“Sempre tive a ambição de um restaurante fora de Portugal” - Plataforma Media

“Sempre tive a ambição de um restaurante fora de Portugal”

Situado no coração de Macau, um restaurante de família gerido por Fernando, Maria e o filho Nélson, luta para manter as tradições da gastronomia portuguesa, num lugar onde tudo parece mudar ao segundo. 

O Mariazinha não tem um nome escolhido ao acaso, tem um conceito fundamental de família. “Tínhamos um nome alternativo mas, por várias razões e aventuras por Macau, percebemos que não podíamos utilizar esse nome. Por isso, disse à minha mãe que era destino e que o restaurante tinha de chamar-se Mariazinha. Era o nome que os irmãos lhe chamavam desde miúda e ela detestava. O nome da minha mãe é Maria Isabel”, esclarece Nélson. 

Nenhum deles tinha ligação a esta terra mas, em Portugal, Nélson conheceu alguém, com quem entretanto casou, e que plantou uma semente que mais tarde germinou. “Foi na mesma altura em que conheci a minha mulher, que era natural de cá. Os pais dela tinham-se mudado para cá na década de 90. Eram professores”, diz. 

Parecia algo impossível de concretizar, mas as conversas intensificaram-se e a vontade de conhecer a região também. “Começámos a falar de Macau e o entusiasmo foi crescendo. Os pais dela também me atiçavam a ideia. Falava com os meus pais e dizia que era uma boa ideia e uma excelente oportunidade. Em termos de cultura fazia todo o sentido porque é afincadamente portuguesa e a nossa gastronomia é muito apreciada, não só pelos portugueses”. 

“Sempre tive a ambição de fazer um restaurante português fora de Portugal, mas nunca pensei que fosse em Macau”, confessa Nélson. 

No entanto, numa fase inicial, o pai não estava muito entusiasmado com a ideia… E Fernando Rocha confirma ao comentar como reagiu então à proposta do filho: “Não lhe liguei nenhuma”. Nélson acrescenta: “Ao fim de três anos a chamar-me de maluco e que nunca na vida iria, convenci-o a vir a Macau e felizmente ele gostou”. 

Nessa visita o pai de Nélson começou a achar que uma possível mudança de ares fazia sentido. “Quando cheguei cá fiz o meu estudo e achei que não seria difícil trabalhar aqui. Pelo menos para mim que sempre trabalhei na restauração”, adianta. 

Como todas as histórias bonitas, teve alguns momentos conturbados, que fazem com que tudo seja mais apreciado no fim. “No início, tinham-nos dito que as obras estariam completas entre três a seis meses, mas já sabíamos que ia levar mais. Pensámos que na melhor das hipóteses eram seis meses e na pior seriam nove, mas acabaram por levar praticamente o dobro”, recorda. 

O restaurante Mariazinha tem cinco anos. A abertura foi em 2015 e, apesar do sucesso teve um início atribulado, que data desde 2013, quando asseguraram o espaço onde ainda hoje funciona. “Saiu-nos bastante ao lado. Foi graças à família que conseguimos aguentar durante tanto tempo. “Macau tem um custo de vida muito elevado, nomeadamente o valor da renda. Mas fomos teimosos e conseguimos levar a nossa avante. Com a ajuda da família fomos empurrando e chegámos lá”, assinala Nélson. 

Um dos grandes problemas que a maioria dos restaurantes tradicionais aqui em Macau tem, surge na adaptação dos pratos à comunidade. Mas para o Mariazinha, a ementa continua praticamente igual à que tinham em Portugal, exceto pequenas alterações. “O menu, desde início que é praticamente o mesmo. Vínhamos com uma ideia do que queríamos trazer, que eram as especialidades que o meu pai e a minha mãe já faziam em Portugal, assegura Nélson. Mas, ao chegar aqui, começaram também a estar atentos ao palato de quem por cá passava e adicionaram algumas coisas. 

“Também tivemos a oportunidade de perceber o que é que os turistas procuravam mais porque, também há que satisfazer esse cliente. Para colmatar essa ausência, adicionámos alguns pratos que estão enraizados na nossa cultura e introduzimo-los para os turistas, comunidade macaense e portuguesa. Um exemplo disso foi o “leitão”, que passou a ser um prato novo na ementa. 

A equipa que está à frente do Mariazinha manteve sempre a preocupação de apostar na qualidade da comida com a marca portuguesa, mesmo estando tão distante da origem. Segundo Nélson, “o mais importante para manter a qualidade está na escolha dos ingredientes. Estamos a dois meses de distância [por mar] dos produtos de Portugal e, quando falha alguma coisa, é preciso ter cuidado com a substituição”. 

Até hoje, o feedback dos clientes tem sido bastante positivo. A família afirma que tem sido “muito gratificante”. 

“Em Macau as pessoas fazem questão de dizer se gostaram realmente ou não. Muita gente vem ter connosco e diz-nos que o prato os fez lembrar o de casa. Temos situações de pessoas que estiveram de viagem pela Ásia e, para eles, aquela refeição fez toda a diferença. Para nós isso é espetacular. Faz com que tudo valha a pena e dá-nos vontade de continuar”, assegura. 

Mas o futuro deste projeto não acaba aqui, apenas começou, tal como diz Nélson: “Em Macau ainda há muito para fazer. Sempre quisemos diversificar, fazer outros projetos e temos a ideia de, ainda dentro da restauração, poder apostar numa padaria e num restaurante com um conceito diferente. Felizmente é uma região muito recetiva a ideias diferentes. Quando a conjuntura atual (coronavírus) melhorar, pensaremos nisso”. 

GUILHERME REGO 09.04.2020

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