A afirmação é do presidente da Liga dos Chineses em Portugal, Y Ping Chow ao defender que *a parte dessas notícias, “que na maioria dos casos vêm dos EUA” e às “fake news”, é preciso falar sobre o coronavírus e alertar as pessoas.
A conversa com o PLATAFORMA fluiu através do WeChat. Y Ping Chow, presidente da Liga dos Chineses em Portugal acedeu falar sobre um momento em que a atualidade é marcada pelo novo coronavírus Covid-19. “Para já está tudo bem”, assegurou quando lhe foi perguntado como está a comunidade chinesa em Portugal.
“Não posso afirmar que a comunidade está preparada para o que possa acontecer em Portugal, mas certamente que estamos a fazer um bom trabalho de prevenção e quem vem da China fica sempre em isolamento voluntário”, explicou Y Ping Chow, confiante de que se algum compatriota adoecer no país “os serviços de saúde portugueses farão o melhor dos trabalhos”.
No geral, Y Ping Chow disse acreditar que o Governo português “está preparado” para combater a epidemia. Todavia admitiu que, “no pior dos cenários”, se acontecer em Portugal o que aconteceu em Wuhan, “talvez as autoridades nacionais não tenham a capacidade que a China teve para combater o problema”.
Acima de tudo é preciso que as pessoas estejam conscientes de que existe um vírus que causa uma doença que pode ser mortal, desabafou o líder da comunidade chinesa em Portugal, entendendo, contudo, que não há motivos para alarmes excessivos.
“Penso que o coronavírus tem uma propagação rápida e forte, se compararmos com outros vírus, mas, muito sinceramente, considero que a mortalidade não é tão superior e não devemos estar tão alarmados, como quando comparamos com a gripe, por exemplo”, disse.
Tanto a Liga dos Chineses em Portugal, como a Embaixada da China, têm estado a recomendar aos membros da comunidade para que não viajem para a China nesta fase. “Aconselhamos os nossos associados a não realizarem convívios ou festas em restaurantes ou outros recintos fechados com muita gente”, relembrou Y Ping Chow que entende ser ainda cedo para um uso de máscaras por parte dos conterrâneos.
Para o dirigente associativo, que chegou a Portugal em 1962 com sete anos, o principal é saber distinguir o trigo do joio. “Penso que é preciso falarmos do coronavírus e alertar as pessoas. Contudo, considero que pelo meio há muitas notícias com conotação política que prejudicam a China, e vêm muitas vezes da parte dos EUA”, acusou.
A comunidade chinesa, que em Portugal ronda os 35 mil indivíduos, movimentou-se num gesto de solidariedade no início do surto na China para ajudar os compatriotas, enviando para o continente donativos e produtos médicos de proteção, como máscaras, luvas de borracha e fatos. A grande maioria dos donativos e máscaras, explicou Y Ping Chow, foi enviada para Hubei, epicentro do surto do novo coronavírus. Contudo, e porque os chineses radicados em Portugal são originários de diferentes províncias “foi preciso enviar ajuda para outras partes do país”.
Todos por um
“Basicamente, enviámos as ajudas através de entidades oficiais como a Cruz Vermelha, hospitais ou ainda associações na China com ligações aos imigrantes em Portugal”, afirmou o líder da comunidade chinesa.
Y Ping Chow também aplaudiu a recente lei chinesa que proibiu, “de uma vez por todas”, o comércio e consumo de animais selvagens, um culto já muito secular e enraizado na cultura chinesa, em particular, e na asiática, em geral. “O Governo Central implementou esta proibição e considero que é uma boa decisão, mas não sei dizer porque é que isso não aconteceu antes.”
Originário da província de Zhejiang, próximo de Xangai, Y Ping Chow adiantou que, apesar da província ter muitos casos de cidadãos infetados, não tinha conhecimento de que algum familiar ou amigo tenha contraído Covid-19.
“Não faz sentido dizer a doença dos chineses”
No início até rábulas na rádio portuguesa trataram de destratar os chineses. Os humoristas “gozaram com os chineses” e pior que tudo “gozaram com os mortos”. Depois foram os programas de variedades na televisão a afirmar que “o vírus só afeta chineses”. No entanto, “pedidos de desculpa foram feitos e nós aceitámos, porque também não faz parte da nossa maneira de ser andar a criar problemas”, assumiu Y Ping Chow que se mostrou incomodado e desgostoso com o assunto.
Também ocorreram alguns casos pontuais de discriminação, principalmente quando a epidemia se restringia à China. “Tivemos alguns casos de crianças nas escolas que se sentiram afastadas e os restaurantes chineses também tiveram uma quebra no negócio, mas penso que, se não há chineses infetados em Portugal, não faz sentido dizerem que a doença é dos chineses”, concluiu o líder da comunidade chinesa em terras lusas.
Gonçalo Lobo Pinheiro 13.03.20