A primeira celebração do Dia Internacional da Mulher ocorreu em 1909. Desde então, e quase um século depois, todos os anos celebra-se o dia 8 de março. O tema principal desta data foca-se na proteção dos direitos das mulheres e luta pela igualdade de género.Gradualmente, estamos a lutar pela mudança de vários aspetos na nossa sociedade. Desde pequenas alterações no vocabulário e linguagem a outras grandes mudanças: nomeadamente, na forma como ensinamos as novas gerações a romperem com os papéis do género e a desenvolverem-se das mais variadas formas.Os papéis de género com raízes culturais, sociais e com uma história tão longa, apesar de fáceis de discutir, são difíceis de eliminar.
A partir de quando é que não precisaremos mais de abordar estes assuntos?
A obra “Bela Viajante”, da escritora Wong Bik-Wan, foi publicada no início do século XXI e representou uma rotura com a narrativa masculina. O livro da autora de Hong Kong mostrou também uma reconstrução do diálogo feminino.
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Ao entrarmos no 22º ano deste século, o tópico da mulher parece ser discutido regularmente e sem escassez de opiniões provocadoras. Contudo, será que esta tendência para uma maior discussão destruiu de facto as barreiras de género e ajudou a diminuir os obstáculos enfrentados pelas mulheres?
Que clareza podemos obter relendo agora a obra de Wong Bik-Wan segundo o atual contexto da mulher?
Em “Bela Viajante”, a personagem principal (Zhao Mei) é a única mulher numa equipa de serviços aéreos de Hong Kong, uma profissão dominada por homens. Após
uma missão de salvamento, a sua perna é amputada devido a um acidente trágico, obrigando-a a usar uma perna prostética. Zhao Mei começa assim um processo
de reabilitação, de paciência e de aprendizagem, onde volta a andar e procura a sua liberdade de forma incompleta.
Após o acidente, a personagem afirma que é “uma sobrevivente num jogo regido pelas leis da selva. “Porque haverei de estar triste?!”, indaga. Os homens da sua equipa ficam surpreendidos com a esta sua reação.Durante um longo período de tempo, as vozes das mulheres estiveram ausentes porque a sua imagem era construída pelo patriarcado. A fraqueza, a vontade de chorar, ou a necessidade de que alguém tome conta delas, são tudo consequências de uma mulher sob a alçada do olhar do patriarcado.
Este sistema deu origem à criação de um modelo rígido da felicidade feminina: demonstração de fraqueza e procura pela proteção do homem para, em torno, receber tratamento preferencial ou bens materiais.Muitas mulheres participam neste modelo: abraçam a fraqueza como algo garantido, suprimem a sua vontade própria e assumem uma posição submissa em troca de uma
melhor qualidade de vida.
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Se continuarmos a ser fracas e a abdicar da nossa autonomia, receio que o estatuto da mulher vai continuar a deteriorar-se. Segundo o atual contexto social, a situação
da mulher é de facto semelhante à da protagonista Zhao Mei, com apenas um pé. Uma série de dilemas têm dificultado o desenvolvimento da mulher. Durante o processo de candidatura a um emprego, as mulheres são julgadas e postas em segundo plano, quer pela sua aparência, estado civil, ou por terem filhos.
Uma família com uma filha e um filho poderá parecer que distribui os seus bens materiais de forma igual. Porém, as expectativas dos pais em relação aos filhos são maiores.
Já as filhas não precisam de ter sucesso, bastando apenas “casarem com alguém proveniente de uma boa família”. Desta forma, mesmo no seu casamento, não deixam de estar sob controlo.
Esta realidade é semelhante a estar numa mesa cirúrgica, onde é cortada parte da força da mulher, dificultando a sua evolução na sociedade.Enquanto criticamos a opressão da mulher numa sociedade patriarcal, devemos também relembrar que a atual ordem social foi estabelecida através do esforço
de muitos homens.
Caso as mulheres promovam a sua voz e uma ordem segunda a mesma, através de uma vida mais ampla e um estatuto superior, teremos de saber reconstruir a imagem que nós próprias possuímos (de mulher fraca, forte, com ou sem estrutura).Devemos assumir responsabilidade pelas nossas próprias vidas, trabalhando em conjunto com os homens, e não dependendo deles. Gradualmente construímos o nosso próprio caminho, criando mais e diversificadas oportunidades para a mulher.
*Membro da Associação de Intercâmbio Linguístico e Promoção Cultural (LECPA)