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EUA-China: “A inação está a tornar-se insuportável e perigosa para a Europa”

Plataforma com Lusa

Estados Unidos da América e União Europeia (UE) lançaram mecanismos de diálogo para coordenar a resposta à China, mas o Conselho Europeu para as Relações Externas acredita que a UE se deve proteger da “agressão económica” de ambas as potências

Mike Pompeo, o secretário de Estado norte-americano, anunciou ontem a inauguração de um mecanismo de cooperação com a UE. “O Alto Representante da UE, Josep Borrell, e eu lançaremos o diálogo EUA-UE sobre a China”, disse Pompeo, reiterando que o compromisso com os “amigos da UE” é importante, pois “os europeus também estão preocupados com o ambiente que vivemos”.

O chefe da diplomacia norte-americana anunciou ainda que a primeira medida do mecanismo será criar um banco de dados que reúna as informações que a UE e os EUA têm sobre a China e, de seguida, coordenar ambas as respostas.

O diálogo foi acertado em junho, quando Borrell fez a proposta durante uma reunião com os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE e dos EUA. E Pompeo anunciou posteriormente que concordou com a criação de tal mecanismo.

Desde que Donald Trump chegou à Casa Branca, em 2017, a luta pela hegemonia com a China intensificou-se. Desde março de 2018 que ambas as potências travam uma guerra comercial e nestes últimos meses tem-se intensificado o conflito, com restrições pesadas às empresas chinesas Huawei e ZTE nos concursos internacionais para a rede 5G, bem como uma acérrima troca de acusações sobre quem é o culpado da origem da atual pandemia de Covid-19.

As pressões em território europeu têm-se intensificado para “escolherem um lado”, mas a UE encontra-se numa situação difícil de gerir, onde “a inação está a tornar-se insuportável e perigosa para Europa”, defende Jonathan Hackenbroich, autor do relatório do think tank independente do Conselho Europeu para as Relações Externas (ECFR, na sigla inglesa).

O ECFR é um think tank independente, com escritórios em várias capitais europeias e investigadores em todos os 27 Estados-membros da UE. Tem vindo a analisar as consequências que esta situação pode ter na Europa e salienta que tem de haver uma coordenação entre países-membros para contrariar a “agressão económica” que já se faz sentir. “A opção preferencial da UE face a ameaças externas será sempre o compromisso multilateral. No entanto, isso nem sempre é viável, especialmente perante tentativas de chantagem ao mais alto nível”, acrescenta Hackenbroich.

O autor do relatório é da opinião de que a UE precisa de opções que aumentem a “resiliência” europeia, estabelecimento de “um dissuasor eficaz” e “os incentivos certos para a cooperação” e “evitar uma nova escalada”. Tais opções devem afastar o “recurso à agressão económica por outras potências”.

(Fotografia de Daniel ROLAND / AFP)

A UE quer cooperar com a China para desenvolver o multilateralismo, mas ambos diferem em questões como os direitos humanos e a relação política com Hong Kong. Esta semana, a Alemanha concedeu o estatuto de refugiada a uma estudante e ativista pró-democracia natural de Hong Kong, que disse ter protestado contra a lei da extradição naquela região administrativa especial chinesa, avançou a Associated Press (AP).

Outros assuntos como as campanhas de desinformação de origem chinesa durante a pandemia preocupam a UE.

O relatório ainda defende que União Europeia deve criar um banco de exportações, estabelecer um euro digital e restringir o acesso aos mercados europeus para contrariar a “agressão económica” de potências como a China e os EUA.

Para o diretor do ECFR, Mark Leonard, “os Estados Unidos e a China não querem uma guerra convencional”, pelo que “a sua arma mais poderosa é a manipulação da arquitetura da globalização”, que coloca a Europa em “risco de ser espremida no meio da sua competição”.

Alguns dos exemplos citados são as ameaças norte-americanas de sanções a vertentes do comércio UE-Turquia, a proibição aos bancos europeus de admitirem contas da procuradora do Tribunal Penal Internacional que investiga possíveis crimes de guerra dos EUA ou a ameaça da China de suspender o fornecimento de equipamentos médicos à Holanda.

Entre 11 instrumentos propostos figura um banco europeu de exportações, para manter abertos os canais financeiros com países terceiros alvos de sanções de potências estrangeiras e limitar a exposição ao sistema financeiro norte-americano e ao dólar.

O estudo propõe ainda a criação de um euro digital, mais resiliente à coerção económica e que permita reduzir a informação para países terceiros sobre as transações financeiras europeias.

Ou ainda que as transferências globais de dados, a que as empresas são crescentemente pressionadas, sejam negociadas em acordos baseados no comércio regulado e na concorrência leal, ou, caso não seja possível, reguladas por uma autoridade europeia que proteja as empresas de transferências de dados sensíveis para países terceiros.

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