Falhas em reconhecimento alimentam máquina de prisões injustas de negros e pobres no Brasil - Plataforma Media

Falhas em reconhecimento alimentam máquina de prisões injustas de negros e pobres no Brasil

Levantamento inédito da Folha analisa cem casos de inocentes encarcerados; 71% dos reconhecimentos errados incriminaram negros.

A máquina estatal que alçou o Brasil ao posto de país com a terceira maior população carcerária do mundo também arrasta, nas fendas de suas engrenagens, uma massa invisível de inocentes.

Pessoas que tiveram suas vidas interrompidas por até duas décadas foram atiradas de volta à sociedade sem pedidos de desculpas após o reconhecimento dos erros e ficaram marcadas pelo preconceito e pelo medo de voltarem ao inferno.

São em sua maioria negros e, quase em sua totalidade, pobres.

A Folha seguiu nos últimos 12 meses os rastros dessa máquina Brasil afora. Encontrou cem histórias de pessoas encarceradas injustamente no país e traçou um diagnóstico dos principais erros que levam a essas prisões.

Embora sejam cem os casos detectados, a massa de inocentes pode ser muito maior porque, pela falta de transparência, os erros não são reconhecidos oficialmente e só se tornam públicos pelo trabalho da imprensa.

São três as principais falhas desse processo, destrinchadas após análises de milhares de páginas de processos e dezenas de entrevistas, e que correspondem a 84% dos casos de injustiças: procedimentos de reconhecimento feitos ao arrepio da lei, pessoas presas no lugar de outras por erro de identificação e prisões baseadas só nas palavras de policiais e sem investigação.

Em relação à porta de entrada do cárcere, o levantamento da Folha revela que, de 100 pessoas presas indevidamente, 42 delas foram vítimas da maneira como as autoridades realizaram os procedimentos de reconhecimento, muitas vezes induzindo vítimas a apontarem o suspeito escolhido.

Esse foi o caso do vendedor de balas Wilson Alberto Rosa, 37, preso na zona sul de São Paulo em janeiro de 2017 sob a suspeita de ter participado de um roubo cinco meses antes, na mesma região da capital paulista.

O responsável pela prisão foi um policial civil, marido da vítima, que, após cismar com o vendedor de balas, deu voz de prisão e mandou que ele se ajoelhasse para que fosse fotografado. A foto foi enviada para sua mulher, que teria reconhecido o rapaz.

Rosa foi levado a uma delegacia. Ao invés de seguir para o distrito da área, a cerca de 2 km dali, como seria correto, o investigador levou o vendedor para a unidade policial em que ele trabalhava, a 20 km do local do crime.

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