Audiência papal aos líderes independentistas foi manobra de grande sucesso - Plataforma Media

Audiência papal aos líderes independentistas foi manobra de grande sucesso

O historiador Rui Lopes classificou hoje a audiência do Papa Paulo VI aos líderes independentistas africanos como “uma das manobras com maior sucesso” na campanha de difusão da mensagem dos movimentos de libertação das antigas colónias portuguesas

Os líderes independentistas africanos Agostinho Neto (Angola), Amílcar Cabral (Guiné-Bissau e Cabo Verde) e Marcelino dos Santos (Moçambique) foram recebidos pelo Papa Paulo VI no final da Conferência Internacional de Solidariedade com os Povos das Colónias Portuguesas, em 01 de julho de 1970.

A conferência e a audiência, sobre as quais hoje passam 50 anos, foram consideradas determinantes para o reconhecimento do direito à autodeterminação dos povos das então colónias portuguesas e decisivas na luta pela independência.

“Foi um episódio marcante. Foi uma iniciativa dos movimentos de libertação, não foi o Papa nem o Vaticano que os convidaram. Foram estes movimentos que perceberam que tinham ali uma oportunidade de divulgar a sua mensagem, de porventura dividir o inimigo e deslegitimá-lo do ponto de vista público e, nesse sentido, esta foi uma das manobras com maior sucesso de uma campanha de grande alcance para difundir a causa dos movimentos de libertação a nível internacional”, disse.

Rui Lopes apontou que o episódio foi marcante do ponto de vista da “guerra de propaganda” dos dois lados do conflito, mas hesitando em considerar que representou um ponto de viragem no percurso da luta de libertação.

“Havia em vários círculos internacionais críticas ao colonialismo português às quais o Vaticano acabou por ser de alguma forma associado através deste momento, mas Portugal e o Estado Novo nunca estiveram de facto isolados do ponto de vista internacional”, salientou.

Rui Lopes assinalou que Portugal se manteve como membro das principais organizações internacionais (ONU, NATO, EFTA, FMI, Banco Mundial), assinou acordos com a Comunidade Económica Europeia, manteve-se como um destino turístico importante dentro da Europa, e continuou a combater nas guerras coloniais com armamento, aviação e equipamento obtido na Alemanha e na França.

O historiador considerou como particularmente revelador o facto de, ao longo do Estado Novo, terem sido feitos mais de uma centena de filmes e episódios de televisão de ficção estrangeiros cuja história se passava em Portugal ou nas colónias portuguesas sem “uma única menção à guerra colonial”.

Para Rui Lopes é, por isso, importante encarar a audiência como mais um episódio de uma guerra que estava a ser travada, mas “não como o último prego no caixão do colonialismo português”.

O historiador recordou que o Estado Novo era uma ditadura “com uma forte matriz católica”, que se sentiu “naturalmente interpelada pelo facto do Papa, ainda que indiretamente, ter legitimando estes três movimentos de libertação”.

Apesar de ter havido um incidente, não houve um corte de relações diplomáticas, apontou Rui Lopes, sustentando que a posição do Vaticano “continuou a ser relativamente ambígua”, favorável a um entendimento de paz e nunca completamente solidária com os movimentos armados.

O investigador assinalou, por outro lado, a importância simbólica da audiência junto da comunidade católica.

“Do ponto de vista simbólico, teve um impacto muito grande sobretudo dentro da comunidade católica onde haveria pessoas que, porventura, tinham simpatia para com os objetivos dos movimentos de libertação e que puderam assim ver validada moralmente essa posição pela figura suprema da sua igreja”, frisou.

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