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Ponto de fervura

João MeloJoão Melo*

No Diário de Notícias de 8 de Maio de 2017 informava-se que o Rio Tinto não compareceria ao jogo no terreno do Canelas, colocando em causa as suas aspirações de subida, afinal liderava o campeonato de Portugal de futebol dos distritais do Porto com 2 pontos de vantagem sobre o Canelas.

Esta ausência tinha a ver com a recusa da quase totalidade do plantel em defrontar a equipa adversária devido aos incidentes no jogo da primeira volta disputado a 2 de abril, e que foi interrompido aos dois minutos por causa da agressão de Marco Gonçalves, avançado da equipa do Canelas, ao árbitro José Rodrigues. A foto que ilustra o artigo mostra elementos da equipa do Canelas equipados, onde é possível ver o patrocínio principal das camisolas: “Life – strip club”. 

Quem é o Marco Gonçalves e que incidente foi esse? O jornal Observador de 8 de Abril de 2017 conta sob o título “Marco Orelhas, o jogador mais temido do Canelas que já foi benfiquista ferrenho”. “Marco Orelhas, do Canelas FC, chocou o mundo ao partir o nariz a um árbitro. Começou num bairro difícil e aprendeu a jogar no duro. O 11 inicial do Canelas é praticamente composto na sua totalidade por membros da claque do Futebol Clube do Porto, os Super Dragões. O seu estilo violento, tanto em lances como em escaramuças que se arrastam ao longo das partidas, tornou-os na equipa mais temida do futebol distrital. A fama, que pode ser atestada em vários vídeos, levou a que as equipas rivais deixassem de comparecer aos jogos com o Canelas — alegando que preferiam perder e pagar multas por falta de comparência do que ter de enfrentar aquela equipa. Entre os seus jogadores mais afamados está Fernando Madureira, conhecido por Macaco, líder da claque e capitão da equipa. E, claro, Marco Gonçalves, ou Orelhas, atualmente o número dois na claque. É dele que se fala e a crueza dos seus gestos dispensa adjectivos. Do bairro do Cerco à Turquia, do distrito do Porto à imprensa brasileira, ficou mundialmente conhecido por ter agredido de forma brutal um árbitro. Depois de ter agredido um adversário durante um lance, Marco levou um cartão vermelho directo ao segundo minuto de jogo. Insatisfeito com a decisão do árbitro, agarrou-lhe na cabeça, vergou-o à altura da sua cintura e deu-lhe uma joelhada em cheio no nariz que ficou partido em três partes. No final, o número 10 do Canelas FC foi levado pela polícia para fora do campo. No dia seguinte foi a tribunal e o juiz deixou-o com termo de identidade e residência”.

Orelhas? Espera lá, este não é aquele que… Sim, este indivíduo ou o filho são os presumíveis assassinos de um tal de Igor, também adepto do FC Porto, com o qual mantinham uma longa relação de agressões mútuas, as respectivas famílias parecem igualmente envolvidas, e que desde o dia 8 de Maio deste ano competem diariamente com as manchetes da guerra na Ucrânia e a falta de pessoal médico nos hospitais. Não vou aqui dissecar quem provocou ou fez o quê, não sei e francamente nem quero saber. Para já continuemos a viagem pelo historial relatado no Observador.

Carlos Boa Nova, amigo de infância de Orelhas e dirigente do Canelas, explica de forma simples: “Num bairro como o nosso, um gajo tem de ser agressivo para ser respeitado”. Esta é uma máxima que se aplica tanto dentro das quatro linhas como fora delas. “Aqui só consegues as coisas assim, tens de ser mais agressivo do que os outros, tens de saber desenrascar tudo”, diz, com a voz alta. “Nós somos obrigados a fazer mais pelas coisas do que as outras pessoas que não têm este modo de vida”, garante. “E a maneira como nós vivemos a vida acaba por ser a maneira como vivemos o futebol.” Pedro Nascimento, mais conhecido por Chinita jura a pés juntos que o número 10 do Canelas “não faz mal a ninguém”. Garante que o vídeo que mostra a agressão ao árbitro “não conta a história toda”. “Como é que a gente sabe o que é que o defesa-central [do Rio Tinto] lhe disse? E o árbitro é um anjinho?”, questionou. Chinita tem a certeza: alguma coisa terão dito a Marco Gonçalves para ele reagir daquela maneira. E, na sua perspetiva, um “filho da puta” ou “vai para a puta que te pariu” basta para explicar aquela reacção. Também isto, garante, se explica com a vivência do bairro. “A minha mãe matou-se a trabalhar para dar comida a todos nós, depois de o meu pai ter desaparecido”, conta, com voz alta de orgulho na progenitora. “Ela teve nove filhos! Nove! E às vezes ainda iam lá comer mais pessoas. Quando havia para todos, era porque ela se matava para haver. Quando falhava, era porque não tinha mesmo como dar”, conta. “Como é que eu posso ter passado por isto e depois admitir que alguém me chame filho da puta? Mãe há só uma e se tocam na minha levam. Se alguém me disser para ir para a puta que me pariu de certeza que sai daqui numa ambulância e fica a comer papas durante três meses.” Márcio Felício tem 34 anos e é amigo de Orelhas; a montagem de andaimes enche-lhe o prato — mas o futebol é que lhe enche a alma. Desde novo, jogou lado a lado com Orelhas, o alvo é sempre o mesmo e Márcio di-lo sem reservas: “os filhos da puta dos árbitros”. A prática é mais ou menos esta: “nós passamos o jogo a pressionar o árbitro, damos-lhe pontapés, se for preciso fodemos-lhes o focinho todo”. Márcio admite que “aquilo (partir o nariz ao árbitro) não se deve fazer” mas também está convencido de que o seu amigo está a ser “vítima de uma conspiração”. Além dos árbitros, acredita que é a comunicação social que está por trás de toda esta história…

