Ainda os negros dos rádios de pilhas - Plataforma Media

Ainda os negros dos rádios de pilhas

Eu moro naquilo a que agora se pode chamar de “sítio do silêncio”. Os pais têm os filhos trancados em casa e neste tempo ainda se aproveita os dias de calor com o ar condicionado ligado. Não há risos de crianças oferecidos ao vento, nem choros suspendidos no ar para comover os adultos.

Vão meses desde que ouvi o primeiro início de uma discussão entre vizinhos, foi um “não me chateies, arranja alguma coisa para fazer e não me faças falar”. De repente, afinal havia vida na vizinhança, uma mulher mostrou-a com a sua voz perfeita e audível a meio quilómetro. Mas foi tudo. Demasiado nada para Luanda.

A vida tem de ter banda sonora. Luanda é som, é a origem de toda a música de todos os Black Lives Matter

Há dois dias ouvi gritos, acerquei-me da janela, por volta do meio-dia, era um estranho que passava, a vida vinha de longe, guarnecida por uns auscultadores psicadélicos. Uma espécie de bandolete verde, fluorescente, colava nas orelhas de um jovem de calças de ganga agarradas abaixo das nádegas dois auriculares cor-de-vinho. Ele julgava estar a cantar alguma coisa que lhe era transmitida ao cérebro por um cabo que escapava do bolso da calça. A cadência dos seus passos desenhava uma dança descoreografada, mas solta, livre. Feliz. Era como um remake da imagem do “Negro do Rádio de Pilhas” cantada por Rui Veloso. A música continua a descer a avenida em que não chove e brilha o sol. E pode até chover, podem inventar outros rádios, haverá sempre corpos africanos que são só por si música…

Ontem foi diferente. A empregada da vizinha fez-se som. Cantou com pulmões à prova de toda a sorte de Coronavírus louvores da igreja, passou pelo choradinho  brasileiro e ia pelo alucinante Kuduro quando um vizinho (afinal existe. E talvez tivesse agora encontrado o que fazer) gritou um “cante mais baixo, estamos num condomínio”. Ela não o ouviu, certamente escondida do mundo nuns auscultadores que lhe ofereciam um território muito privado.

Eu me vi ao colo da minha mãe acalentado por uma canção de embalar, vi a felicidade imperturbável do jovem dos auscultadores psicadélicos, colhi do ar os risos e choros das crianças antes da pandemia, deixados à espera no jardim ao lado. A vida tem de ter banda sonora. Luanda é som, é a origem de toda a música de todos os Black Lives Matter, de toda a música que afinal era a pílula da vida de milhões de escravos antes da invenção do rádio de pilhas. Irrompi, não haveria barragens de etiquetas que me parassem: “ainda bem que ela canta, despertou um morto”, gritei.

*Diretor do Jornal O País

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