Filhos de Xanana Gusmão escrevem a vítimas de ex-padre acusado de abuso em Timor-Leste

Filhos de Xanana Gusmão escrevem a vítimas de ex-padre acusado de abuso em Timor-Leste

Três filhos do ex-Presidente timorense Xanana Gusmão escreveram cartas às vítimas de um ex-padre acusado de abusos de crianças em Timor-Leste, lamentando que o pai tenha visitado o homem, que começa a ser julgado este mês.

As cartas, que foram enviadas às vítimas através dos seus representantes legais, foram escritas por Alexandre Gusmão, com 20 anos, Kay Olok, com 18, e Daniel Gusmão, 16, e divulgadas pela mãe, Kirsty Sword-Gusmão, a partir da Austrália, onde os quatro residem.

“Quando os meus três filhos ouviram e viram que o seu pai foi visitar o ex-padre, sentiram-se tristes e pediram para escrever uma carta para as meninas que foram vítimas do abuso sexual pelo ex-padre. Estas cartas já foram entregues às vítimas, através do seu representante legal”, escreveu Kirsty, numa mensagem na sua conta pessoal no Facebook.

“Os três autorizaram-me a publicar as suas palavras porque, tal como eu, sentem que têm o dever moral, como jovens timorenses, de encorajar outras crianças e jovens para terem coragem de falar sobre a sua experiência, incluindo o seu sofrimento, mesmo que isso faça muitas pessoas sentirem-se desconfortáveis”, acrescentou.

Em causa está uma polémica visita que Xanana Gusmão efetuou no final de janeiro a Richard Daschbach, na casa onde este está a cumprir prisão domiciliária, em Díli, por ocasião do aniversário do acusado.

A cobertura noticiosa dessa visita suscitou críticas do presidente do Conselho de Imprensa timorense, Virgílio Guterres, que considerou que as notícias na imprensa nacional tentaram “branquear” o ex-padre norte-americano.

Na semana passada, a Conferência Episcopal Timorense apelou a toda a comunidade católica em Timor-Leste para que aceite e respeite a decisão tomada pelo Papa Francisco de expulsar Daschbach do sacerdócio.

Em outubro do ano passado, o representante da Santa Sé em Díli disse à Lusa que o Vaticano “não tem qualquer dúvida” de que o ex-padre é culpado desses crimes, aplicando-lhe a sentença “inapelável” de expulsão do sacerdócio.

Daschbach, de 84 anos, detido em 2019, é acusado de abusar de pelo menos duas dezenas de crianças no orfanato onde trabalhava, o Topu Honis, localizado no enclave de Oecusse.

Em setembro do ano passado o procurador-geral da República, José da Costa Ximenes, confirmou à Lusa que além dos crimes de abuso sexual de crianças, o Ministério Público acusa Daschbach dos crimes de pornografia infantil e violência doméstica.

O código penal prevê penas máximas de 20 anos de prisão por abusos sexuais de menores de 14 anos, agravadas em um terço se as vítimas tiverem menos de 12 anos.

Na sua carta, o filho mais velho, Alexandre Gusmão, transmite uma mensagem de apoio e confiança, aponta a coragem das vítimas, apesar das dificuldades que estão a passar, e critica a decisão do pai.

“Depois de ouvir que o meu pai visitou Richard Daschbach, fiquei muito desiludido e espero que as suas ações não mudem o que vocês decidiram fazer. Merecem sentir-se seguras e ultrapassar isto o mais rapidamente possível”.

Daniel Gusmão, de 16 anos, dirige-se às vítimas, admirando a coragem “de falar sobre os crimes cometidos” contra si, considerando que terem denunciado os crimes inspirará outras crianças a fazer o mesmo e criticando a ação do pai.

“Aplaudo-vos por permanecerem fortes para lidar com isto. Espero que saibam que o que vocês estão a fazer inspirará crianças em todo o Timor-Leste, agora e no futuro, para que falem e procurem justiça quando os seus direitos forem violados”, escreve o jovem.

“Quando ouvi que o meu pai tinha visitado o autor, ex-padre RD, senti tristeza e raiva. Peço desculpa se as ações do meu pai vos causaram angústia”, conclui.

Kay Olok, de 18 anos, refere as “ações heróicas e corajosas” das vítimas que procuram justiça para si próprias, inspirando “milhares de meninas em todo o mundo, que ouvirão as [suas] histórias e seguirão os [seus] passos, falando contra este mal”.

“Sei que estes são tempos duros e que hoje se sentem sós, mas um dia a história vai recordar-vos como heroínas. Falar sobre o que vos aconteceu é o primeiro passo no caminho da cura. São uma grande influência e têm todo o meu apoio durante estes tempos difíceis”, escreveu.

Kirsty Sword-Gusmão referiu que algumas pessoas têm considerado a visita de Xanana Gusmão como uma “ação de caridade pessoal”, mas considerou que o facto de ter envolvido a cobertura dos media a transformou “num ato público e político com grandes implicações na opinião pública, no estado psicológico das vítimas e no resultado do processo judicial que está em curso”, e que começa a ser julgado no próximo dia 22 de fevereiro, em Oecusse.

“Sei que estas minhas palavras e as palavras dos meus filhos vão fazer com que muita gente se zangue e faça comentários negativos diversos. Estamos prontos, porque todas as mudanças sociais e progressos humanos exigem coragem, sacrifício e sofrimento”, considerou.

“Todos os timorenses, incluindo o próprio Maun Boot, conhecem esta realidade melhor que outros povos”, concluiu, referindo-se a Xanana Gusmão com o termo com que é conhecido em Timor-Leste, que quer dizer ‘Grande Irmão’.

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