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Escritores à porta fechada

O escritor chileno Luís Sepúlveda foi diagnosticado com o novo coronavírus dias depois de ter estado no festival literário Correntes d’Escritas, em Portugal. Soou o alarme. 

O Correntes d’Escritas é o maior evento literário português e foram às centenas os que se deslocaram à Póvoa de Varzim entre 15 e 23 de fevereiro para contactar com escritores e livreiros, à procura daquele livro, daquela conversa ou daquele autógrafo.

O PLATAFORMA conversou com alguns dos autores presentes no evento que, de forma voluntária, e com as instruções do serviço Saúde 24, se mantiveram em isolamento por 14 dias.

“Quando se soube do Sepúlveda já havia passado uma semana desde que voltara da Póvoa do Varzim, pelo que a ‘quarentena’ teve de estender-se à família”, explicou a escritora Raquel Ochoa que assumiu que a estada em casa até “calhou bem”. 

“No meu caso, até é engraçado, porque calhou nos quinze dias em que combinei com a editora terminar o próximo livro para lançamento na feira do livro. A Maria Rosário Pedreira [responsável editorial no grupo Leya], ficou também em isolamento com o marido. Estivemos todos no Correntes. Andávamos há tempos para terminar o livro e já lhe disse: é desta que acabamos a revisão. Felizmente era uma altura calma e estamos a usar o tempo da melhor maneira a trabalhar em casa.”

A autora telefonou logo para o Saúde 24 assim que soube do caso do escritor chileno. “Expliquei que não tinha sintomas mas queria receber orientação do que fazer no caso de aparecerem. Instruíram-me de que deveria ficar em casa, em isolamento social, até completar as duas semanas (…) Tenho estado em contacto com quem lá esteve e estão todos bem.”

“Há muitas formas de enfermidade, a paranóia é uma delas”

José Luís Peixoto optou por não prestar declarações individuais à comunicação social por considerar que “não o devia fazer por não ter nada de relevante a acrescentar”. “Penso que a análise excessiva, especulativa e a cobertura de temas supérfluos é prejudicial e irresponsável. Há muitas formas de enfermidade. A paranoia é uma delas”.

Nas redes sociais, o escritor disse que não saiu de casa assim que teve conhecimento do estado de saúde de Luís Sepúlveda. “Aproveitei para ler e escrever. Foi um tempo bastante tranquilo e produtivo. Deixei o Correntes d’Escritas logo após a minha participação, a 20 de fevereiro. Estive sempre de boa saúde.”

De forma voluntária, João Tordo também esteve fechado em casa. O filho do músico Fernando Tordo nunca registou qualquer sintoma relacionado com o Covid-19. “Estou de quarentena porque, indiretamente exposto a uma pessoa que estava infetada, o Luís Sepúlveda. Mas estou 100 por cento saudável”, disse ao PLATAFORMA.

“Tenho escrito e lido muito, mais do que o habitual nesta época do ano. Tinha uma viagem a Espanha e um lançamento. Foi tudo cancelado. E ainda cancelei um encontro. Portanto, três eventos públicos cancelados. A boa notícia é que fui ‘devolvido’ ao meu local de trabalho numa  época do ano em que costumo ter dificuldade em escrever por causa dos compromissos”, disse.

Com calma, a deixar passar o tempo

“A linha Saúde 24 aconselhou-me, com alguma veemência, a ficar em casa”, começou por dizer Luís Carmelo. Na verdade, o autor já tinha estado na Póvoa do Varzim na semana anterior. “Desenvolvi bastante trabalho ao nível de coordenação de formação de professores, de Sessões Ícone e de lançamentos de livros, quer da editora da EC.ON-Escola de Escritas, quer do meu último romance, através da editora Abysm. Apesar da azáfama, nunca senti qualquer sintoma”, explicou Carmelo ao PLATAFORMA.

O autor e professor adiantou que, “como medida de precaução”, esteve “praticamente, sempre em casa”, situação que se prolongou até ao passado fim-de-semana, cancelando todas as atividades públicas, “incluindo na universidade”.

Para a moçambicana Hirondina Joshua a situação revelou-se um pouco diferente, uma vez que está em Portugal à espera de voltar ao país. “Estou em casa e não saio. Não sinto nada de anormal, pelo contrário ando bem-disposta”, revelou ao PLATAFORMA. “Tenho estado a ler e ansiosa para regressar a Maputo”, disse antes do final da quarentena, no passado fim-de-semana.

Afonso Cruz também se mostrou tranquilo. A trabalhar de casa, como habitualmente, o autor revelou não ter feito qualquer esforço especial. “Não há nada nesta quarentena autoimposta que altere as minhas rotinas”, assegurou ao PLATAFORMA. 

Uma cerveja para matar o tédio

Já Rui Zink manifestou boa disposição. “Estou a beber uma cerveja”, foi a primeira coisa que respondeu à pergunta sobre como estava a viver o isolamento voluntário. “Não fiz quarentena, mas tive precauções com os outros. Creio que foi falso alarme”, atirou.

De quarentena voluntária no Mindelo, também esteve o autor cabo-verdiano Germano Almeida depois de “matar saudades” do amigo Luís Sepúlveda, em Portugal. À Agência Lusa, o escritor garantiu estar “ótimo” e até a pensar escrever sobre o Covid-19. 

“Para já estou em casa, a trabalhar no terceiro volume do meu último trabalho. Mas é natural que venha a escrever sobre esse tema do coronavírus e da minha passagem pelo hospital”, afirmou o Prémio Camões de 2018. 

 

Gonçalo Lobo Pinheiro 13.03.20

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