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A ponte académica sobre o rio das Pérolas

Martim FialhoMartim Fialho

A Fundação Jorge Álvares planeia lançar uma ferramenta digital no próximo mês para incentivar mais portugueses a estudar em universidades chinesas e locais, bem como asiáticos a estudar em Portugal. Ao PLATAFORMA, Júlio Jatobá, da Universidade de Macau, realça a importância desta iniciativa na atração de pessoal qualificado. Já Sara Augusto, da Universidade Politécnica, sublinha que o portal digital pode originar uma cooperação de sucesso entre Portugal e Macau em diversas áreas da investigação académica

Fernanda Ilhéu, do Conselho de Administração da Fundação Jorge Álvares (FJA), referiu à Lusa em fevereiro que cada universidade e instituto politécnico de Portugal, da China continental e de Macau terá direito a gerir um espaço próprio no portal digital da FJA para colocar a sua oferta educativa. O objetivo é facilitar aos alunos a consulta de informação sobre cursos, programas, perfil dos professores, condições de inscrição e pagamento de propinas.

A fundação irá disponibilizar ainda informação acerca das cidades onde se localizam os campus das instituições e as residências universitárias disponíveis. Haverá também referências sobre a obtenção de vistos, abertura de contas bancárias, realização de seguros e acesso a serviços de saúde para estudantes estrangeiros.

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O portal vai possuir uma área específica para ajudar investigadores a identificar potenciais parceiros de pesquisa, partilhar trabalhos e organizar eventos conjuntos. A iniciativa pretende promover a cooperação entre instituições de ensino superior chinesas e portuguesas na área da investigação científica. Apesar da ferramenta não ser lançada até abril, Fernanda Ilhéu espera que até lá “a pandemia seja controlada e as situações de quarentena sejam levantadas”.

Canais abertos

Júlio Jatobá, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Macau (UM), falou com o PLATAFORMA e realçou a importância da iniciativa, nomeadamente no impacto que terá na Zona de Cooperação Aprofundada. “Sou otimista e estou confiante que a plataforma ajudará zonas como Hengqin na atração de pessoal qualificado”. 

Júlio Jatobá, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Macau

“Em adição, o papel da liderança mundial da China com foco e ênfase no conhecimento e respeito mútuo entre as nações é fundamental, imprescindível e propício para a criação de plataformas de cooperação, sejam estas académicas, económicas ou culturais”, sublinha. 

Já Sara Augusto, docente do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa da Universidade Politécnica de Macau (UPM), acredita que uma plataforma deste tipo, “tendo em conta a sua abrangência e inclusão, pode ter um papel importante”. A professora adjunta da UPM, doutorada em Línguas e Literaturas Modernas, constata ser “óbvio que cada instituição, de forma mais ou menos desenvolvida, tenha os seus canais de informação”. 

A docente da UPM dá ainda o exemplo da Plataforma 9, que classifica como sendo “centralizadora no campo da investigação”. “Esta ferramenta resultou da parceria da Fundação Calouste Gulbenkian através do Programa Gulbenkian de Língua e Cultura Portuguesas, e da Associação Internacional de Lusitanistas. Esta plataforma é consultada por milhares de investigadores e professores e tornou-se um dos principais instrumentos de divulgação, partilha e comunicação, dentro dos Estudos Sociais e Humanos”, salienta Sara Augusto a este jornal. 

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Por sua vez, o académico da UM relembra que, de uma maneira geral, as universidades que ensinam a língua portuguesa na China “já executam com êxito parcerias de intercâmbio universitário não apenas com Portugal, mas também com o Brasil”. 

A cooperação histórica entre os Países de Língua Portuguesa e a China continua a ser um fator importante à luz de uma iniciativa como a da Fundação Jorge Álvares. “Não há dúvida que a China tem interesse em incrementar as suas parcerias com os países lusófonos e, ao mesmo tempo, reúne e oferece todas as condições para o êxito da plataforma”, esclarece Júlio Jatobá. 

Para Sara Augusto, a rápida integração de Macau à China não levará a um desencorajamento de estudantes portugueses a querer estudar localmente, “longe disso, uma vez que o espaço de ação se torna bem mais amplo, desafiante e integrado em projetos bem enquadrados”. A mesma responsável sublinha a especificidade própria de Macau, algo que “só valoriza as suas circunstâncias”, e acrescenta que a “linha do tempo não parou neste tempo de transição”. 

A docente da UPM acredita que a plataforma digital da FJA “possa ter resultados”. “Pareceu-me pela notícia (sobre o portal da fundação), contudo, que o âmbito estará mais centrado nas instituições de ensino do que no mercado de trabalho, embora a ‘atração de pessoal qualificado’ possa ser uma das consequências do desenvolvimento do ensino e da investigação”, esclarece. 

O sucesso do portal digital “dependerá muito mais de como será a sua adesão e usufruto em Portugal do que na China”, sublinhou Júlio Jatobá, acrescentando também que para a concepção e efetivação de quaisquer planos são “necessários mais detalhes sobre quem são ou o que se entende como ‘profissionais qualificados’ e quais serão os papéis desempenhados pelos ‘talentos bilíngues’”. 

