A questão que importa no debate independentista não é constitucional; é política. Mas a marca mais triste desta crise catalã é a do comportamento do poder central face ao desafio da sua autoridade. A reação de Madrid é pobre, violenta e a todos os títulos condenável.
Há uma dualidade inegável no pensamento político europeu: Madrid é bem mais dura e autoritária com Barcelona do que Pequim alguma vez foi com Hong Kong. E a polícia espanhola, de facto, foi violenta – como nunca se viu em Hong Kong. Se Pequim tem atacado o “Occupy Central” com o músculo policial que caiu em cima dos catalães a Europa humanista estaria certamente em modo histérico.
Por todos os critérios estabelecidos do direito dos povos à autodeterminação; por todos os cânones da democracia – o argumento constitucional é tonto, porque qualquer impulso independentista desafia sempre os quadros legais vigentes – ou por qualquer critério humanista… um polícia violento perde sempre razão em frente a uma urna de voto. Só há uma coisa que falha no pensamento catalão: na era da partilha esta luta independentista está em contraciclo – carece de real sentido.
Em Hong Kong, a história no fundo é a mesma. Por lei não podem; por vontade muitos nem querem, e a revolução por confronto já não cabe ma cabeça de ninguém. Porque, na prática, só há duas vias possíveis para a independência: em negociação com o poder central, ou pela força das armas.
Lá longe, na Península Ibérica, ou a partir de Macau, há uma verdade que custa engolir: Pequim, que falou mais grosso do que era necessário e arriscou a soberba imperial, portou-se em Hong Kong como um verdadeiro mestre de cerimónias, ao pé da violência boçal que mancha a imagem de Madrid.
Há uma imagem que destrói a imagem do Governo de Rajoy: um independentista catalão agarrado a um polícia espanhol, que chora perante aquele cenário dantesco. Essa é a imagem que corre o mundo, porque este é o mundo em que a partilha da imagem também conta.
Paulo Rego