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O impacto económico do surto de coronavírus

Já passou um mês desde que foi declarado o estado de emergência em Wuhan, e parece que o único tópico de conversa atualmente na China é como combater este vírus. Vê-se pouca gente na rua, no metro, nos centros comerciais, no comboio, e toda a economia chinesa parece estar congelada. É uma situação que muitos de nós nunca experienciamos. Que impacto terá o vírus na economia, e quais as diferenças com o caso do Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, na sigla inglesa) em 2003?

Em primeiro lugar, o epicentro não é o mesmo. Embora o SARS também se tenha alastrado por todo o país, as principais áreas afetadas foram Guangdong e Pequim, sendo a primeira o centro da indústria de exportação chinesa, e a segunda o centro da economia nacional. Por isso os impactos económicos são claramente diferentes. Wuhan, em Hubei, embora seja um centro urbano da zona económica do rio Yangtzé e um centro importante na rede de transportes nacionais, tem um peso económico na cadeia industrial relativamente pequeno em comparação com o que Pequim e Guangdong tinham em 2003.

Em segundo lugar, a influência na indústria é diferente. Em 2003, a principal força impulsionadora da economia chinesa era o investimento estrangeiro. Hoje, a própria economia do país é cada vez mais uma grande força de desenvolvimento. Do ponto de vista industrial, Wuhan tem algumas vantagens a nível medicinal, automóvel e electrónico, e a epidemia pode gerar um impacto a curto prazo na capacidade de produção das indústrias, o que posteriormente, poderá afetar outras áreas da cadeia industrial, especialmente relacionadas com medicamentos e tecnologias. Ainda assim, as consequências deverão ser sobretudo ao nível da volatilidade de preço, não em termos de capacidade de produção, como no caso japonês, em que um terramoto parou toda a indústria global de electrónica.

Em terceiro lugar, o momento do impacto das duas epidemias difere. O SARS teve início em dezembro de 2002, passando toda época de Ano Novo chinês sem medidas de controlo. Apenas em abril de 2003 aconteceu o surto, que em junho começou a ser enfrentado, e que em julho foi efetivamente controlado. Desta vez, durante a época de Ano Novo já tinham sido implementadas medidas de controlo, mais de 30 províncias começaram a controlar o fluxo de pessoas, o que teve um impacto positivo, e indica que este surto poderá durar menos tempo que o de 2003.

Em quarto lugar, o estado de emergência não é igual. No caso do SARS foi a primeira vez que foi experienciado um vírus com uma taxa alta de mortalidade e com um risco de infeção altos. E foi por isso que foi possível fechar cidades tão rapidamente numa fase inicial do surto de coronavírus e controlar a propagação. Foram lições aprendidas com a experiência da epidemia anterior, e que demostraram as vantagens do sistema de administração nacional chinês em casos de emergência.

Em quinto lugar, a situação económica também não é a mesma. No primeiro trimestre de 2003 o PIB chinês cresceu em 11 por cento, e no segundo desceu para os nove por cento. Porém, no primeiro trimestre do ano seguinte, voltou a subir de novo para os 11 por cento. O SARS, em geral, não afetou a economia chinesa, o impacto nesse ano foi de apenas -2 por cento por trimestre, ou seja, 0,5 por cento no ano inteiro. Há 17 anos o PIB chinês rondava os 12 biliões de RMB, e o impacto andou entre os 50 mil milhões e os 100 mil milhões. Todavia, o PIB da China em 2020 é de 100 biliões de RMB, a capacidade económica de suportar este impacto é completamente diferente. Não é de admirar que muitos economistas acreditem que a repercussão deste surto na economia chinesa seja reduzida, com a exceção, claro, de as pequenas e médias empresas.

David Chan 28.02.2020

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