Existe há dez anos, mas ganhou protagonismo depois de ter publicado um artigo que dava conta da divisão de mentalidade entre alunos locais e do Continente sobre liberdade académica. O PLATAFORMA foi conhecer o Orange Post, um projeto de jornalismo da Universidade de Macau (UM) que junta cerca de 20 estudantes. A clivagem que cresce entre alunos, sobretudo após o início dos protestos em Hong Kong, dominou a conversa mas falou-se de outros temas. Valorizam o espaço de liberdade que têm e que, salientam, a instituição lhes garante. Assumem que sofrem pressão sim, mas recusam-se a falar de censura, apesar de consentirem que fazem alguma auto-censura. Dos seis com quem falámos, cinco são de Macau e um do Continente. Veio para cá porque não teve notas para entrar em Hong Kong e não queria continuar a estudar no Continente. Prefere não revelar a identidade e os motivos mas mostra-se incomodado com o facto da Universidade estar a ficar cada vez mais “vermelha”.
“Pepe”, como prefere ser chamado, é um dos 20 membros do Orange Post, um projeto de jornalismo da Universidade de Macau (UM) com versões online e impressa. Veio para Macau no ano passado para estudar. Preferia ter ido para Hong Kong mas a nota no exame final de acesso ao ensino superior impediu-o. O Continente não era sequer uma hipótese. “Não gosto”, afirma. Porquê?, perguntámos. Depois de um silêncio moroso, preferiu não responder. A vivência em Macau, ainda que curta, já o mudou. “Posso aceder a tudo na internet o que quer dizer que posso ter acesso a opiniões diferentes das do Governo”, exemplifica.
O aluno – que se juntou à equipa este ano “porque quer contar a verdade” – foi um dos que assinou a história sobre o professor Ieong Meng U (Ver caixa), que catapultou a publicação depois de citada pela imprensa local em língua portuguesa e inglesa. O artigo teve impacto fora e dentro da universidade. “Pode dizer-se que de certa forma sou amarelo. Sabe o que significa? Antes de fazer a história, já achava que a nossa universidade era vermelha. Mas depois, dei-me conta que há muito mais gente vermelha na universidade e que a tornaram ainda mais vermelha”, afirma, hesitante, medindo cada palavra, e recorrendo à terminologia que se convencionou com os protestos em Hong Kong contra o Governo local e central. Os amarelos são os pró-manifestantes; os azuis os apoiantes da polícia e das autoridades; sendo o vermelho a cor para rotular quem é pró-Pequim.
Janis Chan, que co-assinou o artigo, acrescenta: “Percebemos que a universidade está dividida entre os alunos do Continente, que não têm uma mentalidade muito aberta, e os locais, com opiniões políticas mais diversas”.
A aluna, também a estudar Comunicação, refere que a notícia lhes permitiu comprovar que há liberdade no campus para discutir assuntos políticos, mas ressalva: “Há cada vez mais seguranças na universidade, e sentimos que Macau, como a universidade, é cada vez mais controlada por Pequim”.
Candy Cheang, sentada ao lado de Janis, realça que sempre houve dois grupos no campus, e descriminação ou preconceito de ambos os lados. “Foi por isso que entrevistámos vários alunos. Depois da notícia, esse fosso ficou ainda mais visível, e os alunos locais ficaram ainda mais com a impressão que os do Continente têm uma mentalidade fechada.” Abel U sublinha: “Sempre sentimos que esse fosso existiu, mas desde Hong Kong que sentimos que há uma enorme diferença de opinião entre os estudantes locais e os do Continente. Há sempre debates nos comentários das nossas histórias e acabam sempre por se agredir. Não é o que o Orange quer ver ou fomentar, mas é o que está a acontecer. A situação está realmente a deteriorar-se”. Candy Cheang também lamenta: “Na próxima edição, queríamos abordar um tema cujos protagonistas são alunos do Continente. Recusaram-se a dar–nos entrevistas e não pudemos avançar. Sentimos que foi porque publicamos sobre Hong Kong”. Pepe não reage. Quando questionado como se sente sobre a forma como as colegas descrevem os alunos do Continente, responde: “Sinto que nesta fase as pessoas não querem saber a verdade. Só querem saber a opinião e a posição que tens, tanto os amarelos, como os azuis ou os vermelhos. Não querem saber o que aconteceu, apenas de que lado estás, quem apoias. Não querem perceber o que realmente se está a passar”, repete.
Duas faces da mesma geração
A propósito de contextos, Candy salienta que os jovens de Macau têm muita sorte. “Em Hong Kong, estão sobre grande pressão. Em Macau, temos muitas oportunidades e não temos de nos esforçar tanto”, acrescenta a aluna de Comunicação que assume que ganhou consciência política com os protestos em Hong Kong.
A colega Janis não confirma a regra. Para continuar a estudar teve de pedir um empréstimo ao Governo e que a vai obrigar a trabalhar no território nos próximos dez anos. Apesar de não ter tido a vida facilitada, reforça as diferenças: “Vemos a pressão que estão a sofrer dos pais e da escolas”, refere.
Se o movimento contra o Governo acabará por ter repercussões em Macau, Abel nega. “Macau já tem o artigo 23 na Lei Básica [artigo de segurança nacional]. A reação aos protestos mostra que a população se opõe. A única repercussão que Hong Kong teve em Macau foi o reforço do patriotismo da população. Aqui, as pessoas só querem uma cidade estável, crescimento económico”, comenta a aluna. “Diria mesmo que não se importam de abdicar de alguns direitos – como o de manifestação – em troca de estabilidade económica e social, e mais dinheiro”, acrescenta a também diretora do Orange Post, que decidiu seguir jornalismo depois do Movimento dos Guarda-Chuvas, em 2014.
