“Não podemos estar 14 anos à espera que alguma coisa seja feita” - Plataforma Media

“Não podemos estar 14 anos à espera que alguma coisa seja feita”

Carmen Amado Mendes, especialista em Relações Internacionais da Universidade de Coimbra, defende que o posicionamento de Macau enquanto mediador internacional dos negócios chineses para a Nova Rota da Seda exige mais rapidez e investimento de recursos.

– Pequim impõe mais uma vez a Macau o desígnio político de fazer a mediação para o espaço de língua portuguesa, agora na exploração de oportunidades da iniciativa Faixa e Rota. Sendo que com o projeto do Fórum Macau tem sempre havido algumas críticas sobre a forma como Macau se posiciona, ou não se posiciona, de modo a aproveitar estas oportunidades, parece-lhe que estará agora com capacidade de assumir a nova atribuição?

Carmen Amado Mendes – Quer em relação a esta questão da Faixa e Rota, quer em relação à questão da plataforma para os países de língua portuguesa, fui sempre um pouco crítica em relação ao que Macau podia fazer. Sempre achei que tinha muitos recursos, principalmente financeiros, que lhe permitiam investir na formação de recursos humanos especializados nesse desígnio, que foi aceite pela China como especial para o sucesso da fórmula Um País, Dois Sistemas aplicada a Macau. Tanto na altura da criação do Fórum [Macau] – e já passaram muitos anos – quer com a criação deste slogan de Uma Faixa, Uma Rota – que na verdade não é mais que o desejo chinês de justificar o seu expansionismo e a vontade de ressurgimento da China à escala internacional de uma forma aparentemente pacífica e recolhendo a boa-vontade dos países atravessados por essa faixa e por essa rota  -, Macau pode aproveitar muito mais estas benesses que a China lhe vai dando para se poder internacionalizar. O que sempre achei muito interessante é que Macau, não tendo do ponto de vista jurídico a possibilidade de se assumir com autonomia no plano da política externa, tem visto ser-lhe permitido pela China ter um papel especial não só na política externa chinesa, como desenvolver uma política externa autónoma que é só de Macau e que não passa pela China. Em relação questão da Faixa e Rota muito poderia ser feito também neste campo se o Governo de Macau a vir como oportunidade única de dar a Macau um papel internacional credível, a par do interesse interno de diversificação da economia. Fico sempre na esperança de que mais seja feito, porque Macau tem potencial para isso.

– Desenvolvimentos como a transferência de sede efetiva do Fórum Macau para a região, bem como do Fundo para a Cooperação que lhe está associado, ou, no plano da cooperação Portugal-Macau, a vontade de o Governo da região de generalizar o ensino do português – ainda que não o possa impor às escolas – parecem-lhe sinais para optimismo quanto à iniciativa de Macau?

C.A.M. – Quando demoramos 14 anos a ter uma iniciativa dessas não há muito optimismo. Em relação à Faixa e Rota não podemos estar 14 anos à espera que alguma coisa seja feita em Macau. Acho louvável o que refere. Mas porquê tanto tempo? Será que foi apenas má vontade da parte do Governo chinês ou foi falta de iniciativa por parte do Governo de Macau e por parte das próprias instâncias e pessoas ligadas ao Fórum? Em relação à Rota da Seda, quem é que em Macau está de facto a tomar conta deste processo? Já em relação ao Fórum o dizia, e digo o mesmo em relação à Rota da Seda: se não há uma estrutura governamental que supervisione todas as entidades, governamentais e da sociedade civil, que lidam com estas questões, é muito difícil que as iniciativas dispersas que vão surgindo sejam canalizadas de forma a haver resultados rápidos e de forma a que Macau se posicione antes que esse lugar seja ocupado por outros. Não podemos estar tanto tempo à espera como aconteceu em relação ao Fórum. As coisas acontecem com o Fórum numa altura em que a ideia da Faixa e Rota já se sobrepõe à ideia da plataforma. Macau enquanto plataforma foi moda durante muitos anos, mas não há dúvida que a Nova Rota da Seda capta muito mais atenção em termos internacionais. Esperar tanto tempo para se conseguir perceber o que se tem de fazer para Macau assumir esse papel é desnecessário quando há recursos. 

