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Fantasias pós-pandemia

Miguel VeríssimoMiguel Veríssimo

Alguns dias de “prisão domiciliária” chegaram para libertar o frenesi visionário e reivindicativo dos cidadãos das «Petites  Versailles» industrializadas; confundindo um episódio pelo todo que na surdina vai tomando forma.Deseja-se intensamente na realidade virtual, um rápido desconfinamento da história em pausa, para que a fantasia da normalidade urbana continue a mascarar uma genuína vontade de mudar…


Fantasia 1 – O fim do Capitalismo. 

Tornou-se viral o crescimento da riqueza dos magnatas digitais, do “UBERdesenvolvimento”, ou do “Fast Growth”, apelando-se nas redes à revolução anti-capitalista; enquanto entre o conforto do “tele-trabalho”, um snack embalado em plástico trazido a casa, ou um gadget qualquer encomendado numa plataforma de Silicon Valley, nos foram ajudando a esquecer que somos nós o “vírus consumidor” que alimenta o afunilamento dessa verdadeira “revolução digital” com os nossos milhões de “desejos tácteis” por segundo.

Só quando CIDADÃO estiver isento de qualquer xenofobia geográfica, cultural, ou política, e significar verdadeiramente o acesso global e universal aos direitos humanos e aos rendimentos da Natureza


Fantasia 2- Tudo vai mudar nas cidades e a Natureza vai florescer.

As cidades do “distanciamento biológico” do Antropoceno serão mais “green”, higiénicas, com casas maiores e confortavelmente smart, existirão divertidas hortas pelas ruas, ao lado de recreios para os animais que contam. Grandes investimentos circulares e eléctricos prometem  poupar-nos os pulmões da poluição, empurrando a fatura mascarada: – do lixo, da produção de energia poluente ou não, da agricultura rápida e intensiva; para o “quintal dos outros”; para “fora de portas”; para onde terminam os círculos eleitorais que elegem os políticos patrocinados pela grande finança que nos sustenta. Essa atraente doçura urbana, faz migrar para o “Norte das cidades”, os indígenas mais válidos que protegeram com antigas simbioses os ecossistemas, deixando agora o território à mercê dos abutres de recursos, que o vão transformando no eixo económico central da Revolução Industrial renovada.A “natureza selvagem”, deu ar de graça na pausa das chaminés e dos esgotos das fábricas paradas. Mas, é um berço a arder, já sem chance de nos acolher como ainda esperamos…

Fantasia 3 – O Rendimento Universal (Ocidental)

Em tempo de transição de modelo, em que os recursos são ainda finitos; DIREITO é aparentemente, com a complacência da esquerda e direita do Ocidente, um exclusivo para os cidadãos do mundo cujo voto conta! Compra-se a paz social, passando os custos do “crescimento e emprego”, que vão sustentando os antigos modelos ideológicos, para a crescente exploração dos povos mais pobres, que sofrem na pele a impossibilidade de terem sequer direito a um salário, quanto mais à miragem dum “rendimento universal” dos países mais ricos! 
Em tempo de chamada à realidade: – Só quando CIDADÃO estiver isento de qualquer xenofobia geográfica, cultural, ou política, e significar verdadeiramente o acesso global e universal aos direitos humanos e aos rendimentos da Natureza, ao desenvolvimento e qualidade de vida que só ecossistemas funcionais e uma exploração sustentável dos recursos naturais podem proporcionar, é que nos conseguiremos reconciliar com o “Nosso Futuro Comum”(1), não deixando ninguém verdadeiramente para trás…

Nota 1: “O Nosso Futuro Comum”_ Brundtland Report, 1987

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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