Não há fumo sem fogo

por Arsenio Reis

Alexis Tam está disponível para aceitar salas de fumo nos casinos. Faz bem. Primeiro, porque negociar é isso mesmo: exigir o céu; mediar energias; conquistar a terra. Para os casinos, jogadores, e trabalhadores, o desfecho é razoável. Já o Governo… passa a mensagem antitabágica e impõe uma restrição difícil de gerir, na indústria mais poderosa do burgo.

Em política, o copo meio cheio – ou meio vazio – beneficia a imagem de uns; prejudica a de outros. Pelo menos há sempre a tentação de o fazer. Entende-se a discussão em torno de saber quem cede a quem. Não é o debate mais estimulante, mas vale a pena olhar para ele. Alexis Tam entrou a matar: tolerância zero. Foi inicialmente inflexível, mostrou convicção e autoridade. Nos bastidores, avisou que negociaria, sem contudo ceder: saúde pública, defesa dos trabalhadores – fumadores passivos – e uma política antitabágica, hoje muito em voga na China, comandada pela primeira-dama, Peng Liyuan. Do outro lado está o interesse económico, a pressão dos casinos, a liberdade individual dos fumadores, uma Assembleia Legislativa completamente manipulável, e o lobby do tabaco. Não é uma guerra qualquer.

Resultado: os casinos conseguem o que podem; quem quer fumar não tem de sair à rua; os trabalhadores são protegidos – expostos apenas em curtas operações de limpeza. O Governo mostra autoridade, passa a mensagem, e acaba mostrando bom senso. Nestas guerras nem sempre há finais felizes, mas este não está mal. Não há mortos nem feridos.

Nas guerras fraturantes muitas vezes falta bom senso. Quando todas as energias se focam no combate, perde-se margem emocional para o consenso. Não foi este o caso. Numa terra pequena, densa, em que a cultura do poder se centra em jogadas de bastidores, as combinações de interesses são muitas vezes ilegítimas. A luta política, essa, padece consistentemente de falta de transparência. Também não foi este o caso.

Não podia haver este acordo no fumo sem antes haver fogo. De parte a parte, dadas as forças em presença. E o equilíbrio é sempre uma boa medida. Está meio cheio, meio vazio. Então é esse o ponto.

Paulo Rego 

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