Da voracidade à racionalidade - Plataforma Media

Da voracidade à racionalidade

No ano de 442 a.c., o filósofo ateniense Sófocles, escrevia numa das mais de 120 obras que deixou para a posteridade, “Antígona”, que nenhum ser era tão portentoso como o homem, pois que só ele tem a capacidade de exaurir “a sublime divina terra (…), detentor de recursos para tudo e [que], sem recursos, não se aventura no futuro”. Um retrato que é hoje tão ou mais atual como antes. Diferente são o grau e os impactos da voracidade com que ao longo dos séculos o ser humano vem fazendo uso dos recursos naturais, sabidos como sendo finitos, mas ainda assim sendo devorados como se fossem inesgotáveis. É mudar este paradigma que se assume, consequentemente, como o maior desafio do nosso século, das nossas vidas e das vidas das gerações vindouras.

Se é verdade que a crise sanitária, que nos assola desde meados do final de 2019, veio pôr em causa muito daquilo que temos tido por adquirido – crise esta de origem sanitária mas como consequência, precisamente, desta relação de desequilíbrio no modo de gestão dos recursos do planeta -, não resulta ainda como certo de que desta mesma crise venha a resultar uma mudança paradigmática. 

Uma oportunidade ímpar para que pudéssemos, global e localmente, operar uma verdadeira alteração no nosso modus vivendi

A presente crise, agudizada pela Covid-19, pode(ria) constituir uma oportunidade ímpar para que pudéssemos, global e localmente, operar uma verdadeira alteração no nosso modus vivendi – e não apenas ao nível da saúde e da segurança das populações, porquanto estamos claramente perante um sinal de alerta que soa em diversos sentidos. Desde logo, resultam evidentes a premência de mitigação das desigualdades sociais, de reforçar o Estado social, alterar a natureza do trabalho e operar uma viragem da voracidade para racionalidade dos nossos padrões de consumo de recursos naturais. Todavia, os sinais de mudança, pelo menos à data, não são muito animadores.

Com efeito, não nos faltam documentos lavrados plenos de boas intenções, com recurso a ‘chavões’ como sustentabilidade, economia circular, uso eficiente dos recursos, entre outros, quando, na prática o que vimos aplicando está longe do que vem sendo pregado. Recentemente, a pedido do Governo, foi apresentada uma visão estratégica para o plano de recuperação económica do país, que poderá estar a braços com uma das piores crises desde 1929 e cuja recuperação se antecipa difícil e lenta. Em simultâneo, a comunidade científica vai dando nota de que, em matéria de alterações climáticas, nos precipitamos a uma velocidade avassaladora daquele que poderá ser o derradeiro ponto de não retorno, como já vários pontos de não retorno (tipping points) foram já ultrapassados. E Portugal, um país à beira-mar plantado, é tido como um dos mais vulneráveis.

Ora, conhecidas as vulnerabilidades, antecipadas as fragilidades, poderemos dar-nos ao luxo de continuar por este caminho de delapidação? Terão os governantes, as empresas e os cidadãos em geral a coragem e, mais do que a clarividência, a mundividência para travar a esta rota? Será pelo menos de esperar que todos, enquanto cidadãos globalmente informados, robusteçamos os nossos índices de participação na res publica. Sendo verdade que após cada ciclo de financiamento comunitário a narrativa tem sido a de que “não mais poderemos vir a dispor das mesmas verbas”, de tal forma que parece ter caído na banalidade, não deixa, porém, de fazer sentido sublinhar que os recursos (incluindo os financeiros) são efetivamente cada vez mais escassos, que a eficácia e a eficiência também devem ser (cada vez mais) exigidas por cada um de nós a quem gera os fundos em nome do país, que o escrutínio, a transparência, o rigor e a coerência devem ser igualmente exigidos por quem decide em nosso nome.

São bem-vindas as visões estratégicas que assentam nos princípios de um desenvolvimento sustentável, contudo, desengane-se quem considera que pode continuar ser adiada sine die a passagem à praxis. No que respeita ao futuro do país (e do planeta), as expectativas são as mais altas e as soluções, não nos iludamos, já pecam por tardias. 

*Líder do Grupo Parlamentar do partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) – Portugal

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