“Macau tem de desenvolver talentos para a plataforma sino-lusófona” - Plataforma Media

“Macau tem de desenvolver talentos para a plataforma sino-lusófona”

A integração regional deve ser acolhida de braço abertos pelos jovens, sem receios de perda de identidade. Calvin Chui argumenta que neste processo os jovens locais devem apostar forte nas suas mais-valias, com destaque para a ligação de Macau ao mundo lusófono.

Na véspera da 5a Cimeira da Juventude Macau (Macau Youth Summit) – a ter lugar no domingo –, o líder da organização afirma que este evento pretende ser uma plataforma para os jovens locais debaterem assuntos económicos, políticos e sociais de Macau. Calvin Chui olha com optimismo o processo de integração na Grande Baía, desdramatizando os receios em torno da perda da identidade de Macau. Formado em Direito em Lisboa, Chui acredita que Macau tem condições para ser um elo forte de ligação entre as cidades do Delta do Rio das Pérolas e os Países de Língua Portuguesa. E o número crescente de jovens de Macau que estudam em Portugal será um ativo importante nesta estratégia.

– É a quinta edição da Cimeira da Juventude de Macau.
Como é que surgiu este projeto?
Calvin Chui – O início foi muito interessante. Tínhamos um grupo de estudantes de Macau a estudar essencialmente direito em Portugal e tínhamos um outro grupo de estudantes de Macau no Reino Unido. Nessa altura, juntámo-nos e pensámos: somos de Macau mas não sabemos muito sobre os assuntos de Macau. Sentimos que precisávamos de uma oportunidade para o fazer. Surgiu a ideia de organizarmos um fórum. Este foi o início da Cimeira da Juventude.
– Este ano o tema da Cimeira da Juventude é “Cidade Inteligente”. Porquê?
C.C. – Todos os anos escolhemos um assunto-chave. Anteriormente tivemos dois temas em cada ano: um económico, outro político. No ano passado, por exemplo, discutimos as eleições para a Assembleia Legislativa. Mas este ano, escolhemos um assunto que pudesse atrair a atenção de toda a comunidade de Macau. Por isso escolhemos “Smart City”. Por algumas razões. Cidade Inteligente não é apenas uma aplicação tecnológica, mas sinaliza o desejo da população em ter uma melhor qualidade de vida. Identificámos assim este ponto comum para ligar a juventude à política do Governo.
– Macau ainda não é uma “Cidade Inteligente”, certo?
C.C. – E também nenhuma outra cidade que tenha essa etiqueta. Quem sabe? Quem é a entidade qualificadora?
– Quão longe está Macau de ser uma “Cidade Inteligente”?
C.C. – Macau está no caminho correto, por isso o Governo tomou a iniciativa sobre este assunto e lançou a consulta pública. Durante o processo muitas pessoas têm expressado opiniões e o Governo certamente que não vai perder a oportunidade de responder às necessidades expressas.
– A cidade de Macau insere-se agora no projeto de integração regional da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau lançado pelo Governo central. É um grande desafio para Macau…
C.C. – Sim, com certeza, mas também significa muitas oportunidades. Este projeto é uma política nacional. Trata-se de uma grande oportunidade para todos, para as pessoas e empresas das nove cidades e das duas regiões administrativas especiais. Mas este desenvolvimento não vem sem desafios que requerem um esforço nacional, regional e interpessoal. Estou confiante nesta política nacional.
– Qual vai ser o papel da juventude neste processo?
C.C. – Como juventude, devemos aproveitar esta oportunidade porque a política implica uma integração mais profunda entre Macau, Hong Kong e as nove cidades da província de Guangdong. Acredito que os jovens serão uma força motriz em fazer com que esta iniciativa seja uma realidade. Os desafios tem de ser resolvidos pelas pessoas.
Por outro lado, esta política vai dar lugar a muitos desafios que nós podemos ultrapassar. Por exemplo na área jurídica, nesta zona temos três jurisdições que têm tradição jurídica diferente.
– Esse é um dos principais desafios. Há compatibilidade ou não entre estes três sistemas jurídicos? Como garantir a manutenção do sistema?
C.C. – Do ponto de vista estático, se nada mudar, cada parte mantém o seu sistema jurídico, o que deve acontecer é a criação de um canal de comunicação entre as três comunidades jurídicas para haver uma ligação dos pontos fortes de modo a ajudar os empresários desta zona. Porque é muito óbvio que estes três sistemas jurídicos permitem uma ligação ao exterior. Hong Kong aos sistemas da Common Law, e Macau a Portugal e aos Países de Língua Portuguesa, envolvendo regiões e países que fazem parte da iniciativa da Faixa da Rota.
– Um dos contributos principais de Macau é a ligação entre a Grande Baía e os Países de Língua portuguesa.
C.C. – Concordo. Está tudo em harmonia: o nosso mandato como plataforma entre a China e os Países de Língua Portuguesa, o projeto da Grande Baía e a iniciativa “Faixa e Rota”.
– E Macau tem condições para ser um centro de arbitragem comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa?
C.C. – Há passos nesse sentido. Há uma proposta de lei sobre serviços de arbitragem e mediação na Assembleia Legislativa. Estou confiante que o futuro vai ser positivo.
– Nos últimos anos, tem vindo aumentar o número de jovens locais, nomeadamente chineses, a estudar Direito em Portugal. Qual a importância deste desenvolvimento?
