O domínio dos dragões do Éden - Plataforma Media

O domínio dos dragões do Éden

Há um ano e meio que aqui escrevo uns disparates. De vez em quando acerto, até um relógio parado está certo duas vezes ao dia, no entanto não se deverá completamente ao acaso.

Quando pensamos e conjecturamos baseados numa ideia, uma ou outra hipótese concretiza-se, como é o caso de algumas produções de Hollywood, das famosas premonições dos Simpsons, e num patamar micro-cósmico aquilo que escrevi em Agosto de 2020 sob o título “Big Brother”:

(…) também tenho a mania que sou criativo, vamos a uma aposta? Eu aposto que quando a vacina estiver disponível, a seguir tornar-se-á obrigatória em alguns países. Será ilegal não estar vacinado e pior, circular é um crime grave que põe em risco a comunidade. Sem poder sair, o prevaricador passa a viver clandestino, numa espécie de prisão domiciliária.”  

A 1 de Fevereiro de 2022 a Áustria será a primeira nação a tornar obrigatória a vacinação contra o covid. Secular berço de génios das artes, das ciências e do pensamento, ultimamente a Áustria parece um laboratório de experiências radicais da Alemanha: o seu império originou a primeira guerra mundial, deu à luz o indivíduo que espoletou a segunda, e a partir daí a maioria do que chega alude a casos insólitos, lotes de sangue infectado no tempo da Leonor Beleza, serial killers, sequestros, dos quais se destaca o de Natascha Kampusch, e um bordel em Viena que oferece 30 minutos de sexo grátis a quem se vacinar num posto instalado no próprio estabelecimento… Tentei-me a dissertar acerca do país porém não o farei porque apesar dos traços peculiares daquela cultura tudo é possível de acontecer em qualquer lugar, no caso da obrigatoriedade da vacinação outros se seguirão. Quando questionado sobre a acção da novela “1984” se situar numa Inglaterra governada por um governo totalitário, George Orwell disse que serviria para mostrar que “se não for combatido, o totalitarismo pode triunfar em qualquer parte”.

Transcrevi uma parte do meu texto para salientar a diferença entre saber teórico e empírico. Inquieta-me que num estado de pressão constante a memória seja curta já que no fundo todos sabemos tudo, a informação está aí disponível para qualquer um, mas só quando sentimos é que acordamos, enquanto as forças que nos governam foram construindo o cenário com que nos deparamos ao despertar; depois pouco mais resta do que aceitá-lo, participar nele e voltar a entorpecer. Em “1984” há um departamento que se ocupa em re-escrever a história, semelhante à que actualmente se observa; não obstante a visibilidade da re-escrita (alguma válida) que inclui o choque com valores, tradições e medos enraizados, ela serve fundamentalmente para reagimos a ela, enraivecendo-nos, pondo-nos uns contra os outros. A verdadeira e insidiosa re-escrita modela-nos o pensamento não quando estamos atentos e sim adormecidos, actua no subconsciente apagando a memória. Não sei se é por conhecer a obra de Orwell ou ter participado numa experiência de reclusão chamada Big Brother, muito do que escrevo neste espaço tinge-se dessas referências, alternadas entre o pensar e o sentir, a consciência e a hipnose.

Vejamos os três slogans do partido que governa o território descrito na novela: GUERRA É PAZ, LIBERDADE É ESCRAVIDÃO, IGNORÂNCIA É FORÇA. Nenhum é original, incorporam normas conhecidas do poder desde o alvor da civilização. Orwell que trabalhou nos serviços coloniais do Império Britânico familiarizara-se com a sua aplicação e resultados. O governo do partido compunha-se de quatro ministérios: o Ministério da Verdade, responsável por notícias, entretenimento, educação e belas-artes, o Ministério da Paz, responsável pela guerra, o Ministério do Amor, ao qual cabia manter a lei e a ordem, e o Ministério da Pujança, responsável pelas questões económicas. Bem articulados estes quatro reunem o essencial para controlar a população.