O professor da Universidade de Macau relembra também que o sucesso ou não da iniciativa da fundação depende da evolução da situação pandémica, nomeadamente porque a Covid-19 condiciona o contacto direto entre académicos, estudantes e professores. 

Na China, sê lusófono 

Júlio Jatobá elencou os interesses da China relativamente à cooperação com os países lusófonos, especificando que conforme aponta um estudo seu (Política e Planejamento Linguístico na China: Promoção e Ensino da Língua Portuguesa), o mercado da China para profissionais que dominam a língua portuguesa e chinesa “assenta-se e é fruto de duas grandes forças”. 

“A primeira, oriunda das necessidades do Estado, é o interesse da política externa chinesa pelos países de língua portuguesa com foco especial nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. A China não procura apenas fornecedores de matéria-prima ou potenciais consumidores de produtos chineses, mas sim a construção de relações políticas e diplomáticas baseadas no conhecimento e respeito mútuo”, refere o académico, explicando que “é fundamental o aumento de quadros especializados nas línguas e nas culturas dos países de língua portuguesa”. 

Quanto à segunda força, “oriunda das exigências da iniciativa privada”, esta é constituída pela “urgente necessidade de formação de profissionais que atendam à procura no mercado entre a China e os países de língua portuguesa, com destaque especial para as economias de Angola, Brasil e Moçambique”. 

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Tomando em conta este macro contexto político, o instrumento digital da fundação é “sem dúvida fundamental e necessário”. “Contudo, as crescentes e frutíferas parcerias académicas entre instituições de ensino de Portugal e os demais países lusófonos, levarão a que num futuro próximo, seja necessário considerar expandir o portal digital e incluir instituições de ensino de outros países de língua portuguesa”, acrescenta, salientando que “todos ganhariam”. 

Sara Augusto, docente do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa da Universidade Politécnica de Macau

Cooperar e investigar 

Uma das grandes estratégias da plataforma digital é criar uma rede de investigação entre as diversas instituições de ensino. O portal espera poder oferecer utensílios para que se explorem diferentes áreas de estudo e pesquisa. O professor da Universidade de Macau refere que esta vertente “originará cooperações de sucesso”, mas acredita que entre Macau e Portugal isto “passa por um processo de amadurecimento”. 

Este tipo de intercâmbio académico fez com que Júlio Jatobá tivesse um primeiro contacto com a China, “através do professor Hu Xudong” (crítico de literatura brasileira na China e de tradução literária português-chinês). “Foi essa experiência na Universidade de Brasília que me levou, em 2006, para Pequim para aprofundar os meus estudos. Em 2009, levou-me a Guangzhou, desta vez como professor. E em 2015, trouxe-me a Macau”, concretiza. 

O docente da UM defende que o êxito dos programas de intercâmbio e de cooperação “não poderá nunca ser contabilizado com números absolutos”. “Deve ser lido sempre como a sucessão de pequenas experiências individuais que, por um lado, a médio prazo direcionam carreiras e as nossas vidas pessoais e, por outro lado, a longo prazo alinham e aperfeiçoam as relações estratégicas entres os países envolvidos”, esclarece. 

Por sua vez, Sara Augusto acredita que uma parceria em diferentes áreas de investigação entre Macau e Portugal é capaz de estabelecer boas relações na investigação académica. No entanto, clarifica que a sua área de atuação “tem a ver com a língua e a literatura, sendo inúmeros os caminhos a seguir e os projetos de convergência já em ação”. Concretamente, a professora adjunta refere que cada instituição “tem as suas linhas de investigação mais prementes, que quer valorizar” e que Portugal será “sempre um parceiro a ter em conta”. 

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Apesar disto, Júlio Jatobá defende que as áreas de cooperação “não são e nem devem ser estáticas”, devido ao caráter multifacetado de uma cooperação académica em várias frentes. “Estas áreas alteram-se pelas vicissitudes e pela busca dum equilíbrio entre o alinhamento dos interesses da China, de Portugal e, claro, da iniciativa privada de ambos os lados”, clarifica o académico, especulando que “a arbitragem internacional e os serviços linguísticos serão os pilares para qualquer cooperação bi ou multilateral”. 

O mesmo responsável não antevê que o portal digital da Fundação Jorge Álvares leve a um aumento no número de instituições a ensinar português na Ásia, se “as necessidades comerciais entre os países lusófonos e asiático não aumentarem”. Por outro lado, Sara Augusto revela que “já existe uma oferta substancial” e que o ensino da Língua Portuguesa “mantém a sua tendência crescente”. “Será sempre de acordo, contudo, com políticas bem estabelecidas no seio das instituições e do seu enquadramento mais amplo”, explica. 

Júlio Jatobá confessa ainda que no caso de universidades na Ásia que ensinam português, “talvez por eu não acompanhar com a mesma atenção com que acompanho a evolução na China, percebo que as estratégias destas instituições seguem muito mais as lógicas locais do que as nacionais, tendo, aparentemente, as necessidades da iniciativa privada uma maior evidência e talvez mais relevância do que as dos Estados”. 

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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