Eleitores pediram mudança - Plataforma Media

Eleitores pediram mudança

Esta é a grande conclusão a retirar dos resultados eleitorais, dizem os analistas António Katchi, Sonny Lo e Éric Sautedé. 

Domingo foi afinal um dia de surpresas. A Assembleia Legislativa mudou e, ao que parece, os eleitores também. A taxa de participação aumentou, passando de 55 por cento em 2013 para 57 por cento em 2017. 

Os dados avançados pela Comissão de Assuntos Eleitorais mostram que, dos 305,651 mil eleitores recenseados, 174,872 votaram. Um número absoluto recorde em eleições por sufrágio direto – ainda assim, com uma taxa de abstenção superior a 42 por cento.

Para o analista político Sonny Lo, a afluência às urnas no domingo e o número de listas candidatas foi um sinal claro de que os canais de participação eleitorais são “insuficientes”. “Está na altura de Macau democratizar a composição da assembleia”, defende. 

António Katchi diz que os números comprovam a “vontade crescente da população participar na formação dos órgãos do poder político e na definição das políticas públicas”.

Lo acrescenta que o Governo tem de iniciar rapidamente um processo de consulta pública sobre reformas eleitorais que inclua a opção de aumentar o número de deputados eleitos pela via direta em detrimento dos que são nomeados pelo Chefe do Executivo. “Pode ser demasiado radical para a Administração abolir todos os deputados nomeados, mas é imperativo um processo de democratização mais drástico e célere”, completa o analista de Hong Kong. 

Além da participação eleitoral, a vontade de mudança dos residentes também foi visível nos resultados. “A derrota clara dos deputados que representam o setor empresarial foi a mensagem mais importante. Vejo isto como a vitória da sociedade sobre os interesses”, refere Éric Sautedé. 

Sonny Lo subscreve: “Foi uma vitória sem precedentes das forças pró-democracia”. E

António Katchi faz a mesma leitura já que as listas “geneticamente” ligadas à Associação Novo Macau (ANM) e Nova Esperança de Pereira Coutinho, as que vê como constituindo o bloco “oposicionista”, conseguiram 26,1 por cento dos votos. “Os que votaram nelas serão, provavelmente, os eleitores mais consistentemente opostos à política do Governo e ao regime político vigente”, afirma.

Sautedé acrescenta que os anos de insatisfação com o Executivo, com os deputados “que se preocupam apenas com os seus interesses mesquinhos”, e o drama vivido com o tufão Hato criaram a “tempestade perfeita” para a vitória dos candidatos mais críticos.

Sonny Lo sublinha a importância da eleição de Agnes Lam, do Observatório Cívico, e de Sulu Sou, da Associação do Novo Progresso de Macau ligada à ANM. Para Sautedé, Sulu Sou vai ser a peça-chave da próxima legislatura. “Vai ter impacto em toda gente. O campo pró-status quo vai ter de ter mais cuidado e ser mais sofisticado. E o campo dos pró-democratas, incluindo Agnes Lam, terá de ser mais agressivo e ambicioso para não parecer obsoleto.” 

Sautedé espera que Sulu Sou, Ng Kuok Cheong, Au Kam San, Pereira Coutinho e Agnes Lam formem um bloco. “Os deputados do setor empresarial devem estar preocupados”, prevê.

Já Katchi entende que Lam andará distante dos apelos a uma nova reforma política. Para o analista, os apoiantes da académica representam a satisfação com o estado dos direitos civis, com o regime político vigente, combinada com a “desconfiança ou mesmo receio da democracia”, apoio ao regime político da República Popular da China – “ou, pelo menos, resignação como um suposto mal menor” -, insatisfação com algumas políticas setoriais do Governo e avaliação pouco positiva da competência dos governantes e dos altos dirigentes. “O voto no Observatório Cívico é basicamente conservador embora situado na franja mais crítica”, defende.

Os derrotados

Sonny Lo interpreta a perda de votos dos deputados com ligação ao setor do jogo como um sinal de que a população não quer mais que Macau esteja sob uma “influência  tão forte do capitalismo liderado pelos casinos”.

Katchi vai mais longe: “O apoio eleitoral dos trabalhadores dos casinos a candidatos como Melinda Chan, desta feita derrotada, e a Angela Leong é previsivelmente um fenómeno condenado a desaparecer”, refere o analista que alerta para o resultado da lista Linha da Frente dos Trabalhadores de Casinos, encabeçada por Cloee Chao.

Apesar dos 3,126 votos serem “poucos” face ao elevado número de funcionários dos casinos, Katchi entende que o apoio significa o início de um “processo de autonomização política dos trabalhadores em relação aos patrões”. 

Quanto às listas apoiadas por Chan Meng Kam, o grande vencedor das eleições de 2013, nada muda apesar de terem perdido um mandato e de só terem elegido Si Ka Lon e Song Pek Kei. À semelhança de Sonny Lo, Katchi considera que o resultado eleitoral desfavorável não altera a influência que têm em Macau: “As listas de Fujian e de Guangdong são dois subsetores da oligarquia de Macau sem qualquer diferença político-programática substancial, muito menos ideológica”, aponta.

De volta ao passado

Katchi diz que as mudanças na composição da nova legislatura são um “pouco maiores” do que se previa mas têm um “alcance político muito limitado”. “Nalguns casos, traduzem-se na mera reposição de situações anteriores às eleições de 2013.”

O analista político recorda que a eleição de um terceiro deputado através das listas ligadas à ANM já tinha acontecido antes. Katchi admite que a eleição de Sulu Sou tem um “significado especial” por se tratar de um ativista da geração mais nova, mas ressalva que os resultados na legislatura de 2009 foram mais significativos já que só havia 12 deputados eleitos pela via direta. “Tinham, portanto, um quarto dos deputados eleitos por sufrágio direto, ao passo que agora têm apenas cerca de um quinto.”

O mesmo acontece com a lista apoiada pelos Operários que recupera os dois mandatos já alcançados em legislaturas com menos deputados escolhidos pela população. “Tinha, portanto, um sexto dos deputados, enquanto que agora tem apenas um sétimo”, refere. 

Para Katchi pouco muda com o novo hemiciclo. “A correlação de forças entre o bloco pró-status quo e o de pendor oposicionista não sofreu alteração.”

Tal como nos últimos quatro anos, afirma o analista, o bloco “oposicionista” mantém quatro deputados. Se antes contava com dois da lista Nova Esperança e dois da Associação Novo Macau o, agora passa a ter um deputado da NE e três com ligação à ANM. 

Katchi acha que a substituição de Leong Veng Chai, número dois de Pereira Coutinho, por Sulu Sou pode traduzir-se “numa maior força verbal, visibilidade mediática e num leque mais alargado de temas trazidos à discussão”, mas recorda que na altura de decidir nada mudará. “No momento das votações, quatro continuará igual a quatro”, sublinha.

Sautedé, por sua vez, acha que pode haver mudanças nos próximos quatro anos.  As eleições para Chefe do Executivo em 2019, a pressão da sociedade e do campo renovado dos pró-democratas na assembleia fazem com que o analista acredite que o próximo Governo vai ser “mais capaz e ousado”. “Podem até manter-se os atuais secretários, mas será um Governo com um ímpeto diferente e muito mais próximo da sociedade”, antevê. 

C.B.S

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Artigos relacionados
Opinião

Liberalismo selvagem

Opinião

A Carne De Porco É Cara? Criemos Porcos!

Opinião

Pedido de Compensação Americano Terá Lugar Amanhã

Opinião

O caminho da montanha

Assine nossa Newsletter