Início » Combater a pobreza infantil como desígnio dos Direitos Humanos

Combater a pobreza infantil como desígnio dos Direitos Humanos

Alexandra Vieira*

Reconhecer o bem‑estar infantil como um Direito Humano é considerar a criança como um indivíduo e isso influencia as respostas políticas. Do mesmo modo, reconhecer a pobreza infantil como uma negação dos direitos coloca o “ónus nos cuidadores que têm a responsabilidade e o poder de respeitar, proteger e cumprir os direitos das crianças. Isto transforma as obrigações morais em obrigações legais” [1], implicando, desde logo, o Estado como cuidador, que tem o dever de as assegurar, e a comunidade e a família que têm de assumir as suas responsabilidades.

Todo o ser humano com menos de 18 anos é, desde a Convenção dos Direitos da Criança, um sujeito ativo e não apenas um mero recetor passivo da proteção dos adultos. As crianças devem receber das instituições respostas aos seus direitos e também têm deveres. Entender a criança como um todo integral obriga a pensar as políticas para a infância segundo uma abordagem multissetorial e integrada, dado que envolve o bem‑estar material, relacional, comportamental, de risco, a saúde, a educação, a realização dos direitos, a concretização da oportunidade de ser aquilo que quer ser e de participação cívica.

A pobreza infantil pode ser definida como um estado de privação em diversas áreas. Como referem os autores, é um fenómeno multidimensional, que envolve aspetos materiais e não materiais, que tem perfis distintos e pode ser medida em termos absolutos, que, por sua vez, podem ir para além do rendimento da família.

A pobreza não afeta as crianças e os adultos da mesma forma [2], desde logo pelos efeitos a longo prazo. As crianças que crescem em situação de pobreza têm maior insucesso escolar, tendência para o abandono escolar, para a exclusão social, dificuldades na integração no mercado de trabalho e em encontrar o seu lugar na sociedade.

Na última década, os números da pobreza infantil, só tendo como referência a Europa e Portugal, são arrasadores. Os anos de austeridade colocaram muitos portugueses com parcos ou nenhuns apoios estatais e na total dependência de ajudas voluntárias e solidárias. Os vários estudos internacionais [3] demonstram, que a vulnerabilidade incidiu sobretudo sobre as famílias com mais filhos e que foi ainda mais grave nas famílias monoparentais, compostas na sua grande maioria por mães com filhos. A situação atingiu o nível da calamidade precisamente porque não houve uma pronta resposta pública estruturada que permitisse o combate à pobreza infantil e a todas as vulnerabilidades associadas: carência alimentar, ansiedade, maior exposição à doença, carências habitacionais, insucesso escolar, risco elevado de abandono escolar e, previsivelmente, o regresso do trabalho infantil informal.

Desde a mudança politica de 2015, foram implementadas medidas de recuperação de rendimentos e das prestações sociais, que permitiram uma diminuição dos índices de pobreza infantil. O Bloco de Esquerda teve um papel fundamental neste processo.

Trinta anos depois da Convenção dos Direitos de Criança, devido aos efeitos sociais e económicos da pandemia, é urgente a adoção de medidas que minimizem todos os riscos de pobreza infantil e de abandono escolar

Porém, a crise económica e social causada pelo surto pandémico da COVID-19, terá como consequência a interrupção desta dinâmica, se não forem adotadas medidas de emergência no combate à pobreza infantil. Por isso, é prioritário avançar, desde já, com um conjunto de ações de proteção social dirigidas à infância. 

Se, na crise anterior, as medidas de austeridade acentuaram as situações de pobreza extrema, sobretudo a infantil, na situação de crise atual, a resposta a esta linha da frente de emergência tem sido dada por alguns municípios, dos quais se destacam Lisboa, cujo pelouro de Ação Social lidera e articula a resposta social.

Noutros, porém, a resposta é escassa, inexistente e assenta na iniciativa do setor social, o qual, por muito virtuoso que seja, nem sempre dá conta de todas as necessidades, quer por incapacidade estrutural, quer por opção de princípio. A resposta de proximidade está longe de ser generalizada a todo o país e assumiu um caráter pontual e não sistemático. As razões prendem-se com a desarticulação entre as estruturas que já existem no terreno. 

Passado o ponto mais crítico da pandemia, é chegado o momento de pensar a resposta de proximidade, que pode incluir as associações e os voluntários que já estão no terreno, mas tem de ser necessariamente mais estruturada e consistente e isso só poderá ser providenciado no âmbito da ação pública, porque as dificuldades económicas das crianças e das famílias irão prolongar-se no tempo e a crise não tem um fim à vista.

O objetivo do plano de emergência de combate à pobreza infantil apresentado pelo Bloco de Esquerda no dia 1 de junho, Dia Internacional da Criança, defende que a resposta tem de ser essencialmente pública, estruturada, prolongada no tempo, articulando diferentes valências do Estado, tais como as escolas e agrupamentos escolares, que dispõem de cantinas escolares e meios de deteção das necessidades; a capacidade de mobilidade, articulação e coordenação que as Câmaras Municipais têm de ter; e as diligências que à Segurança Social cumpre fazer, nomeadamente que nenhuma criança seja excluída do acesso à creche, sobretudo por parte da famílias com acentuada quebra de rendimento, pelo aumento do valor do abono de família e sua a convergência entre o valor do RSI e o da pensão social, que reforce a proteção social prevista para as crianças e jovens com deficiência ou incapacidade, no âmbito da Prestação Social para a Inclusão. Todas as três instâncias podem e devem articular com o setor social, as equipas de voluntários ou outro tipo de respostas que já estejam a operar no terreno.

Como refere Manuel Sarmento, num artigo recentemente publicado, há experiência e conhecimento científico suficientes de modo a que a crise pandémica e a crise social e económica que se lhe segue não traga uma nova calamidade à vida de centenas de milhares de crianças. Combater a pobreza infantil é “uma medida  da harmonia e coesão social”.

Trinta anos depois da Convenção dos Direitos de Criança, devido aos efeitos sociais e económicos da pandemia, é urgente a adoção de medidas que minimizem todos os riscos de pobreza infantil e de abandono escolar e de modo a tornar as crianças e os jovens numa prioridade e que é, também, uma questão de Direitos Humanos.

[1] Cf Sarmento, Manuel (2011), “Pobreza Infantil – Realidades, desafios e propostas”, p. 26

[2] Idem, ibidem, p. 28

[3] Cf Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (EU-SILC) e Children of the Recession. The impact of the economic crisis on child well-being in rich countries, entre outros

*Deputada do Bloco de Esquerda à Assembleia da República Portuguesa, eleita pelo círculo de Braga

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website