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Boa vizinhança

Macau já se rendeu à moda das startups. Noutros tempos, seria talvez caso para dizer que “abrir uma startup é glorioso”. Porém, pelo menos para já, os resultados práticos são pouco visíveis.
Temos visto em Macau, e ainda bem que assim é, uma série de espaços novos, alguns com maior sofisticação e design, tipicamente associados à prestação de serviços relacionados com o turismo, como a restauração, cafés gourmet, lojas de sobremesas, enfim, espaços e propostas alternativas que dão um ar rejuvenescido à cidade e que suponho que em muitos casos tenham tido apoios do governo.
Julgo, no entanto, que devemos distinguir startups de outras formas de empreendedorismo. As startups a que aqui me refiro são empresas “jovens”, posicionadas na vanguarda, tipicamente através de uma componente de inovação determinante, especificamente em áreas com elevado pendor tecnológico, oferecendo algo novo, ou uma nova forma de fazer algo que já fazemos hoje, e com potencial para eventualmente se tornarem internacionais ou mesmo globais.
A criação do Centro de Incubação de Negócios para os Jovens de Macau gerido pela sociedade Parafuturo de Macau tem vindo a abrir caminho e o rumo parece ser o correto. Boas instalações, parcerias internacionais com empresas chinesas, como a Fosun e o gigante tecnológico Alibaba, competições internacionais, intercâmbios com outras organizações, nomeadamente em Portugal e no Brasil, para troca de conhecimentos, ideias e até para relocalização das próprias startups para Macau. O Centro de Inovação e Empreendedorismo para Jovens Empresários da China e dos Países de Língua Portuguesa (PLP), anunciado na 5ª Conferencia Ministerial por Li Keqiang, está aliás alojado naquele mesmo espaço, aproveitando eventuais sinergias.
A ideia é boa e Macau pode desempenhar também a este nível um papel diferenciador, facilitando o investimento entre a China e os PLP por um conjunto de razões já sobejamente escalpelizadas e sabidas.
Não obstante tudo isto, seria uma ilusão pensar que Macau é o lugar ideal para uma startup florescer e tornar-se global quando a uma hora de distância temos Shenzhen ou Hong Kong, cidades que formam fortíssimos clusters económicos no qual o seu sucesso se baseia.
Macau tem a sorte de estar geograficamente muito próxima destas duas cidades-chave no projeto da criação da Grande Baia, e tem o mérito de ter preservado um espaço geopolítico próprio que pode colocar ao serviço desse grande projeto que é a criação do silicone valley Chinês.
Esqueçam-se, porém, as imitações. Silicone valley só há um e, enquanto epítome de um cluster de inovação, é um produto de décadas de investimento na criação de redes formais e informais complexas e impossíveis de serem replicadas.
O que está em curso aqui na Grande Baía do Delta do Rio das Pérolas é a criação de algo diferente, mas igualmente de dimensão global e com a capacidade de transformar as vidas de milhões de pessoas nas próximas décadas.

Mas afinal, o que é que a Baía tem?

Tem capital de risco abundante? Tem! Tem indústria de ponta? Tem! Tem mercado com massa crítica? Tem! Tem laboratórios de Investigação e Desenvolvimento? Tem! Tem empresas multinacionais líderes? Tem! Tem universidades competitivas? Tem! Tem jovens sonhadores e empreendedores? Tem! E tem muitas outras coisas também, como angel investors, mercados de capitais desenvolvidos, governos com políticas de apoio à inovação, incentivos à fixação de talentos, legislação moderna, uma rede de infraestruturas atual, empresas de serviços especializadas, etc. É um verdadeiro ecossistema tecnológico de inovação à nossa porta.

Que boa vizinhança temos! Que pena não nos conhecermos melhor

Vejamos. Shenzhen, poderá servir de acelerador fornecendo algo crucial que, entre outros fatores, é uma das principais vantagens competitivas de Silicone Valley – venture capital. Hong Kong pode também desempenhar este papel. Além disso, ambas as cidades possuem fortes redes sociais de suporte, com estreitas ligações entre mundo académico e empresarial, essenciais para fornecer apoio à gestão destas empresas numa fase em que ainda são frágeis. É fundamental apoiar estas empresas ao nível da sua gestão, profissionalizando-a através destas redes onde emergem mentores, business angels, advogados, assessores, professores, consultores e venture capitalists, em suma, gente experimentada, capaz de trazer consigo capital, contactos e know how que conduzam estas empresas a fases de crescimento ulterior.
Mais, no interior da Grande Baia, há várias outras cidades a pouco mais de uma hora de distância que são lugares excelentes para produzir protótipos ou escalar a produção a custos ainda interessantes para ser vendida regionalmente, na própria mainland ou ser embarcada a partir de Guangzhou, Shenzhen ou Hong Kong para qualquer ponto do globo. Nas fases seguintes, para aquelas empresas que provaram, um IPO em Hong Kong ou Shenzhen é o passo natural e uma possível exit strategy para investidores.
É esta interdependência e complementaridade entre agentes económicos que forma uma rede propícia à inovação que está em constante aprofundamento e mudança.
Macau, neste contexto tem necessariamente de encontrar um papel complementar e distintivo. Embora possa não parecer à primeira vista, Macau tem a oportunidade histórica de contribuir com algo único e de valor inestimável para a especificidade deste cluster de inovação de características chinesas – ser por um lado um fornecedor de ideias e de pessoas, ou talentos, e por outro abrir novos mercados para as startups regionais.
Enquanto antena de captação de boas ideias e tecnologia dos PLP, principalmente de Portugal e Brasil, Macau poderá servir de primeiro ponto de apoio, canalizando posteriormente algumas dessas empresas para terrenos mais férteis, aqui ao lado, onde podem encontrar condições ótimas para crescer, colocando-se ao serviço do desenvolvimento da China, e do mundo em geral.
Macau pode gerar oportunidades, porventura vedadas a muitas startups que nos seus países de origem não encontram respostas adequadas, entre outras razões, por falta de capital de risco. Neste processo, haverá decerto uma série de efeitos de spillover positivos para Macau, começando por fazer crescer uma maior cultura de empreendedorismo, de tomada de risco e de abertura ao que vem de fora, além do dinamismo e diversificação que cria na própria economia local, através por exemplo de receitas adicionais para empresas prestadoras de serviços.
Este foi e é o desígnio de Macau – fomentar a ligação entre continentes, instituições, pessoas, ideias e capital. Afinal, nada de novo. O resto é História.

João Rato* 14.09.2018
* Gestor

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