Nascer em Portugal: acompanhamento das grávidas e humanização dos partos

Nascer em Portugal: acompanhamento das grávidas e humanização dos partos

Em Portugal, a mulher grávida desperta frequentemente um sentimento de carinho e afetividade em quem está ao seu redor, pelo facto de trazer dentro de si um ser que representa parte do futuro de [email protected]! Mas por trás desta aparente felicidade e plenitude que deveria ser a celebração do nascimento, existem medos e preocupações.

São comuns expressões como “eu até queria ter mais filhos, mas não quero passar por isto outra vez”. Mas estas expressões, emocionalmente carregadas, contrastam com o que um parto deveria de facto ser: uma experiência única, pessoal, com maior ou menor dificuldade, mas com a certeza de respeito, dignidade e sem sofrimento desnecessário. Uma parte muito significativa das mulheres portuguesas descreve esses momentos como atrozes e, em alguns casos, autênticas torturas medievais. Em 2015, a Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto divulgou isso mesmo nos resultados do inquérito “Experiências de Parto em Portugal”. Em 2018, a OMS emitiu recomendações no sentido de estabelecer os padrões globais de cuidado para mulheres grávidas saudáveis e reduzir o número de intervenções médicas desnecessárias. Em 2018, Portugal teve uma taxa de 53% de partos instrumentalizados.

Atualmente continuamos com uma taxa muito preocupante de episiotomias de 77% (incisão efetuada na região do períneo), enquanto países como a Dinamarca apresentam taxas de 4%, em linha com a recomendação da OMS, que desaconselha esta prática por rotina.

Faltam condições e motivação aos contextos hospitalares para garantir o acompanhamento das grávidas, transformem-se os contextos hospitalares, garantindo-se os meios necessários.

Apesar das recomendações da OMS, continuam a existir relatos de partos onde se aplica a manobra de Kristeller (pressão na barriga da mãe para o bebé sair), uma manobra considerada violência obstétrica, desaconselhada e perigosa tanto para o bebé como para a mãe. Portugal tem excelentes profissionais de saúde que já integram as melhores práticas clínicas no seu trabalho, mas há também, infelizmente, muitos relatos de práticas abusivas, inaceitáveis, efetuadas muitas vezes de forma rotineira, sem consentimento informado ou qualquer informação dada à parturiente, numa clara violação dos direitos da mulher e da lei portuguesa. Os profissionais de excelência têm de liderar os processos, inclusive os de formação aos restantes.

Com a emergência da COVID-19, intensificaram-se os medos: o medo de separação do seu bebé ou de ficar sem acompanhante na sala de parto num momento tão próprio.

Têm sido inúmeros os relatos do processo solitário que tantas mulheres têm sido forçadas a fazer neste contexto sanitário, o que não se compreende. Isto quando a norma da DGS refere que o acompanhamento deve ser a norma. Faltam condições e motivação aos contextos hospitalares para garantir o acompanhamento das grávidas, transformem-se os contextos hospitalares, garantindo-se os meios necessários. Estamos num caminho de transformação do papel que tem de ser dado às mulheres e pessoas significativas acompanhantes neste processo. Os serviços de saúde são isso mesmo, prestar serviço, estar ao serviço da mulher que vai ser mãe, da família que irá ser o suporte para a vida, e da criança, que deverá ter todo o nosso cuidado.

Os políticos têm de usar não só os seus valores, mas também a melhor evidência científica, para garantir a confiança e segurança nestes processos para que, mesmo em tempo de COVID, todas as mulheres possam usufruir de experiências de parto positivas.

É essencial humanizar a gravidez e o parto em Portugal. Sempre com suporte em prática clínica baseada em evidência. Nunca é demais lembrar Michel Odent, obstetra francês de referência: “Para mudar o mundo, é preciso primeiro mudar a forma de nascer”. Ao melhorar a experiência do parto, criamos condições para a construção de vivências pessoais, familiares e sociais mais felizes. E pessoas felizes claramente têm mais condições para fazer do planeta um lugar mais feliz.

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