“O volume do instrumento (chamava-se tele ecrã) podia ser regulado, mas não havia como desligá-lo completamente. O único problema era a Polícia das Ideias. Tentar adivinhar o sistema utilizado pela Polícia das Ideias para conectar-se a cada aparelho individual ou a frequência com que o fazia não passava de especulação. Era possível inclusive que ela controlasse toda a gente o tempo inteiro. Fosse como fosse, uma coisa era certa: tinha meios de conectar-se ao seu aparelho sempre que quisesse. Winston mantinha as costas voltadas para o tele ecrã. Era mais seguro; contudo, como sabia muito bem, mesmo as costas de uma pessoa podem ser reveladoras.” Neste excerto apresenta-se um tele ecrã que está presente em todas as casas; não será necessário matar a cabeça para perceber a equivalência aos computadores e smartphones. Há uma conhecida foto na net que mostra Mark Zuckerberg em frente ao seu lap top com fita isoladora a tapar a câmara; lá saberá porque o faz. O Ministério da Verdade e a Polícia das Ideias são conceitos assustadoramente actuais desde que surgiram as fake news e a censura ao “politicamente incorrecto”. Tal como na obra, além de uma vigilância activa das autoridades ao pensamento, decorre a que fazemos uns aos outros. As ideias subvertem e quanto mais formos massacrados por dificuldades mais abraçaremos o entretenimento de modo a esquecermo-las, e menos pensamos. Tenho sublinhado noutros textos a minha preocupação com a paulatina redução de conteúdos críticos especialmente nas livrarias: se no seu habitat natural vão desaparecendo, seja por que motivo for, encontramo-nos à beira de uma tragédia equiparável à extinção de uma espécie.

“Ontem à noite cinema. Só filmes de guerra. Um muito bom do bombardeio de um navio cheio de refugiados em algum lugar do Mediterrâneo. O público a achar muita graça aos tiros dados num gordo que tentava nadar para longe perseguido por um helicóptero. Primeiro ele aparecia a chafurdar na água como um golfinho, depois já estava todo esburacado e o mar em volta ficou rosa e ele afundou tão de repente que parecia que a água tinha entrado pelos buracos. O público urrando de tanto rir quando ele afundou. Depois aparecia um bote salva-vidas cheio de crianças com um helicóptero a pairar logo acima.” Perdi a conta ao tempo que não assisto a um filme novo interessante. A maioria das produções constitui-se de conflitos épicos protagonizados por personagens fantásticas, desenroladas em espaços e tempos alternativos. De tanto as absorvermos, as épocas e personagens de conflitos reais confundem-se, perdendo-se na bruma da memória. Deixem os velhos morrer, interrompam a transmissão do conhecimento e daqui a cem anos ninguém saberá quem foi Hitler mas todos saberão quem é o Iron Man; isto faz parte da reformulação histórica. A menção em 1948 a barcos de refugiados no Mediterrâneo é simplesmente visionária.

Winston constatou estar a berrar junto com os outros e percebeu que golpeava violentamente a trave da sua cadeira com os calcanhares. O mais horrível dos Dois Minutos de Ódio não era o facto de a pessoa ser obrigada a desempenhar um papel, mas de ser impossível manter-se à margem. Depois de trinta segundos já não era preciso fingir. Um êxtase horrendo de medo e sentimento de vingança, um desejo de matar, de torturar, de afundar rostos com uma marreta, parecia circular pela plateia inteira como uma corrente eléctrica, transformando as pessoas, mesmo contra a sua vontade, em malucos a berrar, rostos deformados pela fúria. Mesmo assim, a raiva que as pessoas sentiam era uma emoção abstracta, sem direção, que podia ser transferida de um objeto para outro como a chama de um maçarico.Eis o nosso estado de espírito actual. Andamos cheios de raiva, uma emoção abstracta dirigível para uma discussão trivial, um comentário numa rede social ou coisas que julgamos mais estruturadas como ideias. Tudo a alimenta, e por muito que as pessoas se convençam de que a sua origem está no alvo que atacam, ele é somente o destinatário de uma pulsão pré-existente.

A evolução humana levou à adição de palavras enriquecendo o vocabulário, estimulando o pensamento. A melhor forma de empobrecer o pensamento é simplificar o vocabulário. Em “1984” é inclusivamente criada uma nova língua, a “novilíngua” cujo intuito seria limitar a expressão. Orwell preocupava-se com a deterioração do inglês em particular as “frases feitas” que não apenas constroem uma sentença para quem escreve mas chegam a pensar-lhe o próprio pensamento. Mais do que a pobreza da língua, afligia-se com a pobreza do pensamento que a língua padronizada causava. Esta padronização é o instrumento para abolir o pensamento independente e a análise crítica. Cá está porque detesto “escrita fácil” no telemóvel, não uso correctores, escrevo na grafia antiga, e em vários textos não escondo a minha antipatia pelo Twitter, uma plataforma limitada a 280 caracteres, curiosamente a preferida dos governantes, bem como aos emojis; especialmente nestes a fala já vem pré-cozinhada, desvincula-se do pensamento, a articulação da consciência. É o fast food da linguagem. Não quero, não preciso de facilidades,“perder tempo” a falar e escrever condignamente ajuda-me a não resvalar para a cristalização mental.

