No contexto da atual transição estrutural da China, a retirada de liquidez pelo Banco Popular da China possui efeitos significativos nos mercados. Ao longo dos próximos meses são esperados obstáculos para os títulos bolsistas cíclicos expostos à China no complexo dos Mercados Emergentes (ME).
Acreditamos que isto irá provavelmente levar a uma redução dos fluxos passivos para os ME, criando mais oportunidades para os gestores de investimento experientes em análise de fundamentos de valorização gerarem rendimentos acima do esperado. Este artigo analisa algumas das formas através das quais os investidores ativos podem obter vantagens das condições cíclicas da economia chinesa cíclica focando-se em áreas-chave: abrandamento do crescimento, os maiores custos de capital e um contexto regulatório em mudança.
Obstáculos para mineiros, condições favoráveis para caçadores de rentabilidade
Acreditamos que existem razões claras pelas quais o atual contexto apoia a busca de rentabilidade acima do esperado pelos investidores, ao mesmo tempo que apresenta problemas para as empresas ciclicamente expostas. Em primeiro lugar, o abrandamento do crescimento da China significa que a expansão imobiliária (e procura global por metais) irá provavelmente arrefecer. Embora as manchetes sugiram que as despesas em infraestruturas do Presidente norte-americano Donald Trump possam apoiar os preços globais de metais, a realidade é que o consumo chinês representa uma procura quase sete vezes superior à dos os Estados Unidos pelo cobre, devido à urbanização e desenvolvimento de infraestruturas, por isso a desaceleração da China constitui um risco significativo.
Em segundo lugar, esperamos ver menos fluxos passivos para os ME, dada a diminuição dos ventos favoráveis a impulsionar os setores cíclicos. Efetivamente, assistimos a fluxos significativos para ativos dos ME em anos recentes, mas existe uma relação significativa entre o desempenho dos setores cíclicos dos ME e os fluxos positivos para fundos cotados dos ME. A nossa equipa analisou um período de cinco anos encontrando uma corelação entre um desempenho acima do esperado nos setores cíclicos dos ME e os fluxos para os três maiores fundos de mercados emergentes cotados: a corelação foi de 48 por cento neste período, subindo para 93 por cento nos últimos dois anos. Uma vez que são esperadas condições adversas para os setores cíclicos, é possível que os mercados orientados por factores de variabilidade venham a dar lugar a fortes oportunidades para geração de rendimentos acima do esperado, num quadro que entendemos ser de avaliações estruturalmente baixas de ações e moedas dos ME.
A terceira razão pela qual este contexto poderá ser propício aos gestores de investimento deve-se ao facto de o crescimento mais baixo do PIB apresentar oportunidades de maiores retornos sobre o capital, em parte graças à necessidade de melhorias no quadro regulatório. É fácil fazer dinheiro quando o crescimento económico está a explodir. Entre 2010 e 2012, quando o crescimento nominal do PIB da China acelerou de cerca de 11 por cento para quase 25 por cento, as ações chinesas cotadas nos mercados do Continente acarretaram retornos negativos de 12 por cento, anualmente, ao passo que a explosão de novo investimento contribuiu significativamente para o crescimento. Contudo, de uma perspetiva empresarial, o excesso de capacidade cria deflação e diminui as margens, e um custo de capital artificialmente baixo reduz o incentivo para que uma gestão procure retornos adequados. Esta foi a era de projetos como o “edifício mais alto do mundo”, de 220 e construído em 90 dias nas zonas rurais; um período de três anos durante o qual a China consumiu mais cimento do que os Estados Unidos em todo o século XX. Atualmente Pequim incentiva a racionalização do lado da oferta em setores de materiais como o carvão, o aço e o alumínio, de forma a fazer subir os retornos, o que tem tido sucesso. A Baoshan Iron & Steel, a maior empresa siderúrgica da China, por exemplo, duplicou os seus ganhos no ano passado.
Contudo, existem outras áreas menos destacadas que também beneficiaram desta racionalização, como os autocarros híbridos e elétricos. A China vinha oferecendo antes subsídios generosos para incentivar a adoção de autocarros ecológicos, para que todos os agentes no setor pudessem obter retorno, independentemente da qualidade ou eficiência dos produtos. Mas agora Pequim alterou este regime para promover uma maior eficiência e reduzir a corrupção. Depois de um golpe isolado nos preços em 2017, esperamos um crescimento em participação no mercado e poder de fixação de preços por parte de três líderes de mercado.
Oportunidades de rentabilidade elevada em mercados emergentes
Em última análise, acreditamos que os ventos adversos enfrentados pelas empresas ciclicamente expostas poderão representar oportunidades para os gestores de investimento, e que o atual contexto em mudança na China deverá diferenciar radicalmente os vencedores dos perdedores, com uma enorme margem para uma gradual maior quota de mercado e retornos para os vencedores: um contexto que poderá promover um verdadeiro mercado altista na gestão do investimento na China. Acreditamos que as ações de tipo A representam uma das oportunidades mais líquidas e ineficientes nos mercados financeiros globais, praticamente intocadas pelos investidores estrangeiros e à beira de uma revolução em retornos de capital. A recente decisão de reavaliar a inclusão no índice MSCI pode muito bem estar a surgir numa altura em que a história de valorização acionista na China se está a tornar muito mais interessante.
*Gestores de carteiras de mercados emergentes na Man GLG, a empresa de gestão de investimento discricionária do Man Group
*Simon Pickard e Edward Cole