Os limites da autonomia

por Arsenio Reis

O debate, inevitável, sobe de tom, com ruído a mais em Hong Kong e silêncio penoso em Macau. Há limites diferentes nas margens opostas do Delta: em inglês, mede-se quão longe pode ir a autonomia; em português, quão perto está a integração. Há um dilema perverso em Macau: os limites do poder local – não os constitucionais, mas os da governação – fazem com que muitos prefiram que Pequim decida; meta na ordem; faça o futuro rolar. Mas não há almoços grátis e assim se fere a autonomia.
Não é antipatriótico jogar poder e influência em Pequim. Todas as províncias o fazem. Mas o radicalismo independentista em Hong Kong acarreta dois problemas graves: tira palco ao combate legítimo por mais autonomia e mais democracia e acicata o nacionalismo populista na China. Quanto à paralisia política em Macau… essa não ajuda mesmo ninguém: nem o Segundo nem o Primeiro sistema.
É neste presente que se vê – ou intui – o futuro pluriconstitucional chinês. E a pergunta de um milhão de dólares é a de saber-se o que de facto pensa Pequim do Segundo Sistema. Por um lado, a internacionalização da economia chinesa, através das regiões mais ocidentalizadas, dá-lhes valor crescente; por outro, a ideologia totalitária borra a pintura original do pai da Abertura e Reforma.
Deng Xiaoping traçou em Macau e Hong Kong um laboratório que ajudasse a China a integrar o capitalismo global e a desenvolver uma evolução política internacionalmente mais aceite. Primeiro, para seduzir Taiwan à anexação; depois, para conquistar lugares ao sol nos corredores da globalização. Contudo, são hoje muito fortes as pressões de sinal contrário: o Partido Comunista reinterpreta o nacionalismo pós-maoísta, reerguendo também o fantasma da Perestroika à chinesa.
As regiões administrativas especiais vivem hoje bloqueios em toda a linha: o Ocidente, rendido à economia chinesa, cala o debate político e humanista; Pequim, numa deriva desnecessária, desbarata a relevância de uma liderança mundial aceite; Hong Kong erra no tema, trocando o estímulo democrático por uma independência impossível; Macau entrega-se ao que houver, sem ter sequer uma ideia própria.
Deng Xiaoping era bem mais excitante. Mais vale revisitá-lo.

Paulo Rego     

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