A meta de 6,5 por cento de crescimento económico e outras

por Arsenio Reis

Terminaram as duas sessões deste ano da Assembleia Popular Nacional e da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês. Li Keqiang, primeiro-ministro do Conselho de Estado, durante uma conferência de imprensa com jornalistas chineses e estrangeiros descreveu à sociedade internacional os métodos e pontos principais de todas as linhas de atividade futura do Governo central. As suas palavras constituem uma referência para todos os países do mundo sobre os planos da China.
No relatório de trabalho do governo, Li Keqiang refere como meta de desenvolvimento económico para 2017 um crescimento de 6,5 por cento do PIB, um aumento de 3 por cento na inflação e números superiores a 11 milhões relativamente à população urbana recém-empregada, enquanto a taxa de desemprego urbano deverá ser contida dentro dos 4,5 por cento. Para além disso, no campo financeiro deverão ser abordadas as três questões rurais e apoiadas as pequenas e microempresas.
Para o futuro desenvolvimento, Li Keqiang enfatizou um desenvolvimento estável, significando que deverá ser mantida a atual tendência de estabilidade. Na verdade, manter uma taxa de crescimento de 6,5 por cento não será tarefa fácil. No seu relatório, Li menciona também que este ano as circunstâncias poderão ser mais adversas do que no ano passado, pois incluirão o novo Presidente norte-americano, Donald Trump, cujo rumo contrasta com as políticas de globalização e liberalização do antecessor Barack Obama, seguindo uma via de protecionismo comercial que coloca a América primeiro. Para além disso, nas suas políticas protecionistas aponta claramente a China (quando originalmente queria melhorar as relações bilaterais através do diálogo), e fá-lo deliberadamente. Temos também a Europa cuja economia insiste em não recuperar, o Brexit e as futuras eleições presidenciais em países europeus. Logo, os dois mais importantes parceiros comerciais da China, os Estados Unidos e a Europa, enfrentam este ano correntes antiglobalização.
Para a China, cuja economia está ainda voltada para as exportações, estas circunstâncias constituem desafios enormes. Por isso, a preservação de um crescimento estável de 6,5 por cento será um avanço positivo.
Relativamente ao apoio financeiro, às três questões rurais e às pequenas e microempresas, espera-se ser possível revitalizar algumas comunidades e empresas mais débeis, não deixando que a atenção recaia sempre sobre os gigantes empresariais da China. A China tem agora mais ricos e mais algumas empresas de grande dimensão, cuja visibilidade internacional se tornou extremamente alta. Contudo, num universo de 1,3 ou 1,4 mil milhões, a população rica constitui uma fração bastante pequena. A forma de permitir a todos, ou à maioria, usufruir dos frutos do crescimento económico é que constitui a verdadeira prioridade.
Para preservar a posição estável do renminbi no sistema monetário global, a moeda foi incluída no ano passado num cabaz de divisas internacionais. Mas a que preço? Depois da inclusão do renminbi no cabaz de moedas do Fundo Monetário Internacional, este tem-se desvalorizado incessantemente, e a velocidade com que o faz é algo jamais visto nos últimos anos. Isto diz-nos que, à medida que a China procura a integração internacional, querendo iniciativas de qualidade como a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota, enfatizando a sua vontade de seguir uma via de comércio livre para resolver os problemas comerciais globais, o país enfrenta também um risco. Isto significa que, na transição de fábrica mundial para mercado mundial, o comércio livre exige a abertura do mercado, e este mercado de 1,3 ou 1,4 mil milhões de pessoas é algo que todos querem aproveitar. Depois de aberto o mercado, não faltam oportunidades para que outros venham aproveitar-se dele. É difícil fugir atualmente à agitação política internacional. No tempo da China fechada, bastava deixar-se as tempestades económicas fora da porta, mas agora, assim que se abre a porta é difícil não deixar entrar qualquer vento que sopra lá fora. Desta forma, os riscos económicos da China irão certamente aumentar. Trata-se de um “risco importado”, e se a China conseguir controlar os seus riscos internos ao mesmo tempo que desenvolve imunidade aos riscos importados, melhor. Mas como poderá ser possível continuar atualmente a perseguir o crescimento ao mesmo tempo que se evitam os efeitos dos riscos económicos pós-abertura? Com a entrada em 2017 no segundo mandato de cinco anos de Xi Jinping, assim como com a realização do 19º Congresso Nacional do Partido, é possível prever que serão destacadas as orientações e previsões para a economia chinesa nos próximos cinco anos e também a longo prazo. Logo, estamos atualmente num ano crucial no controlo de riscos para alcançar metas que incluem os 6,5 por cento de crescimento. Tal como disse Li Keqiang, este é um ano crucial de transição de lagarta para borboleta. Haverá dores de crescimento, mas haverá também muita esperança.

DAVID Chan

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