– Mas, no fundo, não estamos a falar da mesma realidade? Seja a plataforma, seja a Faixa e Rota, ambas representam investimento e posicionamento externo.

C.A.M. – Sim, mas a área de atuação desta nova iniciativa chinesa – que se tornou a iniciativa por excelência da política externa chinesa à escala internacional – não tem nada que ver com a dimensão que o Fórum Macau ocupou. Tirando o espaço lusófono, essa iniciativa praticamente era desconhecida em todo o mundo, mas não há canto do mundo que não tenha ouvido falar de Uma Faixa, Uma Rota. O fórum de Pequim que reuniu líderes internacionais a debater esse tema assume uma visibilidade e uma dimensão que nunca a questão da plataforma assumiu. Trata-se da mesma coisa em termos de estratégia chinesa, de ‘going out policy’, de imperialismo – se quisermos – ou de expansionismo chinês. Mas a área de atuação é completamente diferente. 

– Parece-lhe que a Europa, concertadamente, tenderá a assumir uma posição mais favorável em relação aos investimentos chineses do que até aqui? Em alguns sectores, a China tem encontrado limitações por via das instituições europeias. Perguntava-lho no contexto da possibilidade de haver investimento para infraestruturas na Europa e no quadro de retração dos Estados Unidos no relacionamento com a Europa.

C.A.M. – Na Europa, tal como no resto do mundo, a presença da China é sempre bem-vinda quando vem preencher o espaço que os outros têm deixado em branco. Isso vê-se claramente em África. A presença da China em África começou pelas zonas onde os europeus ou os americanos não queriam estar. Foi o caso do Sudão e de outras zonas de investimento de alto risco em que os chineses sempre que viam espaço livre avançavam. Foi o caso da América Latina, o que se notou muito no pós-11 de Setembro quando os Estados Unidos se concentraram mais no Médio Oriente, esquecendo de alguma forma aquele que é tradicionalmente visto como o seu pátio traseiro. Deixaram espaço na América Latina para o avanço da presença chinesa. E está a ver-se um bocado agora na Europa. A relação Europa-China – já David Shambaugh dizia isto – é uma relação em que há um terceiro ator silencioso, que são os Estados Unidos. Tudo o que se passa na relação entre a China e a Europa é influenciado pelas relações bilaterais Europa-Estados Unidos e China-Estados Unidos. Querendo ou não, a relação que a China tem com os Estados Unidos é a relação mais importante do século – já a Hillary Clinton disse isso quando anunciou o pivot para a Ásia. O que a China tem mostrado é que toda a sua atitude em relação à Europa é condicionada pelo relacionamento com os Estados Unidos. Numa fase em que os Estados Unidos tomaram a iniciativa de invasão do Iraque no pós-11 de Setembro, imediatamente incomodada com essa postura unilateral, decidiu declarar a Europa como parceira estratégica. Esse foi considerado o período de lua-de-mel entre a Europa e a China. Sempre que há pontos baixos no relacionamento entre a China e os Estados Unidos, como aconteceu desde as primeiras declarações do Presidente Trump, há uma aproximação da China e da Europa. Por outro lado, a Europa também vê sempre a China na perspetiva de colmatar aquilo que não obtém na relação transatlântica – e também porque esteve sempre muito condicionada pela relação transatlântica. Dou o exemplo do embargo de armas, estabelecido em 1989 na sequência do massacre de Tiananmen. Praticamente, é por imposição dos Estados Unidos que o embargo ainda não foi levantado. Na negociação da parceria estratégica entre Europa e a China, em 2003, a Europa comprometeu-se a levantar o embargo, mas isso exige uma decisão de consenso, e com o alargamento europeu a vários Estados de Leste muito pró-americanos isso já não foi possível.

– Estados europeus muito ligados aos Estados Unidos que entretanto a China também conseguiu reunir em seu redor com um conjunto de parcerias específicas para a região, nomeadamente com o Fórum 16+1, por exemplo. E também países que a China atravessa na ligação euroasiática do corredor da Faixa e Rota. É muito importante o Leste europeu?

