Um nicho financeiro à sombra do Continente

por Arsenio Reis

Pequim apoia e Macau quer. Há um sistema financeiro mais especializado no horizonte onde atividades já tradicionais noutras paragens como o leasing e a gestão de património se revestem de novidade por força de algum subdesenvolvimento. Faltam leis atualizadas e pessoal mais qualificado. Mas procura não.

Viver nas imediações de um mercado imperfeito oferece oportunidades mesmo quando os recursos são poucos. Com um sector financeiro lucrativo mas pouco desenvolvido, que admite carências do ponto de vista humano e até das estruturas legais que o suportam, Macau tem hoje condições de procura e políticas para a especialização em novos serviços que respondam às necessidades de financiamento e investimento do interior da China, com a segurança de uma moeda apensa ao dólar e em rota de valorização.

O Governo da região elegeu recentemente as atividades de leasing e de gestão de património como vertentes estratégicas a apoiar na procura por uma maior diversificação de uma economia dominada pelo jogo em casino. O impulso de saída de capitais da China e de proteção contra risco cambial, a elevação dos rendimentos médios da população chinesa, e também o seu envelhecimento, poderão favorecer estes sectores subdesenvolvidos, mas a região terá de se mostrar competitiva, entendem os especialistas.

“Não basta dizer ‘eu quero ter financial leasing’. Só vêm para cá se as nossas condições forem melhores”, diz António Félix Pontes, presidente do Instituto de Formação Financeira (IFF), que acompanha a supervisão do sector há mais de três décadas. O responsável tem hoje em mãos a tarefa de assegurar a certificação e formação profissional do pessoal da banca e do sector segurador, área em que são apontadas fortes lacunas, à semelhança do que sucede também na área dos incentivos e da legislação.

Félix Pontes recorda experiências anteriores, como a de desenvolver Macau como destino offshore com legislação implementada antes da transferência da Administração de Macau, em 1999. “Foi um fiasco. Hoje só temos aqui bancos portugueses”, alerta. O atual empurrão político para uma nova dimensão de especialização, admite, “é uma ideia boa”. “Mas temos de criar condições atrativas”, contrapõe.

Leis ultrapassadas

De acordo com o dirigente do IFF, e antigo presidente da Autoridade Monetária de Macau (AMCM), há que rever as leis do sector, “que estão totalmente ultrapassadas”. “Em relação ao desenvolvimento financeiro, Macau pode fazer muito mais. Temos muita legislação que data dos anos 1990, sobretudo da parte final, uma vez que houve que preparar legislação por causa da transferência”, diz.

É o caso do regime que enquadra a atividade das agências de leasing, ou sociedades de locação financeira, em vigor desde 1993. “Tem de ser alterado. Por um lado, aumentando os incentivos fiscais e, por outro, irmos para determinado tipo de locações financeiras”, afirma Félix Pontes. Se por um lado, a própria ideia de desenvolver o leasing exige especialização em si própria consoante os sectores que se quer trabalhar (aviação e navegação, por exemplo), é ainda preciso garantir que a Administração local é ágil a atribuir liecnças. 

Em Macau, domina o financiamento de crédito tradicional, havendo uma pequena componente de leasing explorada também pela banca convencional através de subsidiárias. Já a gestão de património tem vindo a crescer à boleia dos seguros de vida associados a investimento, explorados por 19 entidades, 14 das quais implantadas localmente e também incluindo bancos. 

De acordo com Jacky So, diretor da Faculdade de Gestão da Universidade de Macau e professor de Finanças, a realidade da região contrasta fortemente com a de Hong Kong, onde uma abundância de pequenas entidades de crédito – conhecidas como ‘choi sio’, ou ‘pequeno dinheiro’ na tradução literal do cantonês – acumula um volume de atividade superior ao da banca convencional, sem a obrigação de cumprimento das normas que são impostas às instituições tomadoras de depósitos.

“Macau deve aprender com Hong Kong, onde há alguma regulação, embora haja hoje quem defenda que estas empresas financeiras cumprem demasiado poucas regras”, diz o académico. Jacky So admite um compromisso numa solução para Macau. “Numa cidade em desenvolvimento como a nossa, precisamos de uma quantidade adequada de regulação. Não pode haver um mercado 100 por cento livre. O que precisamos é de algum espaço de manobra para que possamos acumular algum risco. De contrário, estas empresas não vão conseguir crescer”, defende.

Lacunas na formação

“O tamanho da região é pequeno e há outra questão – talento”, diagnostica Jacky So tocando naquela que é uma das mais reconhecidas lacunas para o desenvolvimento sector: a qualificação profissional. Na última terça-feira, o secretário para a Economia e Finanças, Lionel Leong, abria um Fórum de Inovação com operadores do sector prometendo esforços para as “indústrias emergentes” identificadas politicamente: organização de convenções e sector financeiro. Uma comissão da Administração criada com o propósito de suportar novo talento, dava no mesmo dia conta da encomenda de um estudo sobre a procura de pessoal qualificado para o sector financeiro.

“Podemos formar pessoas em início de carreira, e até a um nível intermédio, mas não temos em Macau suficientes executivos sénior experientes. Primeiro, porque o salário é demasiado baixo – 40 por cento abaixo do praticado em Hong Kong. O sector financeiro e bancário tende a pagar muito bem e os salários têm de ser competitivos”, nota Jacky So. 

