Salvar os Laboratórios dos Museus Portugueses – uma missão impossível? - Plataforma Media

Salvar os Laboratórios dos Museus Portugueses – uma missão impossível?

Por várias vias, tem vindo a público a situação preocupante em que se encontram os laboratórios das mais diversas áreas de restauro e que existem em praticamente todos os museus nacionais e regionais espalhados por todo o país.

A situação nunca foi a ideal, nomeadamente no que diz respeito a verbas, aos espaços adequados e aos recursos humanos. Ao longo do tempo, os poucos técnicos de laboratório de restauro que resistem passaram por cinco restruturações administrativas e da carreira, formaram técnicos mais jovens que se cansaram da precariedade eterna e, no momento atual, estão prestes a aposentar‑se.

Numa incursão rápida e não exaustiva por vários museus e espaços museológicos e respetivos laboratórios de Portugal, é possível constatar, pelo menos, três dificuldades comuns.

Salvar os Laboratórios é uma urgência e não é uma missão impossível. Pelo contrário, investir na Cultura, em particular nos Laboratórios e Museus é sinónimo de investimento no Futuro

A primeira dificuldade é a falta de verbas que permita comissariar exposições, mostrar tecnicamente os acervos de forma condigna e procedendo aos específicos tratamentos; ao processo exaustivo de Inventariação em Base de Dados; e ao armazenamento conforme as Normas do ICOMOS – Portugal.

A segunda relaciona-se com a suborçamentação que não permite garantir a preservação do edificado, quase sempre centenário ou milenar, que requer intervenções constantes de modo a evitar a degradação irremediável.

A terceira dificuldade é a falta de recursos humanos de toda a ordem. E aqui é mesmo necessário adjetivar – a falta de pessoas é grave, aliás, gravíssima Por exemplo, a falta de assistentes operacionais compromete a abertura dos museus e dos espaços, das visitas guiadas, do serviço educativo, das lojas, ao fim de semana e em horários alargados. Para suprir esta lacuna, grave, repetimos e ainda mais grave quando se trata de museus nacionais, são os técnicos especializados dos laboratórios que se disponibilizam a fazê-lo. Ora, se os técnicos são poucos e se os que existem estão a fazer as funções dos assistentes operacionais, o trabalho de restauro fica para segundo plano. É mais outro problema.

Estes técnicos especializados estão zangados, saturados e cansados e não é difícil compreender as razões. Acumularam saberes únicos e raros ao longo de décadas de experiência e que não se aprendem em licenciaturas de três anos. Estão prestes a retirar-se para as suas mais do que merecidas reformas, sem terem passado o conhecimento que adquiriram e aprimoraram aos mais jovens, que, saltitando entre contrato de prestação de serviços ou a termo certo, quando existem, desistem da insegurança laboral permanente. É desanimador visitar estes laboratórios e observar os espaços de trabalho praticamente vazios ou até mesmo já sem ninguém ou as peças infinitamente à espera de restauro e de serem colocadas à fruição do público. É, pois, urgente olhar para esta problemática e procurar as soluções que permitam a efetiva partilha de Conhecimento

A crise pandémica tornou visíveis estas fragilidades e teme-se que seja negligenciado, por falta de imaginação dos decisores políticos, o papel relevante que os museus e os laboratórios podem ter na recuperação económica nos diferentes territórios do país, sobretudo naqueles mais distantes dos grandes centros. Pelo contrário, receia-se, mais uma vez, que estas instituições sejam tratadas de modo displicente, na senda de má memória e errada de que a Cultura, no caso concreto, o trabalho desenvolvido pelos Museus e pelos seus Laboratórios seja considerado secundário, supérfluo ou dispensável.

A promoção do papel dos Museus Nacionais e Regionais e dos seus Laboratórios no território é um investimento no Conhecimento alargado a todas as gerações e não uma despesa. Estas instituições contribuem para a coesão territorial, para a fixação de populações, para o dinamismo e atratividade das terras do interior e cumprem o preceito constitucional do direito à Cultura. Exige, é certo, que as dotações financeiras e que os recursos humanos sejam de uma dimensão que permitam preservar a memória e a identidade de cada território, sendo que, ao contrário do que superficialmente se supõe, a venda de bilhetes e o aluguer de espaços permite a folga financeira necessária, no quadro da autonomia dos museus. Salvar os Laboratórios é uma urgência e não é uma missão impossível. Pelo contrário, investir na Cultura, em particular nos Laboratórios e Museus é sinónimo de investimento no Futuro.

*Deputada do Bloco de Esquerda (BE) – Portugal

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