C.A.M. – Sem dúvida. Aliás, inicialmente, o primeiro comboio projetado na Faixa e Rota acabava precisamente em Duisburg, na Alemanha, e havia muito a perspetiva de que a Europa seria o terminus da Rota da Seda, independentemente de toda a retórica que veio a seguir a levar para lá da Europa. Todas as reuniões que o Governo chinês teve através das suas embaixadas nos países da Europa, para no fundo obter apoio e também opinião informal sobre como avançar com esta iniciativa, revelam também o interesse neste relacionamento com a Europa. O reverso da medalha desse tipo de iniciativas é fragilizar a relação entre a China e União Europeia como um todo. O acordo de parceria estratégica entre a União Europeia e a China nunca avançou em boa parte devido às parcerias bilaterais entre a China e vários Estados da União Europeia. E isso é feito muito em função do investimento. Há quem diga em Portugal, até, que a existência da parceria estratégica assinada entre o primeiro-ministro José Sócrates e o primeiro-ministro Wen Jiabao, em 2005, teria facilitado a entrada da China em muitos dos sectores estratégicos para a economia nacional. Se sem parceria as coisas teriam sido diferentes, nunca iremos saber. O que é verdade é que quando temos países europeus – por motivos até de desespero financeiro como foi o nosso caso – a permitir que a China entre nesses sectores estratégicos de uma maneira com que outros países europeus até não concordam, ou quando temos países que querem vender armas à China quando outro querem manter o embargo, nunca conseguimos ter uma política comum em relação à China. Esse tem sido um dos grandes dramas da política externa europeia.

– Pode dizer-se que Portugal, em termos de sectores estratégicos da sua economia, foi eventualmente o mais permeável do conjunto europeu?

C.A.M. – Sem dúvida.

– Está a beneficiar no sentido inverso?

C.A.M. – Há duas leituras. Os defensores desse tipo de iniciativas dizem que, estando Portugal na bancarrota, a China aparece como a salvadora e que houve ganho em tudo o que conseguimos vender, e que foi indispensável para o desenvolvimento da economia nacional. Depois, há outra facção que diz precisamente o contrário: que sectores estratégicos nunca devem ser postos à venda – muito menos para colmatar problemas resultantes da má gestão do país. O que notamos em termos do interesse da China em entrar nessas empresas é, por um lado, o investimento em si. Mas, antes de mais, ressaltaria dois aspectos. Um é a obtenção de conhecimento em termos de gestão – apesar de haver programas conjuntos na China em escolas e gestão, isso não chega para formar os quadros na prática -, numa maneira muito barata de formar quadros. O outro aspecto importante é obter know-how, obter informação, especialmente em termos de tecnologia, em empresas que conseguem dar uma informação à China que nos Estados Unidos não é possível.

– Perguntava se Portugal tem conseguido obter retorno, porque quando a China apresenta a iniciativa Faixa e Rota também torna bastante explícito inicialmente que se trata de investimento chinês feito com empresas chinesas, e não de uma participação de empresas de outros países nos projetos chineses. 

C.A.M. – Essa foi sempre uma crítica feita à dita cooperação chinesa. A China coopera sempre em projetos que diz serem mutuamente benéficos. Mas sempre questionámos se esses projetos são realmente mutuamente benéficos. Aquilo que é mais visível neste momento é o que a China andou a fazer nas últimas décadas em África. As linhas de crédito são abertas para empresas chinesas; é o Governo chinês que decide quais as empresas estatais que podem avançar; a mão-de-obra é chinesa; os materiais de construção são chineses; a comida que estes funcionários comem é chinesa. No fundo, é uma maneira de continuar a desenvolver a China fora da China. Tal como a China sempre replicou o modelo de Chinatown por todo o mundo, replica o modelo de cooperação também até ao limite que os países permitam. Na Europa, ou em Portugal, não tem sido posto um grande limite a essa forma de comportamento, embora a China seja mais cautelosa do que em África porque tem interesse em usar também estas empresas para entrar noutros países onde as empresas portuguesas têm sucursais ou algum investimento. Não conseguimos avaliar ainda os resultados desse investimento – o que notamos é que o modus operandi é muito chinês. 

Maria Caetano

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