O pessimismo faz com que pense em Hong Kong como destino para trabalhar depois de concluir o curso. “Em Hong Kong as pessoas lutam pelo que merecem e por isso sinto que há mais espaço para mim”, explica. “Não vamos precisar de esperar até 2049 para que seja mais uma cidade do Continente. A maioria da população abraçou a glória da China. As populações de Macau e de Hong Kong têm mentalidades completamente diferentes. Em Hong Kong preocupam-se com direitos e liberdades. Em Macau, só se quer ter uma vida e sociedade estáveis. Acham que o desenvolvimento da China é muito bom e querem que aqui seja assim também”, e finaliza: “Sinto-me muito desiludida”.
Um sentimento partilhado por Candy, para quem a passagem por Macau dos alunos do Continente tem poucos efeitos. “Aqui podem ter acesso a muito mais meios, e continuam a usar o Weibo e consultar os meios de comunicação oficiais. Não interagem com os locais. Não procuram ouvir ou explicar-nos o que pensam. Também sinto que olham para os alunos de cá com uma certa de superioridade, e sempre que temos opiniões diferentes, rotulam-nos como sendo pró Hong Kong e chamam-nos cockroaches [baratas, em português, é o termo usado para designar de forma pejorativa os manifestantes em Hong Kong que andam vestidos de preto]”, argumenta.
Sob pressão
A equipa do Orange Post admite que o contexto e o consequente aumento de cobertura de temas políticos já teve efeitos. Na página do Facebook aumentam o número de seguidores, likes e os debates na caixa de comentários das publicações das histórias que vão fazendo, mas também a pressão da instituição.
Abel, que no início da entrevista e sem ser questionada já tinha dito que o Orange Post procura não fazer auto-censura, assume que a linha editorial que escolheram lhes tem devolvido constrangimentos. “Vamos falar de pressão em vez de censura. Há essa pressão por parte de alguns responsáveis mas também há outros que nos protegem, apoiam e fazem o possível para que mantenhamos a liberdade de imprensa”, refere.
A pressão deve-se ao facto de não quererem que publiquem as histórias ou porque têm receio do que vos possa acontecer por publicarem essas histórias?, questiona o jornal. “Os que nos protegem entendem que a liberdade de imprensa é muito importante e que devemos escrever sobre o que queremos. Os outros acham que podemos reportar todo o tipo de notícias, mas temem que algumas possam levar ao caos, conflito e tensão na universidade como aconteceu noutras entre estudantes locais e do Continente. E por isso dizem-nos que publiquemos de forma neutra, e que falemos com diferentes partes que tenham diferentes opiniões sobre o mesmo tema”, explica Abel. Reforçando que não teme consequências, frisa: “Encaro o que escrevo e faço-o como um exercício dos direitos que me assistem de liberdade de expressão e de imprensa. Até agora nunca sofri qualquer consequência”.
Sobre se há auto-censura, a conversa é outra. “Às vezes sim”, começa Emilia Chan. E exemplifica: “Na última edição, falámos sobre Tiananmen e não assinámos porque tivemos medo que se alguém da universidade ou do Continente lesse a história, tivéssemos problemas”.
Identidade
O projeto foi fundado em 2008, por um aluno que se chamava Orange, em inglês. Inicialmente a publicação era mensal, mas pela falta de recursos humanos passou a ser publicada de dois em dois meses. Agora sai a cada trimestre, ou seja, quatro vezes ao ano. Tem cerca de 20 membros, que rondam os 20 anos. Subsidiada pelo Governo e pela Universidade, a revista, explica a equipa do Orange Post, centra-se em reportagens e entrevistas, sendo que a versão online se foca mais na cobertura noticiosa da atualidade. A equipa reúne-se uma vez por mês pessoalmente numa sala da universidade, o resto debate por WeChat. Abel U diz que a versão online tem mais leitores uma vez que a maioria dos jovens usa o Facebook. “Algumas pessoas da universidade acham que devíamos acabar com a versão impressa como é paga e porque os alunos não leem. Mas nós achamos que tem valor, por isso vamos continuar a fazê-la”, realça a diretora. Até agora, dizem que a história com mais feedback foi a que dava conta de alunos arrendarem os quartos no campus através do Airbnb e a notícia sobre os quatro residentes impedidos de entrar em Hong Kong.
Contexto
Em outubro, um grupo de alunos naturais do interior da China ameaçou apresentar queixa à Universidade contra um professor que, segundo eles, tinha feito declarações inaceitáveis sobre a China continental. A situação veio a público através do Orange Post que fez notícia e reportagem sobre o tema. Os alunos defendiam que o docente tinha excedido os limites da liberdade académica. Ieong Meng U, professor assistente do Departamento de Governo e Administração Pública na Universidade de Macau, disse na altura não ter recebido qualquer comunicação por parte da instituição e deixou claro que nunca manifestou opiniões pessoais sobre Hong Kong, Macau ou a China continental durante as aulas. O académico sublinhou ainda que, durante as aulas, nenhum aluno mostrou qualquer desacordo ou desagrado face ao que se passa nas aulas.
Catarina Brites Soares 22.11.2019