Cuidados paliativos ainda pouco compreendidos - Plataforma Media

Cuidados paliativos ainda pouco compreendidos

Cai era uma mulher ligada às letras que adorava cantar e dançar quando era jovem. Depois de ter adoecido, já em idade avançada, deixou de conseguir falar e movimentar-se sozinha. O único “entretenimento” na vida desta idosa era ouvir o som da máquina de soro, enquanto olhava para o teto branco do quarto de hospital.

Quase a chegar aos 90 anos, a filha deixou-a a cargo de Zhou Can, uma funcionária ligada ao serviço de apoio social. Desde então que deixou de viver no silêncio. De vez em quando alguns voluntários visitam-na para uns pequenos espetáculos no quarto.

No dia em que celebrou 90 anos, Zhou Can decorou o teto com adornos de feliz aniversário e convidou alguns dos amigos e familiares para celebrar com Cai.

Zhou reparou logo nos olhos abertos e molhados de Cai enquanto decorava o quarto. No final da festa de anos, a filha segurou na mão da cuidadora e disse-lhe: “Estou extremamente agradecida. Até senti a mão da minha mãe mexer um pouco quando a segurei”.

“As pessoas em casa já me compreendem”, admite a filha com um suspiro. Zhou Can entendeu imediatamente o que a filha queria dizer. A cuidadora tem consciência de que muita gente não apoia o serviço de cuidados paliativos prestados a idosos.

Em muitas partes do país esta é uma área ainda em desenvolvimento. Em Chongqing, por exemplo, poucas organizações oferecem este tipo de serviço, não existindo um sistema completo e uniformizado.

Em 2016, Zhou Can, com 24 anos, terminou a universidade e começou a trabalhar na primeira organização social em Chongqing, onde era responsável pelo serviço de cuidados paliativos. Na altura era um serviço que o centro tinha introduzido apenas há três meses. Os colegas encontravam resistência por parte das famílias, que não conseguiam aceitar o serviço, como se os cuidados paliativos fossem um tópico altamente sensível.

Mesmo assim, os colegas persistiram, e trouxeram Zhou Can para ajudar a comunicar. Zhou Can explicou que os cuidados paliativos são isso mesmo, “cuidados”. “O nosso serviço é gratuito. Tomamos conta maioritariamente de idosos, e procuramos animá-los com a ajuda de alguma medicação”, diz.

Ao longo e cinco anos de trabalho, Zhou Can cada vez compreende melhor que o que faz é mais do que um serviço, representa uma perspetiva sobre a vida e a morte. “Acreditamos que no que diz respeito aos idosos em fim de vida, a qualidade de vida é mais importante do que o tempo. Queremos que estes morram com dignidade e possam usufruir ao máximo dos últimos dias de vida”, afirma Zhou Can.

Zhou admite que muita gente vê este serviço como apenas uma forma de tomar conta dos idosos à espera da morte, quando é na verdade um cuidado que pode durar desde vários meses até alguns anos. Este serviço social é um trabalho normal.

Trabalhadores sociais podem também ser médicos e enfermeiros, e os cuidados paliativos incluem ainda visitas diárias, realização de desejos dos doentes, atividades de entretenimento e apoio médico. Estes funcionários entram também em contacto com diferentes recursos sociais conforme as necessidades dos doentes, procurando ao máximo satisfazer os respetivos pedidos.

“Os desejos dos idosos são na verdade muito simples. Alguns pedem apenas para beber um sumo”, assinala. Zhou Can confirma que os idosos reagem sempre, até aos pequenos gestos dos funcionários. “Mesmo alguns que parecem estar com dificuldades em respirar acalmam quando ouvem música. Alguns, mesmo tremendo, não deixam de querer oferecer-nos uma mãozinha cheia de doces”, atira.

Ao longo dos últimos cinco anos, Zhou Can e restantes colegas já cuidaram de mais de uma centena de idosos. Além do reconhecimento dos mesmos e das famílias, a recente onda de envelhecimento na China faz com que Zhou Can acredite na necessidade deste tipo de serviços.

Atualmente a China conta com uma população idosa de 260 milhões. “Quer seja para dar resposta às necessidades emocionais dos idosos ou às necessidades práticas da sociedade chinesa, os cuidados paliativos são extremamente necessários”, conclui Zhou Can.

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