O poder do tempo - Plataforma Media

O poder do tempo

Ho Iat Seng vai à frente. As relações com Pequim são diretas e consistentes; o discurso conservador tranquiliza o poder central; paira no ar o medo de arriscar. Há um challenger; claro e consistente: Lionel Leong é mais liberal, tem mundo e ambição. Cresce a olhos vistos e afirma-se. Mas o tempo joga contra ele. 

Vale o que vale. A informação é escassa e discreta, mas já circula com qualidade e convicção. A última década foi pouco mais que sofrível e pesa na consciência de Edmund Ho e Hu Jintao. Chui Sai On foi uma falsa boa ideia. A liberalização do jogo e a geopolítica lusófona abriam perspetivas extraordinárias, toldadas por vistas curtas e paralisia política.

Há outro medo: os poderes fáticos. Macau é o que é e Pequim quer mão de ferro sobre os magnatas do jogo e especuladores imobiliários. Se dúvidas houvesse, o recente processo de expropriações deixou isso bem claro. É um trunfo decisivo nas mãos de Ho Iat Seng. Pequim olha para o mais velho, símbolo de autoridade. Talvez o mais novo possa esperar. 

Há ainda o outsider. Alexis Tam sabe: tem carreira no Estado, ao gosto da hierarquia comunista; é bilingue… e ao reunir em Macau os ministros da cultura chinês e lusófonos mostra que a plataforma tem dois pilares – não é só negócio.

Afinal, há opções – e complementares. E essa é a melhor notícia. Só vai um a jogo. Engane-se quem espera uma corrida a dois ou a três, com pesos deste calibre. Assim que um tiver sinal verde, os outros recuam. É preciso protegê-los para que possam existir. 

A principal lição da jovem autonomia é que o vício do mandarinato pode ser um desastre. Ganhe quem ganhar – sobretudo Ho Iat Seng, que é mais um compasso de espera, é preciso que os outros tenham espaço para respirar e crescer. Porque fazem sentido. E o futuro está neles.

Paulo Rego 20.07.2018

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