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Pataca deve manter-se estável no futuro próximo

O economista Albano Martins acredita que uma depreciação da pataca de Macau, moeda indexada ao dólar de Hong Kong, não deverá acontecer num horizonte próximo, apesar da crescente tensão entre os Estados Unidos e a China.

Há quem tenha manifestado esse receio ultimamente, depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciar o cancelamento do tratamento privilegiado (sobretudo nas taxas aduaneiras) concedido pelo país a Hong Kong em 1992, numa resposta à aprovação por Pequim da lei de segurança interna para a região administrativa especial.

Mas, para Albano Martins esse aumento de tensão não deverá refletir-se, para já, sobre a moeda de Hong Kong, a qual está indexada ao dólar norte-americano (USD) desde 17 de outubro de 1983.

Por isso, para o especialista há duas formas de os cidadãos de Macau lidarem com a questão do valor da moeda, lembrando que “a taxa de câmbio é o preço da moeda”.

“Há dois tipos de operadores. O expatriado e o cidadão local. Para o primeiro, por exemplo um cidadão português, se o valor cambial da pataca descer isso quer dizer que, com a mesma quantidade de moeda de Macau, vai comprar menos euros. E o inverso também é verdade. Já o cidadão local, numa primeira fase (antes de o preço dos bens importados subir devido à depreciação da moeda) vai continuar a gastar as mesmas patacas no dia-a-dia e essas perdas não se refletem no imediato”, diz.

Como a pataca está indexada ao dólar de Hong Kong e este está ligado ao USD, o expatriado deve também estar atento às flutuações da moeda dos Estados Unidos. Ou seja, a pataca, por força dessa indexação indireta, também flutua em função das oscilações.

Albano Martins sugere que os expatriados de países do euro que têm planos de regresso devem acautelar-se e o ideal é terem contas repartidas por duas moedas, em partes iguais. 50 por cento em moeda local [patacas], 50 por cento em euros. Esta é a melhor forma de assegurar as poupanças. Se o euro sobe, a pataca desce, e o resultado final é equilibrado. E vice-versa. Portanto a poupança mantém-se. Assinala ainda, no exemplo do expatriado português, que este também deve dar atenção ao USD. “Se a expetativa é vê-lo subir, então tem-se menos euros e mais patacas, porque com mais patacas compram-se mais euros”, diz.

Albano Martins considera, todavia, que não é previsível uma depreciação a prazo da pataca, uma vez que Hong Kong tem grandes reservas de moeda e a autoridade monetária da região tem capacidade para continuar a assegurar uma ligação estável ao dólar local, face ao dólar norte-americano.

Esta indexação do dólar de Hong Kong, recorda, foi determinada nos anos 80 quando se começou a falar do regresso da então colónia inglesa à soberania da República Popular da China.

“O dólar de Hong Kong caiu a pique por essa altura. Eu estava em Macau na altura e assisti a esse filme todo. A única hipótese para o governo daquela região foi fazer uma indexação com o USD. E o valor da moeda de Hong Kong estabilizou (tal como o da pataca que já estava indexada à moeda vizinha). Foi a forma de evitar que essas perturbações de natureza política pudessem afetar a vida dos negócios, sobretudo os investidores”, lembra.

Albano Martins recorda que “a indexação surgiu para dar estabilidade na relação económica, aos investidores. Ou seja, quem investe sabe que ao colocar dólares em Hong Kong, quando os retirar vai fazê-lo mais ou menos dentro do mesmo valor cambial. Há uma banda de flutuação. Quando a moeda está a caminhar para uma banda mais fraca ou mais forte, o governo de Hong Kong tem de defender a taxa de câmbio. Vende ou compra dólares para tirar pressão sobre a moeda local”. 

“Uma ligação entre as duas economias pressupõe haver uma relação nessa área mais ou menos estável. Hoje em dia a economia de Hong Kong já não está tão ligada à norte-americana. Mas a questão não é só a economia física em si, é também a parte monetária, os bancos, o sistema financeiro”, assinala.

