Início » Salvar os Laboratórios dos Museus Portugueses – uma missão impossível?

Salvar os Laboratórios dos Museus Portugueses – uma missão impossível?

Alexandra VieiraAlexandra Vieira*

Por várias vias, tem vindo a público a situação preocupante em que se encontram os laboratórios das mais diversas áreas de restauro e que existem em praticamente todos os museus nacionais e regionais espalhados por todo o país.

A situação nunca foi a ideal, nomeadamente no que diz respeito a verbas, aos espaços adequados e aos recursos humanos. Ao longo do tempo, os poucos técnicos de laboratório de restauro que resistem passaram por cinco restruturações administrativas e da carreira, formaram técnicos mais jovens que se cansaram da precariedade eterna e, no momento atual, estão prestes a aposentar‑se.

Numa incursão rápida e não exaustiva por vários museus e espaços museológicos e respetivos laboratórios de Portugal, é possível constatar, pelo menos, três dificuldades comuns.

Salvar os Laboratórios é uma urgência e não é uma missão impossível. Pelo contrário, investir na Cultura, em particular nos Laboratórios e Museus é sinónimo de investimento no Futuro

A primeira dificuldade é a falta de verbas que permita comissariar exposições, mostrar tecnicamente os acervos de forma condigna e procedendo aos específicos tratamentos; ao processo exaustivo de Inventariação em Base de Dados; e ao armazenamento conforme as Normas do ICOMOS – Portugal.

A segunda relaciona-se com a suborçamentação que não permite garantir a preservação do edificado, quase sempre centenário ou milenar, que requer intervenções constantes de modo a evitar a degradação irremediável.

A terceira dificuldade é a falta de recursos humanos de toda a ordem. E aqui é mesmo necessário adjetivar – a falta de pessoas é grave, aliás, gravíssima Por exemplo, a falta de assistentes operacionais compromete a abertura dos museus e dos espaços, das visitas guiadas, do serviço educativo, das lojas, ao fim de semana e em horários alargados. Para suprir esta lacuna, grave, repetimos e ainda mais grave quando se trata de museus nacionais, são os técnicos especializados dos laboratórios que se disponibilizam a fazê-lo. Ora, se os técnicos são poucos e se os que existem estão a fazer as funções dos assistentes operacionais, o trabalho de restauro fica para segundo plano. É mais outro problema.

Estes técnicos especializados estão zangados, saturados e cansados e não é difícil compreender as razões. Acumularam saberes únicos e raros ao longo de décadas de experiência e que não se aprendem em licenciaturas de três anos. Estão prestes a retirar-se para as suas mais do que merecidas reformas, sem terem passado o conhecimento que adquiriram e aprimoraram aos mais jovens, que, saltitando entre contrato de prestação de serviços ou a termo certo, quando existem, desistem da insegurança laboral permanente. É desanimador visitar estes laboratórios e observar os espaços de trabalho praticamente vazios ou até mesmo já sem ninguém ou as peças infinitamente à espera de restauro e de serem colocadas à fruição do público. É, pois, urgente olhar para esta problemática e procurar as soluções que permitam a efetiva partilha de Conhecimento

A crise pandémica tornou visíveis estas fragilidades e teme-se que seja negligenciado, por falta de imaginação dos decisores políticos, o papel relevante que os museus e os laboratórios podem ter na recuperação económica nos diferentes territórios do país, sobretudo naqueles mais distantes dos grandes centros. Pelo contrário, receia-se, mais uma vez, que estas instituições sejam tratadas de modo displicente, na senda de má memória e errada de que a Cultura, no caso concreto, o trabalho desenvolvido pelos Museus e pelos seus Laboratórios seja considerado secundário, supérfluo ou dispensável.

A promoção do papel dos Museus Nacionais e Regionais e dos seus Laboratórios no território é um investimento no Conhecimento alargado a todas as gerações e não uma despesa. Estas instituições contribuem para a coesão territorial, para a fixação de populações, para o dinamismo e atratividade das terras do interior e cumprem o preceito constitucional do direito à Cultura. Exige, é certo, que as dotações financeiras e que os recursos humanos sejam de uma dimensão que permitam preservar a memória e a identidade de cada território, sendo que, ao contrário do que superficialmente se supõe, a venda de bilhetes e o aluguer de espaços permite a folga financeira necessária, no quadro da autonomia dos museus. Salvar os Laboratórios é uma urgência e não é uma missão impossível. Pelo contrário, investir na Cultura, em particular nos Laboratórios e Museus é sinónimo de investimento no Futuro.

*Deputada do Bloco de Esquerda (BE) – Portugal

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website