“Em segundo lugar, há que perceber que estes profissionais não estão apenas a pensar no dinheiro – têm famílias”, junta. O pacote completo para atrair o talento, diz, deve incluir opções de trabalho para cônjuges, ofertas de educação, transportes e bons serviços de saúde.

De acordo com os dados de inquérito à mão-de-obra da região, no final de Outubro último os bancos de Macau empregavam 6,072 funcionários, pessoal que cresceu 17,5 por cento em cinco anos. Os quadros dirigentes da banca, hoje contabilizados em 1,672 funcionários, aumentaram em 63 por cento, e o pessoal intermédio conheceu um salto de cerca de 40 por cento para 2,022 funcionários, no mesmo período.

A taxa de rotatividade no sector atinge os 3,4 por cento e, se os salários têm crescido em linha com o desenvolvimento económico local – 9,75 por cento no topo de carreira e 20 por cento nas posições intermédias, face a 2011 – o valor destes mantém-se bastante aquém do que oferecem outros sectores de atividade. A uma média salarial de cerca de 45 mil patacas na chefia de um banco corresponde uma de 51,500 patacas na direção de um casino. O salário médio de 21 mil patacas para os quadros intermédios financeiros compara com 27 mil patacas em posições da mesma responsabilidade no sector do jogo.

As instituições financeiras têm no entanto apostado numa maior qualificação dos seus trabalhadores nos últimos anos, segundo mostram as estatísticas disponíveis desde 2014. No ano passado, 22 de 28 dos bancos da região ofereciam formação profissional, envolvendo 8,459 funcionários, sobretudo nas áreas de comércio e gestão e na área do direito. Surpreendentemente, porém, de uma taxa de 28 por cento de pessoal de pessoal com qualificação profissional em 2011 caiu-se para apenas 24 por cento no ano passado.

“Estamos a tentar preencher as lacunas que existem em formação”, explica António Félix Pontes do IFF. A instituição é responsável pela certificação profissional com base em acordos com entidades internacionais e organiza cursos regulares em vertentes financeiras que vão da gestão bancária e seguradora a ações mais específicas como seminários sobre o funcionamento de trusts, ou fundos de gestão patrimonial, e sobre a atividade de leasing, a ter início este ano. 

“Não temos cursos de leasing e em Hong Kong também não há – são dados muito esporadicamente. Mas vamos tentar ter todos os anos estes cursos de locação financeira”, explica. É uma das carências identificadas, a que se junta a de qualificação de profissionais de gestão bancária a meio da carreira. Os cursos nesta vertente vão iniciar-se e ter a duração aproximada de três anos.

“Estamos a preparar os executivos. Demora o seu tempo. E, durante esse tempo, mesmo para os acompanhar, vamos ter necessidade de ter bons técnicos do exterior”, admite Félix Pontes. 

O próprio IFF, com seis funcionários, tem dificuldades em assegurar formadores – o presidente, por exemplo, vê necessidade de acumular as suas funções de gestão com a prática lectiva. “O Instituto podia fazer mais, como é evidente, Mas, para isso, precisamos não só dos recursos humanos, mas também dos professores qualificados”, afirma. 

Necessidades especiais

A procura por professores e formação existem, tal como existe a procura por profissionais mais qualificados. Existe ainda uma procura potencial significativa pelos novos serviços financeiros especializados que o Governo de Macau pretende apoiar, entende Jacky So, da Universidade de Macau.

“Na área do leasing, os clientes serão as construtoras e as start-ups”, estima o académico, atendendo à continuidade dos projetos na área da hotelaria e habitação e a constantes necessidades de equipamento por empresas de pequena e média dimensão – subempreiteiros e novos negócios sem historial de crédito que assegure financiamento bancário. 

Mas é sobretudo a China Continental que abre as perspetivas de negócio, em particular na vertente de gestão do património. “É um grande tópico na China onde as pessoas acumularam grande riqueza nos últimos anos”, assinala. Por outro lado, as políticas demográficas históricas do país sustentam uma nova realidade: “Se com a política de filho único a tendência é ver-se os encargos destes filhos com os familiares mais velhos, há que ver o outro lado – são herdeiros únicos de, pelo menos, duas casas de família. Têm dinheiro e precisam de gestão de riqueza”.

Por outro lado, regiões como Hong Kong e Macau oferecem nas suas divisas, indexadas ao dólar norte-americano, uma resposta à corrente desvalorização do renminbi e à necessidade de substituição de moeda possibilitando a retirada de capitais da China Continental. “Os produtos tradicionais são usados para responder a necessidades especiais”, explica Jacky So, admitindo vantagens na vizinhança com um  sistema financeiro não-liberalizado. “Quando o renminbi for plenamente convertível e internacionalizado tudo isto desaparecerá. O que temos agora é um mercado imperfeito”, diz. 

“Quando as pessoas da China vêm a Macau, vão jogar nos casinos, vão às Ruínas de São Paulo e vêm comprar seguros – nomeadamente, de vida. Se forem criadas condições para uma oferta de serviços em wealth management, também pode ser que haja fundos da China que venham para cá”, concorda António Félix Pontes.

Para já, a região conta com a condição de sucesso principal: apoio político do Governo Central da China. “Eles querem ajudar – e está meio caminho andado, naturalmente. Vão forçar, influenciar, a que [operadores e clientes] venham para cá. Se não, não temos hipóteses. Temos é de criar condições”, diz Félix Pontes. 

Maria Caetano

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