Aliás, como lembra também o especialista em assuntos cambiais Bruce Yam, da Everbright Sun Hung Kai, em declarações ao jornal de Hong Kong South China Morning Post (SCMP) “os EUA podem proibir o HKMA (autoridade monetária local) ou outros credores de negociar USD, mas os traders acreditam que isso não acontecerá, e é por isso que a taxa de câmbio permanece estável”.

E dá um exemplo. “Os EUA proibiram as empresas financeiras de negociar com o Irão. Mas Hong Kong não é o Irão. Se Trump chegar ao extremo de proibir Hong Kong de receber USD – a opção nuclear – destruirá os mercados financeiros globais ”, prevê Yam. “Isso pode desencadear uma queda no mercado global e comprometer a reeleição de Trump. É por isso que ninguém acredita que ele correrá esse risco”.

Voltando a Albano Martins, o economista explica que “há alturas em que o peg [indexação em relação a outra moeda] cria tensões na economia” quando, por exemplo as economias (americana e local) se encontram em ciclos opostos. “Tivemos períodos em que os EUA estavam em expansão e por isso subiam as taxas de juro e por cá [Macau] estava-se em recessão, mas como as taxas de juro tinham de sofrer o mesmo movimento (essa é a regra do peg) também subiam, quando deviam descer para incentivar a economia”, diz. 

“Penso que ainda não chegou o tempo de Hong Kong querer sair dessa ligação ao USD. O passado demonstrou que é uma ligação que é saudável no aspeto em que estabiliza a flutuação da moeda, uma variável que afeta o mercado e que cria instabilidade”, defende. 

O especialista lembra que “essa foi a fórmula encontrada pelo Governo de Hong Kong para estabilizar o valor da moeda e dar segurança aos investidores. A partir daí, as autoridades locais, com o poder das enormes reservas monetárias de que dispõem começaram a ´segurar´ o valor da moeda local, estabilizando essas oscilações em intervalos aceitáveis. Comprando ou vendendo a moeda local para manter o câmbio o mais estável possível”.

Esta é também a opinião expressa ao SCMP por Wilson Chan Fung-cheung, ex-comerciante que testemunhou o nascimento do peg e é agora diretor associado da City. Universidade de Hong Kong. “O governo local, ou qualquer outro, pode determinar qual a moeda a indexar, assim como corrigir e fixar a respetiva taxa de câmbio. Por isso, enquanto o Governo de Hong Kong tiver capacidade e reservas suficientes para defender a taxa de câmbio, vai manter o sistema a funcionar”.

Albano Martins entende também que “a economia chinesa ainda não tem o poder internacional para ser alternativa nos pagamentos internacionais”. 

“Neste momento, manter o dólar de Hong Kong ligado a uma moeda que tende a ser estável (USD) é o mais saudável. Ligar ao yuan, não me parece. É uma moeda que não tem conversão internacional, que não circula livremente”, assinala.

Acentua que “a China bem tenta que nas relações com os países africanos o yuan seja usado no comércio. Mas a moeda chinesa é manipulada oficialmente pelo estado e as moedas [utilizadas nos pagamentos internacionais] não são normalmente manipuladas pelo estado. São-no pelos mercados. Há procura de USD, este sobe, não havendo muita procura, tende a estabilizar. É assim que funciona”.

E conclui: ”Por isso, não me parece que esse passo [a indexação do dólar de Hong Kong ao yuan] seja possível agora. Embora no futuro me pareça que vai ser uma grande batalha para a China poder manipular isto tudo. A China é o maior credor privado dos EUA. Eles têm lá USD. Se esta moeda cair, eles também não vão gostar muito da brincadeira”.

Recorde-se que tanto o Secretário das Finanças de Hong Kong, Paul Chan Mo-po, como a HKMA (um verdadeiro banco central) esgrimiram recentemente um forte argumento para reforçar a confiança no dólar local, lembrando que há aquilo a que alguns chamam “reserva de guerra” – o Fundo de Câmbio – o qual dispunha de 528 mil milhões de USD no final de abril.

Talvez por isso Chan tenha dito, citado pelo SCMP, que o Governo não viu necessidade de rever o sistema monetário.

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