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As marcas do vírus na saúde mental

Psicólogos alertam para o impacto da pandemia. Os casos de ansiedade, stress e depressão também aumentaram em Macau e Hong Kong desde a chegada do vírus da Covid-19. 

“Todas as semanas, recebo perto de cinco novos casos com sintomas de transtornos psicológicos ou psiquiátricos relacionados com o vírus”, diz ao Plataforma Willy Wong, representante da Mental Health Association Hong Kong.

Um estudo da Universidade de Hong Kong sobre Depressão e Ansiedade na região durante a pandemia da Covid-19 – o primeiro www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7277420/- revela que dos 500 inquiridos 19 por cento sofria de depressão e 14 por cento de ansiedade. “Além disso, 25,4 por cento assume que a saúde mental se deteriorou desde o início da pandemia”, lê-se no documento publicado já no segundo trimestre do ano. O estudo realça que a prevalência da depressão é muito superior à que foi registada em períodos anteriores. Entre 1994 e 2014, era de 10,8 por cento. 

O psiquiatra realça que a Covid-19 passou a ser tema incontornável nas consultas, com novos e antigos pacientes. Além do medo do contágio, há outros motivos na origem do aumento da procura por apoio psicológico. Com base nos resultados do estudo, Wong enumera as incertezas sobre o novo coronavírus, as notícias sucessivas sobre o número de infetados e de mortes, a ausência de uma vacina, a disseminação da doença e o cansaço face ao longo período sob medidas de saúde pública. “Depois, as consequências da pandemia: a mudança drástica de estilo de vida, o desemprego, as licenças sem vencimento, as dificuldades financeiras, a ausência de vida social, estudar e trabalhar de casa”, acrescenta. “E há ainda mais um: o estigma de ter sido um dos infetados”. 

Agatha Lam também recebe mais pacientes desde o início da pandemia, que em geral sofrem de ansiedade, stress ou depressão. A maioria, afirma a psicóloga do Hospital Yinkui, não está preocupada com o vírus mas com os efeitos colaterais. “O mais frequente é o impacto financeiro, por causa do desemprego e redução do orçamento familiar. Tenho muitos pacientes ansiosos porque estão desempregados, sob maior pressão ou porque os chefes se tornaram mais duros. Preocupa-os quão má pode ficar a situação económica e quanto vai durar.”

O psicólogo Angus Kuok acrescenta que, no início, a população estava preocupada em sobreviver, em como prevenir o contágio, onde arranjar máscaras e desinfetante, e se tinha água e comida suficientes em casa. “Quando deixou de haver casos na cidade por um período, o foco passou a ser outro”, constata o coordenador da licenciatura e do mestrado em Psicologia da Universidade de São José (USJ). 

A economia – dependente do Turismo e do Jogo – fez com que a região se ressentisse com a ausência de visitantes depois das restrições nas entradas impostas pelo Governo. “E aí começaram as preocupações com o emprego. A lenta retoma em Macau assim como a crise económica mundial criada pela pandemia contribuíram para uma subida nos níveis de ansiedade face à incerteza”, frisa.

O número crescente de contágios no exterior deixou claro que a economia local demorará a recuperar, apesar de estar há quase 100 dias sem infetados. “Os cidadãos de Macau podem não ter sido tão afetados psicologicamente como outras populações em zonas de elevado risco, mas é plausível assumir que o estado emocional em que se encontram há meses acabe por ter consequências psicológicas. Temos de estar atentos”, avisa.

Outro fenómeno que Agatha Lam nota é a maior procura da parte de cidadãos estrangeiros. “Não ir a casa há muito tempo e não saber quando poderão fazê-lo são focos de ansiedade, sobretudo quando alguém próximo está mal ou morre. Também senti mais procura dos locais que estudam fora”, realça.

Estado de alma

O Instituto de Ação Social (IAS) desconhece se houve aumento no consumo de medicamentos antidepressivos e no número de pacientes com patologias psicológicas desde que surgiu o novo coronavírus. Em resposta ao PLATAFORMA, aponta no entanto que houve uma subida de 12 por cento das desavenças familiares entre janeiro e junho face ao mesmo período do ano passado.

“Em comparação com o período homólogo de 2019 e durante a pandemia, o número de casos de problemas familiares de 2020 teve um aumento por causa de problemas económicos: durante a pandemia, algumas pessoas sofreram de problemas psicológicos e emocionais resultantes da possibilidade da perda de emprego, da redução do horário de trabalho e consequente pressão económica”, assinala.