Um dos preceitos do partido era estar sempre em guerra com outra região. Frequentemente na vida real os inimigos financiam-se e treinam-se pelos futuros oponentes, casos da Alemanha nazi, Japão imperial, Irão, Iraque, Afeganistão, Síria, grupos terroristas, etc, etc… Se não há um inimigo natural identifica-se um potencial vilão, pode ser um aliado, dá-se-lhe rédea solta e posteriormente manobra-se o discurso de modo a levar a população a engajar-se no esforço de guerra. Saddam Hussein foi um dos recentes exemplos. O explícito apoio dos governantes ibéricos à invasão americana do Iraque sem acordo das Nações Unidas trouxe-lhes vantagens: a Espanha recebeu um forte investimento americano, Durão Barroso acabou a presidir a Comissão Europeia, abandonando o governo português a meio da legislatura. E porquê um estado de guerra interminável? Desde o século XIX a qualidade de vida tem aumentado, e num mundo industrializado cada vez se trabalha menos, em várias áreas os humanos substituem-se por robots e Inteligência Artificial. Há demasiados “inúteis” no mundo, pobres, doentes crónicos, velhos, refugiados… A guerra alimenta a economia, mata milhões de “inúteis”, escoa a produção industrial sem elevar o padrão de vida, mantendo a esperança de que através do esforço colectivo, no futuro as coisas melhorarão. Já repararam que desde o fim da 2ª Guerra Mundial as grandes potências sempre encontraram inimigos e estiveram envolvidas em guerras? Já repararam que desde o surgimento do covid os conflitos esfriaram, os Estados Unidos até saíram do Afeganistão? Neste momento travamos uma guerra global contra a pandemia, que pôs países em estado de calamidade, fronteiras fechadas, liberdades e direitos restringidos, milhões de “inúteis” mortos, a produção industrial concentrada em combater o inimigo, não existe margem para luxos, sequer petróleo, gás ou electricidade a preços razoáveis de maneira a suprir as necessidades individuais, após o que virá a fome. Teria sido este inimigo também financiado e treinado por quem o combate? “Dá-se-lhe rédea solta e posteriormente manobra-se o discurso de modo a levar a população a engajar-se no esforço de guerra”… Actividades simples do passado recente como assistir a um espectáculo ou jantar fora implicam tanta burocracia que desmobilizam o intuito, mais cómodo será ficar em casa. E aceitamos, porquê? Porque é um inimigo comum, invisível, só especialistas o veem e sabem como o derrotar; entrementes vamos nutrindo a esperança de as coisas se recomporem com o nosso empenho. Mais do que não ter nada e lutar por obter algo, no mundo desenvolvido lutamos afincadamente para recuperar o que perdemos. É evidente que a guerra está para durar, afinal duas doses da vacina são insuficientes, serão precisas 3, 4, 5 ad eternum, vacinar o terceiro mundo, jovens, crianças, bebés, e o Ministério da Verdade trabalha para não pensarmos nisso, ademais o que faríamos com a consciência? É melhor nem pensar, consente-se ansiando um rápido regresso à normalidade. Os cartazes com arco-íris “vamos ficar todos bem” substituíram-se pelo slogan “vacina”, o importante agora é “salvar vidas”, “salvar o natal”, no próximo ano será “salvar a páscoa”, “salvar as férias”, não saímos do modo de “salvação”, parecemos uns idiotas de essência mística encurralados numa realidade tecnocrática. Assim há que dramatizar o inimigo que não se vê (em séculos anteriores seria o demónio) exibindo estatísticas, enfim, factos científicos que provam a sua existência maligna, enquanto o estado de guerra continua, e as narrativas sofisticam-se adaptando-se ao momento.

“1984” tem uma qualidade curiosa: com o tempo perdeu o carácter de ficção. Quando foi lançado considerava-se uma novela distópica, há 40 anos tornou-se um aviso quanto ao futuro, agora é a realidade. Se continuarmos a ver a obra como uma distopia, então foi nisso que o mundo se tornou. Não nego evidências nem apresento soluções, estou só a propor uma reflexão sobre o estado a que chegámos. Se não resulta de um plano bem urdido, é uma formidável coincidência, tudo calhou na perfeição, até houve três estarolas, Trump, Bolsonaro e Boris Johnson (entretanto convertido) para servirem de exemplo ao que não se deve fazer. Cresci a ler divulgação científica, a sonhar com a contribuição da ciência para um mundo mais desenvolvido, livre e fraterno; noto que se tornou refém de quem a financia, quedou-se ao serviço do lucro, opressão e divisão. E se há 73 anos Orwell descreveu o quadro que hoje se apresenta apenas por pensar e estar a par de métodos de controlo, é ao avanço tecnológico que devemos a sua realização efectiva.

*Músico e embaixador do PLATAFORMA

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