Diáspora pede estabilidade para regressar ao país - Plataforma Media

Diáspora pede estabilidade para regressar ao país

Na sequência da instabilidade política que tem marcado a Guiné-Bissau desde fevereiro, após as eleições presidenciais, os guineenses na diáspora, cansados de esperar, saíram as ruas, a pedir sossego para o país, para onde pretendem regressar.

Apesar das preferências políticas, muitos são os que têm participado nos muitos protestos que têm decorrido em Lisboa e já se estenderam à sede da União Europeia, em Bruxelas.

Exigem o fim da instabilidade política, o desenvolvimento e o direito de regressar à pátria para contribuir.

“A diáspora, a comunidade guineense, está de facto a dar voz aos que estão a ser silenciados em Bissau devido à opressão que tem havido, coação, sequestros políticos e ataques contra os cidadãos comuns”, afirmou Mariano Quade, um dos organizadores do último protesto em Lisboa.

As organizações da sociedade civil em Bissau têm denunciado perseguições e um aumento das violações dos direitos humanos, nomeadamente pelas forças de segurança, devido ao estado de emergência decretado na sequência da pandemia do novo coronavírus, mas também pelas disputas políticas.

As eleições presidenciais foram contestadas pelo candidato Domingos Simões Pereira, líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que interpôs um recurso de contencioso eleitoral no Supremo Tribunal de Justiça.

Até hoje, o Supremo Tribunal de Justiça não tomou uma decisão. Enquanto isso, o candidato dado como vencedor pela Comissão Nacional de Eleições, Umaro Sissoco Embaló, tomou unilateralmente posse como Presidente do país, demitiu o Governo saído das legislativas de 2019, ganhas pelo PAIGC, e nomeou um outro, chefiado por Nuno Nabiam.

Tanto Umaro Sissoco Embaló, como o novo Governo, acabaram por ser reconhecidos pela comunidade internacional, principalmente pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que tem mediado a crise no país, apesar das acusações de parcialidade.

“O povo nunca saiu à rua, mas chegou o momento de o povo mostrar indignação”, afirmou César Barbosa, um dos que entrou nos protestos na diáspora a exigir estabilidade.

 “Foi lá que o meu umbigo foi enterrado”

 O PAIGC venceu as eleições legislativas e presidenciais na diáspora, mas mais do que a política, o regresso à terra é o que desejam a maior parte dos guineenses que emigraram à procura de melhores condições de vida impossíveis de encontrar no país devido à instabilidade constante.

“Lá é que o meu umbigo foi enterrado e é justo, depois da emigração, no final, regressar para ali envelhecer. E esse futuro está a ser constantemente adiado devido aos golpes de Estado”, lamentou César Barbosa. 

Já há vários anos em Portugal, César Barbosa criticou os militares, que fizeram a luta pela independência, por estarem “a entalar” a Guiné-Bissau a “troco de dinheiro”.

“O povo tinha orgulho das nossas forças armadas, mas neste preciso momento não”, desabafou, afirmando que a Guiné-Bissau é um “país maravilha” e que os guineenses vão ser sempre um povo humilde e unido, apesar das tentativas de divisão.

Na Suíça, Fátima Jassi só pensa no país.

“Quero paz para o meu país. É preciso estarmos juntos, sermos guineenses e vivermos como guineenses. Eu vim da Suíça para dizer não a certas coisas que se estão a passar no meu país”, afirmou, na última manifestação feita em Lisboa.

Menos otimista está Rosa Gomes, a viver fora da Guiné-Bissau há 26 anos.

“É lamentável não poder dizer claramente que tenho esperança de um dia voltar à Guiné antes de morrer. Eu gostaria que os meus netos conhecessem as minhas origens e confirmassem a história que sempre lhes conto. Infelizmente não sei se vou chegar a voltar, nem se algum dia posso levá-los para sentirem um pouco de ‘guineendade’ [ser guineense]”, desabafou.

Com um pessimismo de quem já renovou a esperança por muitas vezes, Rosa Gomes, que trabalha em Portugal no setor da saúde, assinalou que gosta de conversar sobre o país e dar força às pessoas, mas sabe que a situação na Guiné-Bissau “não vai mudar tão cedo”.

“Até eles não querem voltar”, disse, referindo-se à família. “Os filhos da Guiné-Bissau que estão na diáspora têm esperança, mas os que estão lá marimbam-se. Estão bem e sentem-se bem com aquilo, com a sujeira, com a nulidade e com a ignorância. O que eles querem é dinheiro, comem hoje, amanhã acaba, o que querem é fazer intriga e isso não é vida e não é o futuro”, assegurou.

Segundo o relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, referente ao ano de 2019, em Portugal vivem 18.886 guineenses.

Mas a esses é preciso juntar todos os que já têm nacionalidade portuguesa e já não têm documentos de identificação do país de origem.

Em 2019, foram estudar para Portugal cerca de 1.500 guineenses no âmbito da nova política das autoridades portuguesas, que facilita a entrada no país a estudantes. Este ano, muitos outros irão.

Suíça, Inglaterra, Espanha, França e até Estados Unidos são outros países com grandes comunidades de guineenses.

Sair da Guiné-Bissau para estudar ou trabalhar parece ser a única “luz ao fundo do túnel” para fugir à pobreza, à falta de educação, de saúde e de emprego que imperam no país.

Com cerca de dois milhões de habitantes, entre os quais muitas pessoas oriundas do Senegal e da Guiné-Conacri, a Guiné-Bissau é considerado um dos países mais pobres do mundo, mas apesar de tudo continua a ser a terra de milhares de guineenses, que esperam pela estabilidade para voltar e ajudar a reconstruir o país. 

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