitos considerado o General da Música de São Tomé e Príncipe, e Tonecas Prazeres, este com uma proposta de fusões rítmicas, casando o tradicional ao Jazz.  Ambos são autênticas referências e verdadeiros representantes das tendências rítmicas e propostas estéticas diferentes de São Tomé e Príncipe. Os dois têm em comum o facto de em várias fases da sua vida terem vivido e actuado em Angola. 

Uma das últimas passagens de João Seria por cá aconteceu em Dezembro de 2017, quando actuou no Muzonguê da Tradição a convite de Yuri da Cunha. Tonecas Prazeres voltou este ano para participar nas actividades do Dia Internacional do Jazz, com concertos produzidos pela ASA (Angola Schools of América) numa parceria com o Governo de Angola e a delegação da UNESCO.

No Muzonguê da Tradição de 12 de Dezembro de 2017, a convite de Yuri da Cunha, Tonecas Prazeres mostrou a força da música de São Tomé e Príncipe. Foi um dia em que se recordou a Kabetula, dança angolana que nos anos 80 fez furor ao ritmo do África Negra de João Seria. O General da música são-tomense recordou sucessos como “Alice”,  “Aninha”, “Mino Muê”, “Carambola”, “Maia muê”, “Bô Bê Kuá Kê dá” e “Não Senhor”, que, nos anos 80, aqueceram as pistas de dança angolanas. Naquele dia, teve o acompanhamento da banda de Yuri da Cunha e nos solos e ritmos contou com o jovem Texas, um produto da Igreja Tocoista, que tem no Nkembu nuances rítmicas semelhantes à proposta sonora que identifica João Seria e o seu Conjunto África Negra.

João Seria é filho de angolano e cabo-verdiana. Tudo começou em 1974, quando jovens são-tomenses decidiram juntar-se e com a música mostrar a identidade nacional, criando, com instrumentos usados, o grupo África Negra.  

Nos primeiros anos da Independência Nacional, com realce para o início dos anos 80, o Conjunto África Negra atinge o seu período áureo e conquista Angola, Cabo-Verde e, por arrasto, Moçambique e Guiné Bissau.   O concerto da Maratona Musical realizada pela Rádio Nacional de Angola, em 1983, prova a popularidade que alcançou em Angola.  Gilberto Júnior, radialista, afirmaria posteriormente que fora a primeira vez que testemunhara um grande engarrafamento na Ilha de Luanda. 

A história do África Negra cruza com a de João Seria,   apesar de este não ter feito parte da fundação. Foram fundadores o baterista Olinto, o solista Emídio, o baixo Pacheco, os viola ritmo Leonidio Barros, António e Dio.

Foi um casamento perfeito entre o timbre de João Seria e a sonoridade dos companheiros, que tocavam nos fundões e bailes ao ar livre, numa espécie de Kutonoka na terra do cajú. Nos fundões,  juntavam-se descendentes de colonos portugueses, os filhos dos contratados angolanos das comunidades piscatórias, chamados Angolares,  e cabo-verdianos e moçambicanos que foram trabalhar nas plantações de café e cacau. João Seria é filho de angolano e cabo-verdiana.

Em finais dos anos 80, durante uma digressão em Cabo-Verde, João Seria e o baixista Pacheco decidiram ficar na Cidade da Praia, o que constituiu um duro golpe para os África Negra. Actualmente, como aconteceu com Os Tubarões de Cabo-Verde, o Conjunto África Negra tem feito algumas digressões e Angola já teve o privilégio de receber um dos seus concertos desta nova fase.  Cabo-Verde, Gabão, RDC, Holanda, França, Bélgica, Alemanha e Portugal são alguns países onde João Seria e companheiros têm levado  a música e cultura de São Tomé e Príncipe.

“João Seria é, para os são-tomenses, o embaixador dos embaixadores que dá voz musical à nação, o artista do palco na dimensão maior da palavra. A título de exemplo, a memória colectiva de uma geração de são-tomenses ainda conserva a multidão em manifestação eufórica que correu os labirintos da capital no início dos anos 90 com a grande festa de recepção ao João Seria, comparável somente à recepção ao Governo de Transição em 1974 e ao regresso de Miguel Trovoada em 1990. Isto prova a dimensão deste artista”, refere uma nota colhida na Internet.

Outra nota que recolhemos e que importa contar, foi a luta de Camilo Domingos para convencer membros da comunidade de oriundos de países de língua portuguesa nos Estados Unidos que a música “Ma uê” não era angolana, mas sim de São Tomé e Príncipe.

Cito um portal são-tomense: “A música é a cultura, a cultura é o bilhete de identidade de um povo. João Seria deu-nos a conhecer nos anos 70 e daí em frente, no momento mais fervoroso, esperançoso e discutível da nossa História de país independente de que não se deve medir os homens aos palmos”.

No ano passado, durante as celebrações da Independência de São Tomé e Príncipe, aos 73 anos de idade João Seria obteve o reconhecimento oficial, depois de uma certa pressão da sociedade civil. O Governo do seu país  homenageou-o pelo seu contributo no engrandecimento da cultura do país, com um diploma e um apartamento.

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