Compra de empresas arrefece com novos controlos

por Arsenio Reis

O número de ofertas chinesas por empresas no exterior caiu 20 por cento até junho. A consultora Rhodium diz que vai continuar a ser difícil fazer negócios fora da China nos próximos tempos.

As medidas de controlo à saída de capitais chineses para compra de ativos no exterior estão a produzir efeito, com o número de novos negócios anunciados durante a primeira metade deste ano a cair em 20 por cento por comparação com o mesmo período do ano passado. 

A conclusão é da norte-americana Rhodium, que monitoriza regularmente a atividade internacional de empresas chinesas em processos de fusão ou aquisição, e que prevê para a segunda metade do ano a manutenção de mecanismos formais e informais pelos reguladores da China para conter a saída de grandes volumes de capital do país.

A consultora fechou o mês de junho com um novo relatório sobre o investimento internacional chinês, “Tectonic Shifts: Chinese Outbound M&A in 1H2017”, no qual dá conta de uma quebra de anúncios de ofertas públicas de aquisição sobretudo mais acentuada durante o primeiro trimestre deste ano, com alguns sinais de melhoria durante os meses de maio e junho. 

Em cada um dos últimos dois meses, as compras de ativos no exterior por capitais chineses traduziram-se em mais de 20 anúncios de negócios que envolviam investimentos iguais ou superiores a cinco milhões de dólares. Ainda assim, as somas investidas no exterior estão longe dos valores do ano passado. Em 2016, as empresas chinesas investiram por mês, em média, 15 mil milhões de dólares em ativos internacionais. Na primeira metade deste ano, a média mensal situava-se em oito mil milhões de dólares.

Para a Rhodium, a tendência de redução do investimento externo resulta da imposição, no final do ano passado, da obrigatoriedade de revisão pelos reguladores em processos de aquisição que envolvam valores superiores a mil milhões de dólares ou compras fora da área de atividade tradicional das empresas compradoras. As restrições visaram conter negócios considerados “irracionais”, ao mesmo tempo que os supervisores financeiros chineses se debatiam com fluxos crescentes de saída do capital do país e uma tendência constante de depreciação do renminbi, que forçava a venda de reservas cambiais pelo banco central.

Uma conjuntura que deverá persistir, analisa a consultora, no quadro do atual crescimento mais lento da massa monetária, com impacto previsível na economia real, e da subida de taxas de juros nos Estados Unidos, que volta a colocar pressão sobre o câmbio da moeda chinesa e incentiva a fuga do dinheiro do país.

É, por isso, improvável, um levantamento das restrições em vigor. “Em vez disso, prevemos que Pequim trabalhe para um novo regime formal de investimento direto externo que assegure maior clareza aos participantes do mercado, mantendo-se ao mesmo tempo um sistema que permita a Pequim intervir em negócios no exterior com base em considerações macroeconómicas e aspetos específicos desses negócios”, afirma a consultora.

Também a decisão do mês passado, pela Comissão Reguladora dos Bancos Chineses (CBRC, na sigla inglesa), de tomar medidas para reduzir a exposição dos bancos nacionais a riscos decorrentes da atividade internacional de grandes conglomerados – como Fosun, HNA e Anbang – vem criar novas incertezas sobre a conclusão de negócios no exterior. 

“O passo dado pela CBRC forcará os bancos a repensarem as linhas de crédito para os investidores chineses no exterior, o que agravará ainda mais a incerteza para as empresas vendedoras que estejam a considerar ofertas chinesas”, prevê a Rhodium.

A consultora dá também conta, neste relatório, de riscos negativos acrescidos para negócios já anunciados, lembrando que os processos de aquisição se encontram mais demorados desde a entrada em vigor dos novos controlos de supervisão do final de 2016 – em parte pelo escrutínio dos reguladores, em parte pelas novas dificuldades de financiamento vividas pelas empresas chinesas que pretendem ir às compras no exterior.

Entre os exemplos de fracasso estão a proposta do grupo de entretenimento Wanda de adquirir a americana Dick Clark Productions num negócio de mil milhões de dólares, e a intenção de compra do fabricante de televisões Vizio, também americano, pela gigante tecnológica chinesa Le Eco – empresa que na última terça-feira viu os seus ativos congelados por ordem judicial depois de ter falhado o pagamento de empréstimos concedidos pelo China Merchants Bank. 

‘Bond Connect’

Mercado de dívida onshore abre com emissão do Banco de Desenvolvimento Agrícola

A abertura do mercado de obrigações da China continental a grandes investidores no exterior, na última segunda-feira, através da bolsa de Hong Kong, foi marcada por uma forte iniciativa dos bancos de fomento chineses e uma procura substancial no primeiro dia. 

Uma oferta de títulos de dívida do Banco de Desenvolvimento Agrícola da China, com um valor de mil milhões de yuans para os investidores em offshore, recebeu uma procura 2,52 vezes superior à oferta, garantindo uma percentagem de juros de 3,98 por cento em maturidades de três anos, e de 3,61 por cento para prazos de um ano. A instituição estatal de fomento, detida pelo banco central chinês, é atualmente a terceira mais endividada do país, com seis biliões de yuans de dívida emitida. 

Além do Banco de Desenvolvimento Agrícola da China, também o Banco de Desenvolvimento da China – maior banco de fomento do país – anunciou na terça-feira que irá procurar financiar-se em 20 mil milhões de yuans através do novo mecanismo, que permite ao investidores no exterior comprarem dívida de entidades com sede na China continental. O ICBC pretende recorrer ao ‘Bond Connect’ mais tarde.

O primeiro dia operações do mecanismo – detido em 40 por cento pela Bolsa de Valores de Hong Kong e controlado pelo China Foreign Exchange Trade System – registou um volume de transações no valor de sete mil milhões de yuans, com 142 operações distintas e o envolvimento de 89 instituições financeiras. 

Maria Caetano

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