Turismo está a mudar

por Arsenio Reis

Um estudo recentemente publicado dá conta de que os visitantes do território começam a dar importância a outros elementos que não o jogo. Os números do governo revelam ainda que houve uma mudança de tendência, com o número de turistas a pernoitar em Macau a ser superior aos que fizeram uma visita de um dia. Os analistas contatados pelo PLATAFORMA admitem que são bons sinais, mas dizem que há muito caminho a trilhar, antes que se possa apregoar uma diversificação no setor.

As conclusões são animadoras, mas dão conta de uma realidade muito incipiente. É o que dizem os especialistas contactados pelo PLATAFORMA, quando confrontados com o estudo efetuado por uma consultora que revela haver um interesse maior por outros fatores que não os casinos, como a restauração e as compras.

O estudo foi desenvolvido pela consultora norte-americana Bernstein Research e teve por base um inquérito a 1900 pessoas. “A maioria dos visitantes vê o jogo como uma extensão da experiência de férias mas não necessariamente a única razão para visitar Macau”, lê-se no documento citado pelo portal World Casino News. “Compras e restaurantes são aspetos importantes com o tempo passado em ambos a ultrapassar as horas passadas no jogo. Os visitantes planeiam gastar um montante mais elevado nas viagens subsequentes.”

O estudo revela ainda que a duração média da visita para os residentes da província vizinha de Guangdong é de 1,5 noites, enquanto os que vêm de destinos mais longínquos já permanecem, em média, 2,2 noites. O documento indica ainda que 80 por cento dos visitantes que ficam apenas uma noite usam como meio de entrada preferencial o visto individual de turismo.

Os números da direção dos serviços de Turismo (DST) confirmam que em 2016 houve uma mudança na hotelaria, com o número de visitantes a pernoitar em Macau a ser superior aos que fizeram uma visita esporádica de um dia. “Há um aumento do número de quartos disponíveis, e uma maior possibilidade dos turistas conseguirem quartos mais baratos, uma vez que o preço médio baixou”, explicou aos jornalistas Helena de Senna Fernandes. A diretora dos Serviços de Turismo acrescentou que estes números refletem o “grande esforço feito em termos de actividades, e da criação de diferentes zonas para turistas”.

Os principais mercados continuam a ser os mais próximos, nomeadamente o interior da China, Hong Kong e Taiwan. Em termos internacionais, o mercado coreano continua no topo da lista dos visitantes de Macau. A tendência de subida também se fez sentir nos mercados do Sudeste Asiático, com a Tailândia a ser o país que mais cresceu em termos de turistas a visitar Macau, mais de 30 por cento.

O professor do Instituto de Formação Turística (IFT), John Ap, afirma que estes resultados são um sinal de que o governo, através da DST e do secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, tem promovido a necessidade de diversificar a oferta turística. A queda das receitas do jogo serviu de “alerta”, levando a que o executivo “começasse a caminhar na direção certa”. Aliás, alinhando pelo diapasão do governo, os novos resorts, recentemente abertos no Cotai, já contêm alguns elementos que servem de atração para as famílias, como uma roda gigante ou um teleférico. 

Além disso, o perfil dos turistas a visitar o território está a mudar. “Há um crescente número de turistas da China Continental, que não vêm necessariamente em grupo — são jovens profissionais da classe média com famílias à procura de alternativas”, diz, acrescentando: “A classe média e os jovens profissionais têm emergido como viajantes independentes, que fazem as suas próprias reservas e não se juntam a grupos.” Ainda assim, no que toca aos mais jovens, o analista considera que Macau continua a falhar. “É preciso criar pacotes promocionais para as famílias com crianças pequenas”, sugere. “O Centro de Ciência de Macau podia fazer parte desses pacotes — passe a noite connosco [num dado hotel] e vá lá”, diz, a título de exemplo. Ou a DST poderia procurar lançar pacotes que envolvam as indústrias criativas. “Podia organizar-se oficinas de artes manuais para os miúdos — por exemplo, os azulejos são muito tradicionais aqui, podia organizar-se qualquer coisa para as crianças.” 

É, assim, necessária uma mudança de fundo na imagem de Macau enquanto destino turístico. “Dado que temos alguns turistas mais educados, mais velhos, com interesse específico na cultura, talvez alguns operadores possam desenvolver um produto de nicho baseado nos monumentos, levando os visitantes a outros edifícios espalhados por Macau e que não são os monumentos mais famosos”, declara.

Faltam produtos para crianças

Para o professor de jogo e gestão de turismo da Universidade de Macau, Glenn McCartney, com a abertura de resorts que dão ênfase a outros elementos que não o jogo, esta é uma transição “natural”, motivada pela nova oferta. Ainda assim, está tudo “no início” e não houve nem haverá num futuro próximo “mudanças profundas”, sobretudo porque falta resolver “grandes assuntos”.

Assim, o analista diz ao PLATAFORMA que o território deveria “procurar algo mais”, assegurando uma oferta que permita aos visitantes ficar e gastar durante mais tempo. Mas isso passa por uma direção, que ainda não existe. “Ainda não concordámos quanto à base, no que toca à imagem do território enquanto destino turístico”, realça, acrescentando que isto passa pelo diálogo entre os setores público e privado.

Macau é considerado “bom pelo dinheiro que se dá”, mas faltam também “determinadas infra-estruturas” para que a imagem do território mude. “Filas longas no terminal marítimo, no aeroporto, nos táxis não são favoráveis. É preciso corrigir essas coisas”, diz.

Ainda assim, admite que há agora “um sentimento positivo” e que traz resultados favoráveis à restauração, ao retalho, aos hotéis, à indústria dos eventos. Mas mais precisa de ser feito. “Espero que o plano geral do desenvolvimento da indústria do turismo de Macau pese todos os fatores”, conclui. 

Recorde-se que no início do ano foi aprovado o plano geral do desenvolvimento da indústria do turismo de Macau, que prevê que em 2025 o território possa receber entre 38 milhões e 40 milhões de visitantes. 

O documento vai orientar o desenvolvimento do sector nos próximos 15 anos. De acordo com a DST, estas opiniões foram tidas em conta para realizar ajustamentos no planeamento geral para o turismo. Os responsáveis pelos serviços de Turismo querem estar menos dependentes dos visitantes da República Popular da China.

Em relação à diversificação dos países de origem dos turistas, a DST espera que em 2025 entre 14 e 15 por cento dos visitantes cheguem de regiões fora da Grande China. Atualmente a proporção deste tipo de turistas está nos 9 por cento. Também a médio prazo, há o objectivo de incentivar em Macau a construção de parques temáticos de renome mundial. 

A consulta pública sobre o Plano Geral do Desenvolvimento da Indústria do Turismo durou dois meses e recolheu mais de 1100 opiniões. Espera-se que o projeto final deste plano esteja concluído em “meados de 2017”, segundo a DST. 

Luciana Leitão

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