Ricardo Salles, o ministro do Meio Ambiente que é contra o Meio Ambiente

Ricardo Salles, o ministro do Meio Ambiente que é contra o Meio Ambiente

Em editorial, este Sábado, a Folha de S. Paulo escreve que Ricardo Salles, que está ministro do Ambiente do Brasil, deveria deixar o cargo, “Salles precisa sair”.

O ministro, que quando confrontado com as constantes polémicas em que se envolve raramente responde aos jornalistas, recorreu ao Twitter para ripostar. Vá-se lá saber porquê em vez de ir ele próprio buscar a notícia original foi pela postagem de Rodrigo Constantino, um economista e comentador profissional, conservador, que apelou ao voto em Bolsonaro nas últimas eleições, e que chama “Foice” à Folha e diz que o jornal “precisa falir”. Salles pegou no desejo de falência de um jornal e foi beber à “Declaração do Fico” de D. Pedro I, quando em 1822 o então príncipe regente respondeu às Cortes Portuguesas que não voltaria a Portugal – “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico” – para escrever: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Esquerda, digo à Folha que fico”… Acrescentado no final a hashtag #ficasalles.

Poderia até ser mera coincidência a frase ser do primeiro Imperador do Brasil, não fosse Salles parecer demasiadas vezes ele próprio ter assomos de Imperador na ação como ministro.

Salles é aquele que na famosa reunião de 22 de abril disse que era preciso “ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De Iphan, de Ministério da Agricultura, de Ministério do Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo” durante a pandemia. Ele que em 2019 já tinha decidido uma alteração estrutural no Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), reduzindo o número de representantes, sobretudo da sociedade civil, deixando o órgão à mercê da vontade do ministério liderado por Salles. Ora, no fim de setembro deste ano a boiada passou, e com estrondo, ao serem revogadas medidas que protegiam os manguezais, as áreas de restinga e obrigavam os projetos de irrigação a serem submetidos a processo de licenciamento ambiental. Temos, portanto, o Conselho do Nacional do Meio Ambiente a decidir contra…o Meio Ambiente.

Talvez a forma como o homem que está ministro olha para o jornal Folha de S. Paulo esteja relacionada com o facto de ele, o jornal, fazer… jornalismo. É que foi a Folha que contou, no início deste mês, que Salles passa muito mais tempo em São Paulo, a famosa “selva de pedra”, do que na Amazónia ou Pantanal entanto estes ardem. Apesar de a decisão ser questionável poderia ter uma explicação muito boa, mas ao ler mais percebe-se que essas viagens levaram também a muitos mais encontros com pessoas do sector imobiliário do que propriamente com gente ligada ao Meio Ambiente. “Apenas nos últimos três meses, Salles manteve seis agendas com o setor, entre almoço, reuniões e participação em eventos”.

Salles já tinha, em 2019, colocado fim ao milionário Fundo Amazónia (3,4 mil milhões de reais), que contava com doações de vários países, mas sobretudo da Noruega e Alemanha, para combater o desmatamento e promover a conservação da floresta. As razões para a extinção prenderam-se com questões sobre os projetos financiados que os próprios financiadores não tinham… Já este ano o vice de Bolsonaro, Mourão, afastou Salles da presidência do comitê orientador do Fundo e reuniu-se com os embaixadores dos dois países para tentar reativá-lo. Até agora sem sucesso.  

Salles é o ministro que quando tomou posse exonerou 21 dos 27 superintendentes do IBAMA, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, órgão de fiscalização ambiental. Poucos meses depois, o governo anunciava com estranho orgulho que tinha reduzido em 34% as multas por desmatamento ilegal no Brasil. Como 2019 correu muito bem em termos de combate ao desmatamento e queimadas e incêndios (quem não se lembra do famoso “Dia do Fogo”?) este ano o ministro do Ambiente decidiu reestruturar outro dos mais importantes órgãos ambientais do país: o Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio). Salles mandou fechar as 11 coordenações regionais do órgão que cuida das unidades de conservação e dos centros de pesquisa. Passaram a existir coordenações por região, cinco, e quatro delas são geridas por militares.

Ricardo Salles é o ministro do Ambiente do governo que, soube-se esta semana, atrasou a entrada de brigadistas no combate ao fogo que consome o Pantanal e a Amazónia por causa de burocracia e falta de planeamento. Quem o diz é nada mais nada menos que o… IBAMA.

Desde o início do ano ardeu mais de um quarto do Pantanal, 25,6%, para ser mais preciso. São perto de quatro milhões de hectares. Para se ter uma ideia, é quase o tamanho do Estado do Rio de Janeiro. Em 16 dias arderam 10%, mais de 24 mil hectares, do Parque Nacional da Chapada dos Viadeiros. Em seis dias foram queimados cerca de 2 mil hectares na Chapada Diamantina.

Tudo isso é culpa de Ricardo Salles? Não.

“Salles precisa sair”?. Naturalmente que sim.  

*Jornalista

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