C.C. – É importante, uma vez que a legislação de Macau tem raiz portuguesa, por isso aprender Direito é como aprender a cultura jurídica. Daí que seja importante aprender Direito em Macau e ao mesmo tempo estudar Direito em Portugal beneficia-nos também por podermos praticar o português.
– Estudou e viveu em Portugal cinco anos. Tem boas memórias desse período?
C.C. – Já vivi em algumas cidades: Macau, Chicago, uma cidade na Califórnia e Lisboa. Entre estas quatro idades, além de Macau, Lisboa é a minha favorita.
– Porquê?
C.C. – Os portugueses são pessoas muito simpáticas e tenho boa amizade com os meus colegas. Nós estudámos juntos, convivemos. No início de setembro, vou lá para o casamento de um dos meus maiores amigos de Portugal.
– E em Portugal, o Calvin Chui fundou a Associação de Estudantes Luso-Macaense.
C.C. – A ideia foi simples. Quando comecei a estudar lá, tínhamos um grupo de estudantes de Macau. Naquela altura tínhamos uma boa relação com os nossos amigos portugueses. Do ponto de vista deles, éramos referidos naturalmente como chineses. Então tive uma ideia. Um grupo teve uma ideia: recriar Macau na Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa. Foi assim que começou e se foi expandindo.
– Como atrair as centenas de jovens que estudam no exterior de volta a Macau, para contribuírem para o desenvolvimento da região?
C.C .- Devemos ajudá-los a escolher uma especialidade que Macau necessita antes de irem estudar para o exterior. Assim podemos melhorar o encaixe destes jovens na economia e sociedade local, ajudando-os a tomar a melhor decisão, numa perspectiva de longo-prazo. Para uma decisão mais informada.
O objetivo é que os jovens tragam mais-valia à força laboral de Macau.
– Que novas políticas devem ser adoptadas para ajudar os jovens locais?
C.C. – Há várias medidas já colocadas em prática como por exemplo os empréstimos aos jovens empresários. Macau também tem um Fundo de Ciência e Tecnologia e um outro Fundo para as Indústrias Culturais. Já também as bolsas da Fundação Macau para os jovens estudarem no exterior e o programa de formação contínua. Macau já está a este nível num patamar muito elevado.
– Quanto à participação dos jovens na política e na vida cívica, estão bem representados? Têm sido ativos?
C.C. – A Cimeira da Juventude Macau quer ser uma plataforma para os jovens de Macau poderem falar e comunicar e discutir os assuntos económicos, políticos e sociais de Macau, sendo também um plataforma para deputados, académicos e líderes associativos na sociedade interagir com os jovens.
– E relativamente ao desenvolvimento político de Macau. É necessário desenvolver a democracia para promover a participação dos jovens?
C.C. – Macau tem uma forte cultura associativa. Aqui a participação política reflete-se na participação da juventude nas associações. Todas as associações têm uma causa que querem promover, pelo que a participação dos jovens nessas associações vai fazer com que se envolvam nessas causas.
– Macau necessita de evoluir para o sufrágio universal?
C.C. – Diferentemente da Lei Básica de Hong Kong, a Lei Básica de Macau não se refere ao sufrágio universal. Esta é uma grande diferença. Por isso fico-me por aqui.
– Como encara o futuro de Macau nas três décadas que nos separam de 2049, ano do fim do período de 50 anos acordado na Declaração Conjunta?
C.C. – Tenho confiança e optimismo. Acho que Macau tem que continuar a desenvolver-se em todos os aspectos no que diz respeito à preparação dos talentos para a plataforma sino-lusófona. Ao mesmo tempo, a China vai continuar a dar as linhas gerais, liderando o desenvolvimento de Macau.
– Várias vozes têm manifestado preocupação relativamente à identidade de Macau. Há o perigo de diluição da identidade de Macau no processo de integração?
C.C. – Em primeiro e último lugar, somos chineses e residentes de Macau. Sendo que Macau sempre foi parte integrante da China, ser chinês sempre fez parte da nossa identidade.
O mais importante é entendermos que a identidade não é conceito estático, está em constante evolução. No que diz respeito à nossa relação com a cultura portuguesa, orgulho-me desta relação. Macau pode e deve manter o seu modo de vida e a sua culta que conta com o contributo da comunidade chinesa e portuguesa. Acho que a questão da diluição da identidade é um falso problema.
– Juristas e advogados têm manifestado preocupação sobre a erosão do sistema jurídico de Macau, tendo em conta propostas legislativas recentes e formas de atuação dos tribunais e Ministério Público. Partilha desta preocupação?
C.C. – Tenho respeito por essas opiniões expressas pela comunidade jurídica de Macau. Estou a observar a questão.
– Calvin Chui pertence a uma das principais famílias de Macau, quer do ponto de vista politico quer económico. Tendo em conta este background familiar e o papel que já está a desempenhar, há quem anteveja altos voos políticos para si. Como encara isto?
C.C. – Não é o meu forte viver de acordo com a imaginação de outras pessoas, no entanto para ter sucesso em qualquer coisa na vida temos de estar sempre preparados.

José Carlos Matias 03.08.2018

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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