Por outro lado, no “convívio entre familiares, devido à redução do horário de trabalho ou ao layoff dos encarregados de educação, e à suspensão das aulas dos filhos, os familiares ficaram mais tempo em casa e surgiram mais facilmente os problemas de convívio e de como educar os filhos”, detalha.

Sem precisar números – tanto de casos como do consumo de medicamentos -, os Serviços de Saúde limitam-se a referir que, até ao início de setembro, a linha direta de apoio psicológico recebeu 33 chamadas de ajuda. “Deve ser enfatizado que as causas de recorrência da doença mental envolvem múltiplos fatores, sendo difícil determinar a causa unicamente a partir de um único fator, como por exemplo a pneumonia causada pelo novo coronavírus”, ressalvam.

Um estudo sobre depressão em Macau levado a cabo pela USJ antes da pandemia, em 2019 e apresentado em setembro, mostra que o emprego e a economia é o que gera mais ansiedade na população local. “Tendo em conta este aspeto, é legítimo deduzir que o aumento do desemprego e das situações de licença sem vencimento vão representar uma subida dos casos de stress e, eventualmente, de depressão”, prevê Angus Kuok. 

O académico enfatiza que mais de 60 por cento dos inquiridos respondeu que não procuraria ajuda se sentisse sintomas. “Surpreendentemente, mais de metade assumiu que desconhecia como procurar apoio, significa isto que é preciso educar para que se entenda o que é a depressão. É igualmente importante dar a conhecer à população os meios de assistência”, defende.

O IAS garante que, em resposta à pandemia, foram implementadas medidas para apoiar os cidadãos, como um livro sobre a linha de apoio emocional e a prevenção da pandemia, e o serviço de apoio familiar, alimentar e económico. Os serviços acrescentam que há também um serviço de apoio emocional e de aconselhamento, e ações de sensibilização. Em março e setembro, recorda, foi ainda atribuído um subsídio adicional para ajudar as famílias mais vulneráveis durante a pandemia. “Até ao momento, não se regista uma tendência crescente de número de famílias que requereram da ajuda devido ao impacto da pandemia”, indica. 

Reverso da moeda

Willy Wong, também diretor do Hong Kong Psychiatry And Integrated Medical Centre, salienta que um período de crise pode reverter a favor das pessoas se for encarado, como uma oportunidade para mudar comportamentos, por exemplo, ao nível da proteção ambiental, para formar e sensibilizar as populações para questões de saúde, para adotar um novo estilo de vida ou aprender a ser flexível face à mudança ou imprevistos. 

Não tem sido fácil, reconhece o psiquiatra. Socialmente, Wong realça o pessimismo generalizado, as crises económicas, o aumento do desemprego, a incerteza, e a constante alteração das estratégicas de saúde. Individualmente, menciona o ter de trabalhar e estudar em casa, o maior contacto com quem se coabita, o isolamento e distanciamento sociais, a ausência de vida social e consequente solidão, assim como a maior consciência com a limpeza e higiene.

“Macau e Hong Kong são territórios relativamente pequenos, mas o impacto em cada uma das regiões pode ser diferente. Hong Kong é mais populoso, o modo de vida mais acelerado. A pandemia acabou por ser mais forte em Hong Kong”, sublinha. “Não ignorem os sintomas e procurem ajuda”, desafia Willy Wong. 

Pensar no que se pode controlar e fazer, e não no inverso é fundamental, aconselha Agatha Lam. “Há muitos aspetos que continuam a estar sob o nosso controlo: manter uma rotina, fazer o que gostamos, comer bem, fazer desporto, estar com familiares e amigos. Ter cuidado próprio é muito importante em circunstâncias adversas”, frisa.

Além destes, a psicóloga defende que é essencial valorizar os fatores positivos como a taxa de contágio ser hoje menor e a vacina estar em desenvolvimento. “Ao longo da pandemia, muita gente ficou mais forte e passou a valorizar mais a vida. Vai deixar essa marca: obrigou-nos a lidar com adversidades e a treinarmos a capacidade de adaptação”.

Um inquérito realizado em 130 países pela Organização Mundial da Saúde revela que a pandemia levou à interrupção ou suspensão de serviços essenciais de saúde mental em 93 por cento dos países do mundo, numa altura em que a procura por estes cuidados de saúde está a aumentar. ““O luto, o isolamento, a perda de rendimento e o medo estão a desencadear condições de saúde mental ou a exacerbar as já existentes”, salienta. 

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