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Os erros da guerra pandémica

Paulo RegoPaulo Rego*

Mais do que o debate entre confinar e desconfinar, urge encarar de frente erros de base que estão a fragilizar o combate à pandemia. Essencialmente três: dependência do negócio privado; incapacidade de educar para a prevenção e confiança comportamental; negacionismos e egoísmos geoestratégicos, que deixam o vírus proliferar e mutar-se em zonas descobertas, minando todas as outras.

Os governos meteram-se nas mãos dos laboratórios – lestos a trabalhar a fórmula, mas muito pouco eficazes na produção e na entrega. A venda a grosso, com entrega a conta-gotas, tem contornos pouco transparentes, que cheiram mais a negócio do que a incapacidade real.

Numa esquizofrenia sem precedentes – em parte compreensível, por força das incertezas – confinam e desconfinam de forma reativa, arrasando com a economia sem verdadeiramente protegerem as populações.

Por fim – e mais grave – é a proliferação de egoísmos nacionalistas. Cada um tratando de si, sem perceberem que a imunidade, não sendo global, no fundo não existe. No médio e longo prazo, não há regiões que estejam a salvo, se todas as outras descambam.

A vacinação é lenta. São muito mais rápidas as mutações e migrações do vírus. Como o mundo não aguenta estar eternamente à espera da vacina – essencial, mas não mágica – temos de aprender a agir e movimentarmo-nos no contexto das restrições que a circunstância impõe. A testagem, a despistagem, as regras de comportamento individuais e coletivas têm de atingir níveis que nos permitam existir – e coexistir – de forma responsável. Muito está por fazer em matéria de pedagogia e adaptação. Os confinamentos são destrutivos, cansativos – e ineficazes.

Por fim, concentrar a vacinação na Europa e Estados Unidos, dispensando o papel que China e Rússia podem cumprir, deixando a América Latina e África entregues às suas fragilidades, é a pior ideia de todas. Mais do que arrogante, é profundamente ignorante. O vírus não tem fronteiras. Não se iluda quem pensa viver fechado sobre si mesmo, projetando paraísos independentes e estanques. Isso não existe. Nesse mundo desunido… vence a pandemia.

*Diretor-Geral do Plataforma

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