Precisamos falar muito mais sobre racismo - Plataforma Media

Precisamos falar muito mais sobre racismo

Com mais de metade dos cerca de 35 mil funcionários pretos e pardos nos quadros, mas apenas 16% deles em cargos de liderança, a Magazine Luiza, ou Magalu, uma das maiores empresas retalhistas do Brasil, decidiu que o programa de trainee em 2021 será apenas dedicado a essas pessoas.

Anunciou-o e defendeu a posição.

“(…) queremos desenvolver talentos negros com nossas futuras lideranças e ajudar a ampliar a voz da negritude no processo de digitalização no Brasil.”

Não demorou nada para rebentar a polémica. Desde a sexta-feira passada (18 de Setembro) a publicação no Twitter onde foi feito o anúncio está transformada numa espécie de arena onde se digladiam opiniões. Há quem defenda e aplauda a medida e quem a condene e rotule de discriminatória. Há quem consiga discutir de forma civilizada e quem não o queira ou consiga, optando por vomitar apenas preconceito de forma geral e ignorância em particular. O (infeliz) normal nas redes sociais, portanto, onde temas pouco ou muito passíveis de extremar argumentos acabam tantas vezes transformados em autênticas guerras de palavras onde a ofensa é a arma mais utilizada.

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, os negros são a maioria da população do Brasil, mas são minoria entre os representantes políticos no sistema Legislativo, na magistratura e em posições de liderança no mercado de trabalho. São a maioria entre os desempregados ou subocupados, entre as vítimas de homicídio e entre a população carcerária.

No Brasil, dados de 2018, os negros ganham menos, quase metade, do que os brancos. Não chegam a ser 5% os negros que pertencem aos conselhos de administração das 500 empresas que mais faturam no país e também não chegam a 5% os negros entre os quadros executivos enquanto que menos de 7% ocupam cargos de gerência.

Se não tivesse tido outro mérito, e teve, a medida da empresa liderada por Luiza Helena Trajano já serviu para colocar muita gente a falar sobre racismo. E isso, como mostram os números, é fundamental. Numa entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, a presidente do conselho de administração, em muito poucas palavras explicou a necessidade que presidiu à implementação da medida.

“A senhora participou da formulação do trainee voltado apenas para negros?
Lógico. Fizeram parte da decisão o conselho, diretores e os funcionários negros. Há uns três ou quatro anos eu reservo três vagas a mais no nosso programa de trainee só para negros. Mas nunca conseguimos [preenchê-las]. Eles não se inscreviam. O processo seletivo não ia de acordo e a gente entendeu que as exigências excluíam negros.”

Entre os argumentos de quem se mostra contra o programa dirigido exclusivamente a negros destacou-se o famoso “racismo reverso”. Brancos a queixarem-se de sofrer racismo. Bastaria ler os números enunciados acima para se entender que a teoria tem pés de barro, mas ler o ótimo trabalho de Breiller Pires no El País esta segunda-feira (21 de Setembro) amplificará muito esse entendimento.

Até começar a viajar para o Brasil com frequência e passar algum tempo cá, até estender as conversas para questões sociais sempre encarei as quotas como algo que, por definição, na teoria, era discriminatório, logo desnecessário e contraproducente. Não foram precisos muitos meses para mudar radicalmente de opinião. Por vezes a subida é tão íngreme, a corda que puxa para trás é tão forte, a desigualdade tão presente que há mesmo que extremar. Sem reservar lugar para que a população negra chegue às universidades públicas muito poucos o conseguem alcançar. Não é falta de capacidade, é o sistema que está viciado, foi-se moldando para que a maioria dos brancos e ricos que puderam estudar em escolas privadas tirem as melhores notas e ocupem os lugares nas gratuitas universidades públicas e a maioria dos negros (o IBGE considera pretos e pardos como negros) tenham de recorrer ao crédito universitário para frequentar universidades privadas. Em 2018, pela primeira vez, os negros eram mais de metade dos estudantes universitários da rede pública no Brasil. As quotas ajudaram a isso.  

No outro dia falava com um amigo que é negro e ele explicava-me que muitas pequenas coisas ao longo da vida, a realidade à volta dele, que ele vivia e via, apontavam para um caminho de pouca ambição, de conformismo, de não se permitir sonhar muito alto. O racismo estrutural bem evidente. Hoje ele é advogado e faz planos muito concretos para se tornar empresário brevemente. Mas sabe, e sente, que muitos outros negros como ele pura e simplesmente nunca acreditaram ser possível chegar sequer a entrar na Universidade porque não conheciam ninguém que tivesse lá andado. Não tinham ninguém na família que tivesse estudado tanto, que não tivesse que agarrar o mundo do trabalho precocemente. Falamos sobre a importância de as crianças negras verem jornalistas negros na televisão, atores negros, super-heróis negros em filmes, políticos negros, professores negros, modelos negros. De verem negros ocuparem exatamente os mesmos lugares que os brancos. Isso é determinante para eles se verem de outra forma, para acreditarem que também eles, amanhã, podem estar ali, serem eles.

Tudo o que incentivar isso deve, a meu ver, ser bem visto. Que as pessoas pretas são discriminadas não é uma opinião, é um facto. E eu sempre ouvi dizer que “contra factos não há argumentos.”

Parabéns Magazine Luiza.

*Jornalista

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