Carlos Boa Nova, o dirigente do Canelas, num singelo momento de lucidez resumiu numa frase tudo o que há para dizer: “a maneira como nós vivemos a vida acaba por ser a maneira como vivemos o futebol”. Depois reparem como esta gente que vive com o palavrão na boca, que nos garante ser apenas uma forma genuína de falar “do nuorte”, não se pode confundir este jeito com grosseria, fica subitamente ofendida se ouve a palavra “puta”. É curioso que putas são sempre as mães, mulheres, irmãs ou filhas dos outros, nunca as nossas. As nossas têm uma espécie de aura purificadora que normaliza todos os absurdos (basta matar-se a trabalhar), até o facto de ter nove filhos e o pai ter sumido. Claro que depende do ponto de vista, talvez outra mãe de nove que não se mate a trabalhar esteja mais perto de ser uma puta. Juro que não estou a insinuar nada nem quero saber disso, só acho estranha a insegurança destes homens acerca da moralidade das suas mães, e também acho estranha a segurança que têm acerca da imoralidade das mães dos outros. Deve ser um inferno passar o tempo no limiar do melindre, mas ao contrário das mulheres que se matam a trabalhar suponho ser confortável viver sem fazer nenhum, acompanhando os jogos do clube de futebol, convivendo com as mulheres do clube de strip “Life”; desde que as putas lá de fora não se misturem com as mulheres da sua família consegue-se encontrar uma ordem que arruma a moralidade em caixinhas mentais, e então sentem-se mais seguros. Putas no clube de strip que se matem a vender o corpo para alimentar nove filhos é algo que não lhes deve merecer o mesmo respeito, “matassem-se a lavar escadas”. Quiçá não existiria tanto formigueiro se tivessem noção de como a vagina é sobrestimada, particularmente em relação ao carácter…   

Nesta reportagem de 2017 sobre o Orelhas encontramos os ingredientes para a produção de tragédia: desestruturação familiar, pobreza, ignorância, vivência numa selva urbana que estimula o instinto de sobrevivência, contraste com a riqueza alheia que estimula o ressentimento. Podia ser em S.Paulo, Joanesburgo, Chicago, etc. Isto é gente com mais problemas que um livro de matemática. O ressentimento gera ódio que nos campeonatos distritais se dirige aos árbitros, enquanto claque do FC Porto dirige-se ao Sporting e Benfica, nos momentos em que não há competições como foi o caso da celebração do título de campeão nacional, é entre eles que se faz a descarga da violência. Como calculam, ser da claque do clube A ou B é irrelevante, todos os grandes tendem a atrair para debaixo da sua alçada franjas desfavorecidas que se diluem num colectivo maior que o individual, aliás quanto mais vitorioso o clube mais atrai perdedores da vida; e se não houvesse clubes de futebol reuniam-se em gangues de rua, falanges políticas extremistas… O futebol será assim apenas um meio. Já a diferença entre o clube A e B reside no que se demarca destes grupos e no que os apoia implícita ou explicitamente.

O FC Porto sustenta esta cultura bélica desde os anos 80, a forma que o seu presidente Pinto da Costa usou para se demarcar da concorrência e congregar a região norte “contra o poder centralista da capital”, arrogado numa espécie de Robin dos Bosques que ambicionava ver Lisboa a arder… As vitórias em diversas competições bem como o enfraquecimento dos maléficos adversários do sul, sobretudo o Sporting, deram respaldo às suas acções. No entanto nem tudo são rosas, vemos aqui a faceta negra do seu legado, comprovada pelo poder que a claque dos Super Dragões tem no clube. Fernando Madureira, o famoso Macaco, líder da claque, afirmou em tempos que defenderia Pinto da Costa “até à morte”, estava disponível para se “pôr à frente de uma bala” disparada contra o seu presidente. A semana passada André Villas Boas sugeriu que se candidataria à presidência do clube em 2024 e o Macaco respondeu logo “só por cima do meu cadáver”. A família de Igor, alegadamente assassinado pelo Orelhas ou o filho deste, fez manchetes de dor na comunicação social; seria “mataram o nosso filho, irmão, pai?” Não, as manchetes diziam “mataram o nosso guerreiro”; acima de ente querido a família perdeu um soldado. “Receber uma bala”, “por cima do cadáver”? Que raio de narrativa belicista é esta, que nível de banalização da violência é este? Bem, se fosse falar da recente inundação de vídeos nas redes sociais de violência no trânsito nunca mais saía daqui. Enfim, há uns anos compreendi que nos dirigíamos para um ponto de efervescência colectiva, fundamentalmente devido às dificuldades económicas; agora constato que já lá chegámos, e daqui para a frente tudo é possível… para pior.

*Músico e embaixador do PLATAFORMA

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